Júnior Rafael
Vocês não conseguem pensar e viver sozinhos. Essa frase soa como insulto, mas é um diagnóstico. Um país que abdica do pensamento crítico, que aceita com naturalidade a imposição de modelos externos como se fossem verdades absolutas, caminha não apenas para a dependência económica, mas para a negação da própria existência como sujeito histórico. Moçambique não sofre apenas com a dívida externa, a pobreza ou a corrupção – sofre com a incapacidade de imaginar-se fora das estruturas de dominação impostas, antes pelo colonizador europeu, agora por agências multilaterais, corporações transnacionais e lógicas neoliberais de dependência infinita.
Convenceram-nos de que a dívida seria o motor do desenvolvimento. Acatamos, celebramos, endividamo-nos em nome de projectos que em nada transformaram a vida concreta do povo. Bilhões de dólares foram emprestados, desviados, enterrados em projectos faraónicos sem retorno social. Quando o FMI nos aplaude, a fome aumenta. Quando o Banco Mundial elogia a “governança”, os hospitais colapsam. Fomos convencidos de que o tractor resolveria o transporte rural, e corremos a aceitá-lo como solução – mesmo diante do absurdo de usar maquinaria agrícola para mover pessoas. Importamos tudo: comida, medicamentos, papel higiénico, como se a ausência de autonomia produtiva fosse um selo de prestígio. Agora, querem que penhoremos a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, um dos poucos activos estratégicos ainda sob domínio nacional, em troca de mais um empréstimo, e aceitamos. Não por hipocrisia – mas por inexistência. A hipocrisia ainda exige consciência de si e dissimulação; a inexistência é pura ausência: de projecto, de memória, de soberania.
Esse não é apenas um problema económico ou técnico: é uma tragédia epistemológica e existencial. Perdemos a capacidade de questionar os discursos que nos subjugam. A colonização deixou de ser apenas territorial para tornar-se mental. Quando um povo acredita que só será reconhecido se importar tudo, endividar-se, ou submeter-se a programas impostos por instituições financeiras globais, é sinal de que já não se vê como protagonista da própria história. O problema não é o tractor, o dólar ou o empréstimo – é o modo como naturalizamos o absurdo, como nos ajoelhamos diante da norma externa, como aplaudimos nossa própria submissão com entusiasmo televisivo e comunicados oficiais.
Por isso, dizer que o país vive uma crise é pouco. Moçambique atravessa uma fase de negação radical de si mesmo, onde a elite dirigente age como caixeiro-viajante de interesses alheios, e o povo, cansado, sobrevive entre a descrença e a apatia. Não se trata mais de reconstruir a economia, mas de reerguer o pensamento – recuperar o direito de imaginar, duvidar, recusar. Sem isso, não haverá soberania, apenas gestão da ausência. Porque quem não pensa por si, quem não planta o que come, quem não decide o seu caminho, não é pobre. É inexistente.
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