Há vozes que informam. E há vozes que formam um país. Emílio Manhique foi a segunda e permanente nos auditórios da Rádio Moçambique
Quando falamos da Rádio Moçambique, não falamos de um edifício em Maputo. Falamos de uma pátria sonora que vai de Ponta do Ouro ao Rovuma. E durante 35 anos, o professor catedrático dessa pátria chamou-se Emílio Manhique.
Nascido em Xai-Xai, na terra de boa gente (Gaza), a 28 de outubro de 1960, filho de camponeses que nunca imaginaram que o filho se tornaria a voz matinal de 30 milhões de moçambicanos. Entrou na RM no dia 1 de dezembro de 1980, como simples redactor-estagiário, numa época em que para ser jornalista era preciso ter coragem e dedicação porque o país estava em guerra e a notícia podia custar a vida.
Como era gostado pelos ouvintes assíduos da Rádio Moçambique?
O ouvinte da RM não ouvia Manhique. Ele convivia com Manhique.
O camponês em Mulima, o professor em Chemba-Sede, a vendedora de peixe em Catandica, o maquinista do CFM no Dondo… todos tinham o mesmo ritual. Ligavam o rádio a pilhas, às 5h55, e esperavam. E quando aquela voz grave, pausada, com aquele sotaque do sul, mas com coração nacional, entrava, o dia podia começar.
A sua mensagem a tónica na saudação, aquela que ficou eternizada, era “Bom dia… Moçambique!”
Ele não dizia correndo. Ele dizia como quem reza. Uma pequena pausa entre o “dia” e o “Moçambique”. “Bom dia… Moçambique!” Parecia que ele estava a olhar para cada um de nós, a chamar pelo nome. Não era saudação de estúdio. Era saudação de família. Era o pai que acordava os filhos para a machamba.
Por isso era tão amado. Porque naquela rádio muitas vezes politizada, a voz dele era neutra, humana e verdadeira. Ele não gritava. Ele não insultava. Ele informava com dignidade. O ouvinte sabia: se o Manhique disse, é verdade.
Foi ele, Chefe, que em 4 de Outubro de 1992, em Roma, com lágrimas nos olhos, narrou em directo a assinatura do Acordo Geral de Paz. Ele levou o fim da guerra aos ouvidos de um povo cansado de tiros e gravou as vozes de Joaquim Alberto Chissano, Afonso Dhlakama e outros intervenientes da Paz em Roma na Itália.
Os efeitos positivos que deixou e que ainda vivem:
Deixou a ética como herança. Num tempo de sensacionalismo, ele provou que não é preciso ofender para ter audiência. O rigor é a maior audiência.
Deixou a escola. Quase todos os grandes editores da RM hoje foram estagiários dele no Jornal da Manhã, que ele editou com firmeza e coração de pai desde 2002.
Deixou a prova de que a rádio comunitária importa. Ele sempre defendeu que a RM só é nacional porque as rádios comunitárias de Chemba, de Marínguè, de Gorongosa repetem a sua voz.
Há quanto tempo Moçambique deixou de escutar a sua voz?
Manhique calou-se na madrugada de domingo, 4 de outubro de 2015. Queixou-se de febres um dia antes, sábado à noite. O seu estado agravou-se e faleceu a caminho do Hospital Central de Maputo. Tinha apenas 54 anos, muito para dar Moçambique.
Hoje, 4 de outubro de 2026, completam-se 11 anos de silêncio. Enquanto se celebra a paz em Moçambique.
São 11 anos sem o nosso “Bom dia… Moçambique!”
São 11 anos de manhãs mais frias.
São 4015 dias sem o professor do microfone.
Moçambique cresceu, vieram as redes sociais, vieram as TVs a cabo, mas nenhuma tecnologia substituiu o ritual de ouvir o Manhique dizer que o país acordou. (Rosário Phoinde).
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