O Parque Nacional da Gorongosa foi, nos anos 60, um dos melhores parques de África. A guerra civil de 16 anos destruiu mais de 90% da sua fauna. Desde 2005, a parceria entre o Governo de Moçambique e a Fundação Carr devolveu-lhe a vida. Hoje, Gorongosa é um modelo mundial de conservação. O seu futuro depende de ser cada vez mais moçambicano, comunitário e sustentável.
Introdução
Visitei o Parque Nacional da Gorongosa com a minha esposa. Vi o Inhacoso a descansar tranquilo no capim, elefantes a atravessar a planície e o Lago Urema cheio de hipopótamos. Aquilo que vi não era apenas natureza. Era ressurreição.
Para entender o que Gorongosa é hoje, é preciso entender o que foi ontem.
- Ontem: o paraíso colonial
Criada como reserva de caça em 1920 e declarada Parque Nacional em 23 de Julho de 1960, a Gorongosa tornou-se rapidamente uma referência mundial.
Nos anos 60, dizia-se que a Gorongosa tinha mais predadores que o Kruger e manadas mais densas que o Serengeti. Bastava apontar a câmara em qualquer direcção e o ecrã enchia-se de animais.
Mas era um paraíso para poucos. Para turistas estrangeiros e colonos. As comunidades à volta viam os animais, mas pouco beneficiavam deles.
- O ontem trágico: a guerra de 16 anos
De 1977 a 1992, Moçambique viveu uma guerra civil devastadora. A Serra da Gorongosa foi base militar durante anos e o parque ficou no centro do conflito.
Os animais foram abatidos para alimentação, os elefantes para marfim, para financiar a guerra. A infra-estrutura foi destruída, Chitengo ficou em ruínas.
No fim da guerra, mais de 90% dos grandes mamíferos tinham desaparecido. De cerca de 2.200 elefantes, restavam pouco mais de 100. De 14.000 búfalos, cerca de 50. De 3.500 pivas, apenas 129. Gorongosa tinha-se transformado num parque fantasma.
- O hoje: A recuperação desde 2005
Em 2004, o filantropo americano Greg Carr visitou Gorongosa e apaixonou-se pela sua beleza, mesmo destruída. Nasceu então o Projecto de Restauração da Gorongosa.
Em 2008, foi assinado o acordo formal de co-gestão por 20 anos entre o Governo de Moçambique e a Fundação Carr.
A filosofia foi diferente: não era só proteger animais com armas, era ajudar as pessoas. Se as famílias camponesas produzirem mais nas suas machambas, não precisam de caçar no parque para sobreviver.
Os resultados são hoje impressionantes: em 2024, a contagem aérea registou 110.513 animais grandes, o número mais alto de sempre. A população de leões, que em 2004 não chegava a 10 indivíduos, hoje supera os 250. O parque já recuperou mais de 100% da biomassa de fauna bravia que tinha nos anos 60.
Mais de 8.000 espécies foram documentadas, cerca de 200 novas para a ciência. Mais de 1.600 pessoas trabalham directamente no parque, a maioria das comunidades vizinhas. Escolas, clínicas, café de sombra no Monte Gorongosa, e o único Mestrado em Biologia da Conservação do mundo realizado dentro de um parque nacional.
Em Outubro de 2026, o projecto foi distinguido em Harvard com o Prémio Legado E.O. Wilson para Liderança Transformadora na Conservação.
- O amanhã: o futuro olhando para a situação do país
Mas o futuro não está garantido. Moçambique vive tensões políticas, desemprego jovem, mudanças climáticas, pressão sobre a terra e dependência de financiamento externo.
Se o financiamento diminuir, se o turismo não crescer, se as comunidades não sentirem benefício real, o parque voltará a ser pressionado.
Por isso, o futuro da Gorongosa tem de assentar em três pilares:
- a) Moçambicano, com ajuda mútua de estrangeiros de bom senso
O futuro da Gorongosa não é tirar os estrangeiros. É garantir que os moçambicanos lideram, e os estrangeiros ajudam.
Porque a verdade é esta: sem ajuda, não tínhamos conseguido. Mas sem liderança moçambicana, também não teríamos futuro.
Exemplos dessa ajuda mútua que deu certo:
- Greg Carr e a Fundação Carr: Um americano que não veio explorar. Veio com o seu dinheiro, ouviu o Presidente Chissano, assinou parceria com o Governo e disse: “O parque é de Moçambique, eu só ajudo a reconstruir”.
- Os cientistas estrangeiros: Professores de Harvard, Oxford, Princeton, Cambridge, Lyon, que vêm para Gorongosa não para levar os animais, mas para ensinar. Eles trouxeram laboratórios, mas formaram moçambicanos para usar esses laboratórios. Hoje, os 48 mestres moçambicanos formados dentro do parque trabalham em parques, universidades e no governo.
- O Professor E.O. Wilson: Um dos maiores cientistas do mundo, americano, que chamou Gorongosa de “o lugar mais esperançoso da Terra”. Ele não veio mandar. Veio dar prestígio mundial ao nosso parque.
- Os técnicos e veterinários: Estrangeiros que vieram ensinar a capturar elefantes, a colocar coleiras GPS, a cuidar de leões e pangolins, e hoje os fiscais moçambicanos já fazem isso, sozinhos.
Do outro lado, a liderança moçambicana também está a crescer. A Presidente do Projecto de Restauração da Gorongosa é a moçambicana Aurora Malene, eleita em 2024. Foi ela quem recebeu o Prémio E.O. Wilson em Harvard, em Outubro de 2026. Seis dos sete membros do Conselho de Administração do Projecto são moçambicanos.
Os fiscais são moçambicanos, os guias são moçambicanos, os professores das escolas do parque são moçambicanos, os enfermeiros são moçambicanos.
Ou seja: o modelo que funciona é este: Moçambique decide, Moçambique lidera. O estrangeiro de bom senso apoia, financia, ensina e aprende connosco. Não é dependência. É parceria. Não é uma colonização nova. É amizade.
Se um dia a Fundação Carr sair, o parque tem de continuar de pé, porque os moçambicanos já aprenderam a andar sozinhos, mas com gratidão por quem os ajudou a levantar.
- b) Comunitário: O parque só sobrevive se quem vive à volta ganhar mais com o parque vivo do que com o parque morto. Mais escolas, mais saúde, como o novo hospital de ensino de 100 camas em Sofala, mais emprego, mais café, mais turismo comunitário.
- c) Económico: Um turismo que cresce sem destruir. Cada visitante financia fiscais, escolas e saúde.
- O que eu vivi na zona tampão: 10 anos em casa banana
Eu não falo da Gorongosa como turista. Eu vivi a Gorongosa.
Fui professor na Escola Primária de 1º e 2º Grau de Casa Banana, na localidade de Casa Banana, distrito de Gorongosa, durante 10 anos. Depois fui ex-Director Adjunto da Escola Primária de 1º e 2º Grau de Madzimachena, na localidade de Pungué, no mesmo distrito.
Estas duas escolas fazem parte da Zona Tampão do Parque Nacional da Gorongosa. Ou seja, são escolas que vivem lado a lado com o parque, com os animais, com os fiscais, e com os problemas das comunidades.
Nesses 10 anos em Casa Banana, vivi de tudo:
Vivi ciclones que destruíram casas, escolas e machambas. Vivi tensão político-militar, quando as pessoas tinham medo de sair de casa e as aulas paravam. Vivi a Covid-19, quando as escolas fecharam e as famílias ficaram sem nada.
E em todos esses momentos difíceis, o Parque sempre respondeu. O Parque não ficou a ver de longe. O Parque ajudou as populações afectadas com alimentos, transporte, apoio às escolas e às famílias.
Foi aí que percebi que Gorongosa não é só sobre animais. É sobre pessoas.
O que o Parque fez pela educação na Zona Tampão:
- Educação para a Conservação do Meio Ambiente: O Parque formou professores e diferentes actores da Zona Tampão para ensinar as crianças a amar e proteger a natureza. A criança de Casa Banana aprende hoje que o elefante vale mais vivo do que morto.
- Educação da Rapariga: O Parque construiu o Centro de Educação para a Rapariga. Ali, muitas raparigas foram ajudadas a concluir os seus níveis, evitando casamentos prematuros e desistência escolar. Meninas que iam desistir na 5ª classe, hoje estão na 10ª, 12ª, e algumas na universidade.
- Apoio à Agricultura, Educação e Saúde: O Parque apoiou machambas com sementes melhoradas, apoiou escolas com material e formação, apoiou a saúde com clínicas móveis e enfermeiros.
- Emprego para os jovens da Zona Tampão: Muitos jovens que eram meus alunos na Casa Banana e em Madzimachena hoje trabalham no Parque como fiscais, guias, motoristas, técnicos, professores e enfermeiros. O Parque tirou jovens do desemprego e do risco da caça furtiva.
Por isso, quando falo do futuro da Gorongosa, não falo de teoria. Falo daquilo que vi com os meus olhos durante 10 anos: um Parque que, mesmo nos ciclones, na tensão e na COVID-19, nunca abandonou o seu povo.
Conclusão
Ontem, Gorongosa foi um paraíso para poucos. Hoje, é um milagre para todos. Amanhã, se cuidarmos, pode ser o futuro de Moçambique.
Gorongosa prova que é possível reconstruir depois da guerra, depois da destruição, quando se junta ciência, comunidade e vontade política. Apesar de tudo, a luta continua.
Fontes: Parque Nacional da Gorongosa / Fundação Carr; Contagem aérea 2024; Projecto de Restauração da Gorongosa; Harvard E.O. Wilson Legacy Award 2026.
Sobre o autor
Sousa Artur Sousa Roupa, ex-professor na Escola Primária de 1º e 2º Grau de Casa Banana, na localidade de Casa Banana, onde trabalhou durante 10 anos. Ex-Director Adjunto da Escola Primária de 1º e 2º Grau de Madzimachena, na localidade de Pungué, distrito de Gorongosa. Ambas as escolas fazem parte da Zona Tampão do Parque Nacional da Gorongosa.
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