Durante três dias, a cidade da Beira foi palco de um encontro que reuniu à mesma mesa representantes do Governo, parceiros, comunidades locais e profissionais de comunicação social para discutir um desafio que diz respeito a todos: a conservação da biodiversidade.
Realizado de 29 de setembro a 1 de outubro, o seminário reuniu participantes provenientes de Sofala, Manica, Tete e Zambézia, com particular enfoque no reforço do papel das comunidades locais e dos jornalistas na conservação da biodiversidade.

Mais do que falar sobre biodiversidade, o encontro procurou criar um espaço para partilhar experiências, aprender com iniciativas já desenvolvidas nas comunidades e identificar formas de transformar esse conhecimento em acções concretas.
Ao longo dos três dias, instituições como a Direção Nacional de Ambiente e Mudanças Climáticas (DINAMC), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a NBSAP Accelerator Partnership, o BIOFIN (Iniciativa de Financiamento da Biodiversidade), o Parque Nacional da Gorongosa, a Profundus, a Rede para Gestão Comunitária da Natureza em Moçambique (REGECOM), o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Associação de Gestão de Recursos Naturais de Nhangau (AGRN-Nhangau), a Associação de Apoio e Assistência Jurídica às Comunidades (AAAJC), a Kukumbi e a ADEL Sofala partilharam experiências relacionadas com a conservação, o envolvimento comunitário e a comunicação ambiental.
Para a directora provincial de Desenvolvimento Territorial e Ambiente, Beatriz Dias, a escolha de Sofala para acolher o encontro está relacionada com a sua riqueza ecológica, mas também com os desafios que se colocam às comunidades que vivem e dependem dos recursos naturais.
A conservação da biodiversidade, segundo Beatriz Dias, não pode ser responsabilidade exclusiva dos técnicos e das instituições. As comunidades precisam de estar informadas e envolvidas, enquanto os jornalistas têm um papel importante na divulgação de informações capazes de contribuir para a mudança de comportamentos.
É justamente neste ponto que a experiência das comunidades ganha importância.
O régulo do Posto Administrativo de Nhamitanga, Marissane Pazura Singano, explicou que, nas comunidades, a conservação da floresta já passa por iniciativas concretas, muitas delas desenvolvidas com o apoio de parceiros.
“Para conservar as florestas, temos feito reflorestamento com a ajuda de parceiros, como o Parque Nacional da Gorongosa. Apoia-nos, por exemplo, com as mudas de cajú. Conservamos a floresta, evitando queimadas descontroladas. E isso conta também com fiscais comunitários”, explicou.
Para o régulo, o encontro permitiu também compreender melhor as questões relacionadas com as mudanças climáticas e com os mecanismos de distribuição das receitas provenientes da actividade turística.
“Aprendi sobre as mudanças climáticas, o pagamento de 20% das receitas por operadores no turismo, como são canalizadas e como devem ser usadas. E levo essas matérias para a minha comunidade para sabermos como usar os nossos recursos naturais”, disse.
Mas a conservação não depende apenas do conhecimento. Depende também de recursos para transformar ideias em iniciativas.
Durante o seminário, destacou-se que muitas comunidades têm ideias e iniciativas com potencial para contribuir para a conservação da biodiversidade, mas enfrentam dificuldades de acesso ao financiamento. Por isso, os participantes tiveram também contacto com mecanismos de financiamento da biodiversidade e com ferramentas para o desenvolvimento de projectos de impacto comunitário.
Quando a conservação precisa de ser contada
Se as comunidades estão na linha da frente da conservação, os jornalistas têm um papel importante em fazer com que as suas experiências sejam conhecidas.
Uma das dificuldades identificadas durante o encontro foi a necessidade de reforçar a capacidade dos profissionais de comunicação social para cobrir questões ambientais. Para além de informar, o jornalista precisa de compreender a relação entre os problemas ambientais, as comunidades e os recursos naturais de que estas dependem.
Foi também por isso que os profissionais de comunicação social foram convidados a participar no seminário.
Para Esménia Mathe, jornalista da Rádio Comunitária de Marromeu, falar sobre biodiversidade é cada vez mais importante.
“Nos últimos tempos, muitas espécies estão a desaparecer, por isso, há necessidade de a população conservar a biodiversidade”, afirmou.
Na sua perspectiva, o papel do jornalista não deve ser apenas dizer às pessoas o que podem ou não fazer, mas também ajudar a explicar como os recursos naturais podem ser utilizados de forma responsável.
“Como jornalista, o meu papel é sensibilizar a comunidade para o uso sustentável dos recursos naturais. Falar do uso não implica só proibir; é necessário ensinar e promover o uso de forma adequada dos recursos existentes”, disse.
A importância destes espaços de troca de experiências foi igualmente destacada por Richard Vidamão, supervisor de Relações Comunitárias do Parque Nacional da Gorongosa. Para ele, encontros desta natureza permitem melhorar o alinhamento, o entendimento e a circulação de informações, sobretudo quando envolvem a imprensa.
Na Zona de Desenvolvimento do Parque Nacional da Gorongosa, os desafios estão ligados à necessidade de conciliar a conservação dos recursos naturais com o desenvolvimento das comunidades. É um processo que continua a exigir tempo, recursos, participação comunitária e diálogo entre os diferentes actores.
Da experiência à acção
O seminário não se limitou às apresentações.
Os participantes realizaram exercícios práticos e trabalhos em grupo e discutiram as Convenções do Rio, nomeadamente: as mudanças climáticas, o combate à desertificação, a conservação da biodiversidade, incluindo o envolvimento das comunidades e o papel da comunicação social.
Foram igualmente abordados os compromissos nacionais de Moçambique no âmbito do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, bem como as respetivas metas nacionais de biodiversidade.
A discussão terminou com uma componente voltada para o financiamento da biodiversidade e para o desenvolvimento de projectos, procurando aproximar o conhecimento adquirido durante o encontro, a elaboração de propostas concretas de iniciativas de projectos.
No final, ficou uma questão cuja resposta dependerá do que acontecer depois do seminário: como transformar o conhecimento partilhado nestes três dias em mudanças concretas nas comunidades e na forma como a biodiversidade é comunicada e conservada?
A resposta dependerá do envolvimento de todos, das comunidades locais, jornalistas, Governo, parceiros e actores privados, bem como, da capacidade de manter o diálogo para além da sala onde o encontro aconteceu.
O seminário foi organizado pelo Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, com apoio financeiro da NBSAP Accelerator Partnership e do PNUD Moçambique, e com colaboração técnica da IUCN, WWF e ReGeCom. (Luísa Franque).
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