“Talvez a maior medida da restauração não seja apenas aquilo que trazemos de volta…é aquilo que tornamos possível”

O Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, é o segundo galardoado com o prémio, atribuído em 2025 a Harrison Ford. A Presidente do Projecto de Restauração da Gorongosa, Aurora Malene, recebeu-o no Sanders Theatre da Universidade de Harvard, no Half-Earth Day.

O Projecto de Restauração da Gorongosa recebeu o Prémio Legado E.O. Wilson para Liderança Transformadora na Conservação (E.O. Wilson Legacy Award for Transformative Conservation Leadership), no Half-Earth Day 2026, realizado no Sanders Theatre da Universidade de Harvard. O prémio foi entregue pela Dra. Paula J. Ehrlich, Presidente e CEO da Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade. Aurora Malene, Presidente do Projecto de Restauração da Gorongosa, recebeu-o em nome dos cientistas e fiscais da Gorongosa e das suas equipas que trabalham nas comunidades vizinhas do Parque em apoio à educação, à saúde, à silvicultura e à agricultura.

A cerimónia abriu com um pequeno filme, narrado por Greg Carr, sobre o tempo que o Professor Wilson passou na Gorongosa e sobre os jovens cientistas moçambicanos que hoje dão continuidade ao seu trabalho no Parque. O actor e conservacionista Harrison Ford, que recebeu o prémio na sua primeira edição, no Field Museum de Chicago, em Outubro de 2025, passou o testemunho por vídeo.

“O Ed Wilson adorava a Gorongosa. Dizia que estava tal como era antes da chegada da humanidade”, disse Ford. “O Projecto de Restauração da Gorongosa — fiscais, cientistas, professores, médicos e os jovens moçambicanos que hoje lideram este trabalho — passou mais de 20 anos a garantir que continue assim. É isso que este prémio reconhece. E não consigo pensar em ninguém que o mereça mais. É uma honra para mim passar o Prémio Legado E.O. Wilson ao Projecto de Restauração da Gorongosa.”

Após o discurso principal, Malene foi acompanhada em palco pela Dra. Susana Carvalho, Directora de Ciência da Gorongosa, numa conversa conduzida pela apresentadora Adrienne Keene.

“Talvez a maior medida da restauração não seja apenas aquilo que trazemos de volta”, disse Malene no seu discurso. “É aquilo que tornamos possível.”

 

Gorongosa é mais que um Parque

No evento, o Embaixador de Moçambique nos Estados Unidos da América, Alfredo Nuvunga, esteve presente como membro da delegação moçambicana. “Para Moçambique, a Gorongosa é muito mais do que um parque nacional”, afirmou. “É um símbolo vivo de paz, reconciliação, resiliência e esperança. A Gorongosa tornou-se um exemplo inspirador de como a natureza pode recuperar, as comunidades se podem reconstruir e a esperança pode ser restaurada. De muitas formas, a Gorongosa conta a história do próprio Moçambique — uma nação que enfrentou adversidades, mas que continua a acreditar no poder da paz, da renovação e da parceria.”

 

Porquê a Gorongosa

O prémio distingue pessoas e organizações que dão continuidade ao trabalho de E.O. Wilson na ciência da conservação, no envolvimento do público e na construção de movimentos.

A ligação do Professor Wilson à Gorongosa começou em 2008. Greg Carr acabara de assinar um acordo com o Governo de Moçambique para restaurar o Parque. Carr considerava Ed Wilson o biólogo mais influente desde Charles Darwin, por isso contou-lhe a novidade. “Ele olhou para mim e disse: ‘Isso põe-me o coração aos saltos’”, recorda Carr. Wilson visitou a Gorongosa três vezes, ficando cerca de um mês de cada vez. Ele e a sua equipa registaram mais de 200 espécies de formigas no Parque, 20 delas novas para a ciência. Acolheu jovens moçambicanos como assistentes de campo e escreveu sobre o Parque em A Window on Eternity (2014). O centro de investigação do Parque, o Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, em Chitengo, tem o seu nome, e grande parte do trabalho hoje reconhecido é ali realizado.

Entre 1972 e 2000, em grande parte devido à guerra civil em Moçambique e às suas consequências, a Gorongosa perdeu mais de 90% dos seus grandes animais. A restauração começou no início da década de 2000 e, desde 2008, é levada a cabo no âmbito de uma parceria público-privada entre o Governo de Moçambique e a Fundação Carr. O Parque tem hoje mais de 100% da biomassa equivalente de fauna bravia que tinha na década de 1960, antes do conflito civil. Elefantes, pivas, impalas, changos, cudos, inhalas e muitas outras espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes prosperam hoje no Parque. A população de leões, que em 2004 não chegava a dez indivíduos, conta hoje mais de 250 animais.

A ciência tem orientado essa recuperação, em parceria com mais de 80 universidades que trabalham no Parque, incluindo Harvard, Princeton, Stanford, Oxford, Cambridge e Lyon.

Os investigadores documentaram mais de 8000 espécies em toda a paisagem da Grande Gorongosa, cerca de 200 delas novas para a ciência. O Parque ministra o único Mestrado em Biologia da Conservação do mundo realizado inteiramente dentro de um parque nacional.

A Gorongosa já formou 48 estudantes moçambicanos; os antigos alunos trabalham hoje em parques nacionais, universidades e no governo. A capacitação é uma das principais prioridades da área de ciência. Seis membros do pessoal obtiveram bolsas competitivas de doutoramento em universidades de topo no Reino Unido, em Portugal e na África do Sul.

A investigação na Gorongosa já produziu mais de 100 artigos científicos, incluindo resultados importantes que mostram como décadas de caça furtiva para obtenção de marfim levaram ao aumento de elefantes sem presas (publicados na Science) e a descoberta dos primeiros sítios fossilíferos do extremo sul do Sistema de Rift Africano (publicada na iScience).

Esse inventário continua a crescer. Em Julho deste ano, ao longo de 11 dias, uma equipa de levantamento do Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, liderada pelo Dr. Jacinto Mathe e coordenada pelo Eng.º Dadzie Tarua, registou cerca de 592 táxones de plantas, animais e fungos. Quarenta e oito nunca tinham sido documentados no Parque, incluindo 25 insectos, 20 fungos, duas plantas e uma rã, Afrixalus crotalus. Um escaravelho-de-esterco, uma espécie de Drepanocerus, parece ser novo para a ciência.

“O nosso trabalho é hoje liderado por cientistas moçambicanos e reflecte a própria essência daquilo que a Gorongosa representa: a ciência ao serviço das pessoas e da natureza. Acreditamos que a ciência só tem valor se formar pessoas a par do conhecimento”, afirmou a Dra. Susana Carvalho.

Greg Carr descreveu assim esta abordagem: “O Projecto de Restauração da Gorongosa utiliza uma abordagem baseada na ciência para gerir ecossistemas, de forma a proteger a biodiversidade e a criar desenvolvimento humano sustentável, contribuindo ao mesmo tempo para o conhecimento mundial através da descoberta, incluindo a maior história da Terra: a evolução humana. A ciência está no centro.”

 

Sobre o prémio e o Half-Earth Day

O Prémio Legado E.O. Wilson para Liderança Transformadora na Conservação foi criado pela Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade em 2025. Reconhece uma liderança excepcional no contributo científico para a conservação da biodiversidade, no envolvimento do público e na mobilização de movimentos que conduzam a resultados de conservação mensuráveis. O prémio reflecte a convicção de Wilson de que “lutar contra todas as probabilidades em nome de toda a vida seria a humanidade no seu expoente mais nobre”.

O Half-Earth Day 2026 assinalou dez anos desde que Wilson lançou o movimento Half-Earth, o seu apelo à protecção de metade das terras e dos mares do planeta para as restantes formas de vida. O evento deste ano foi co-organizado pelo Harvard Museum of Comparative Zoology, pelos Harvard University Herbaria, pelo Harvard University Native American Program, pelo Salata Institute for Climate and Sustainability da Universidade de Harvard e pela Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade.

Edward O. Wilson (1929–2021) foi biólogo da Universidade de Harvard, a maior autoridade mundial em formigas, duas vezes vencedor do Prémio Pulitzer e galardoado com a Medalha Nacional de Ciência dos Estados Unidos, sendo frequentemente chamado o pai da biodiversidade. Ao descrevê-lo, Carr disse: “O Ed Wilson foi um grande homem, mas foi também um homem bom. E não é muito frequente, essas duas qualidades juntarem-se na mesma pessoa.”


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