HOSPITAL ESCOLA: “Projecto tecnológico com saúde única” na Gorongosa

Nas comunidades de Gorongosa, surge uma nova visão fortalecida pelo Parque Nacional da Gorongosa (PNG): um hospital e um campus de saúde, oferecendo cuidados especializados ainda inexistentes na região.

Só para ter noção, será a segunda maior unidade sanitária do país, depois do Hospital Central de Maputo, e a maior infra-estrutura hospitalar construída de raiz em Moçambique, após a independência. O hospital “escola” será equipado com cerca de cem camas e um campus universitário.

O “hospital escola” não conta apenas com o apoio do Projecto de Gorongosa, mas também com a Universidade de Pittsburgh na segunda cidade mais populosa do estado americano da Pensilvânia, e do Ministério da Saúde de Moçambique. Com isso, coincidentemente, enquanto as elites globais se reuniam nos Alpes no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, outro grupo encontrava-se no Idaho, nos Estados Unidos — sede da Fundação Gregory C. Carr.

Em Idaho, o Projecto de Restauração da Gorongosa, através do seu Presidente, Greg Carr, e o Ministério da Saúde de Moçambique, Ussene Isse, para juntos mobilizarem apoio financeiro, técnico e institucional de modo a construírem o hospital.

Com a criação de uma unidade de pesquisa de plantas medicinais, a Gorongosa pretende valorizar a biodiversidade local, impulsionar a produção de medicamentos e promover soluções inovadoras e sustentáveis para os principais desafios da saúde pública no país.

 

Das oportunidades a realidade moçambicana

Ora, no final de 2024, a Gorongosa foi o centro de discussão e propostas de soluções na área de Saúde, ao mundo, através da sua iniciativa SPARK GORONGOSA. Em cinco dias, o encontro juntou especialistas jovens em Saúde, da Nigéria, Austrália, EUA, África do Sul, Etiópia, Camarões, Benin, Gana, Marrocos, Chade, Zâmbia, Tanzânia, Quénia, além de 12 estudantes moçambicanos.

O encontro com SPARK GORONGOSA a iniciativa de um “hospital escola” projectam uma colaboração com especialistas internacionais para combater problemas de Saúde, a exemplo de malária, má nutrição, doenças gastrointestinais, as mais preocupantes na Zona de Desenvolvimento Sustentável do Parque Nacional da Gorongosa.

Separadamente, em dezembro de 2025, Moçambique assinou um acordo de financiamento da saúde no valor de 1,8 mil milhões de dólares com os Estados Unidos — um de mais de uma dúzia de acordos do género, enquadrados na política “America First”, assinados até agora com países africanos. Embora estes novos acordos representem investimentos inferiores do que os pacotes de ajuda norte-americanos anteriores e associem o financiamento a interesses estratégicos dos EUA, Isse disse estar satisfeito com o acordo.

“O conceito de Saúde Única consiste em levar a saúde para fora dos hospitais e focá-la na comunidade, onde a vida começa”, afirmou Isse à Devex. “Em África, deveríamos ser um exemplo da implementação da Saúde Única.”

Trata-se de um enquadramento que encara a saúde humana, a saúde ambiental e os sistemas de que as pessoas dependem para sobreviver — desde a alimentação aos meios de subsistência — como inseparáveis. Em Gorongosa, a conservação já está ligada aos meios de vida: o café cultivado em encostas montanhosas reflorestadas, por exemplo, foi concebido para beneficiar tanto a terra como as pessoas.

“É um conceito, mas também é prático”, afirmou a directora de desenvolvimento humano do Projecto de Restauração de Gorongosa, Elisa Langa, em entrevista nos EUA. “Quando dizemos Saúde Única, estamos a dizer que tudo está interligado.”

Cerca de 250 mil pessoas da Zona de Desenvolvimento do Parque Nacional da Gorongosa, continuam com profunda vulnerabilidade sanitária. Mulheres continuam a enfrentar os desafios aos serviços da saúde, durante e após a gravidez, muitas crianças enfrentam malnutrição crónica e VIH, além da malária. Ao mesmo tempo, os empregos são escassos e as calamidades naturais ocorrem ciclicamente.

“Se me leva oito anos a tornar-me anestesiologista nos Estados Unidos, em Moçambique isso simplesmente não funciona”, afirmou Juan Carlos Puyana, cirurgião de trauma e professor de cirurgia na Universidade de Pittsburgh. “A esse ritmo, seriam necessários 168 anos para formar o número de anestesiologistas de que Moçambique precisa hoje.”

Se o hospital é o símbolo visível da nova parceria, a sua ambição mais radical é invisível: repensar a forma como os profissionais de saúde são formados em países onde o crescimento populacional ultrapassa a capacidade das estruturas educativas convencionais. Moçambique tem menos de dois médicos por cada 10 mil habitantes, e os circuitos de formação de especialistas ficam muito aquém do crescimento demográfico.

Em vez disso, a parceria procura adaptar modelos de formação acelerada e orientados para funções específicas, que preparem profissionais cirúrgicos não médicos para realizar procedimentos concretos. Estudos sugerem que os resultados para os pacientes são comparáveis aos dos médicos formados de forma convencional em cirurgias de rotina. “Serás o meu aprendiz. Vou realizar uma cesariana 120 vezes até que também consigas fazê-la na perfeição, sob a minha supervisão.”

Um agente de saúde comunitário explica vários aspectos da saúde materna aos membros da comunidade que vivem na “zona de desenvolvimento sustentável”, ou zona tampão do Parque Nacional da Gorongosa.

Além disso, a equipa da Universidade de Pittsburgh que está a ajudar a definir o roteiro do projecto identifica espaço para inovação, nomeadamente na investigação de plantas medicinais e fungos encontrados na região de Gorongosa, bem como em sistemas digitais que possam permitir a Moçambique ultrapassar rapidamente a dependência de registos em papel.

“Não se constrói um hospital moderno para depois os clínicos continuarem a tomar notas em papel”, afirmou Uduak Ndoh, directora-adjunta de sistemas de informação em ciências da saúde da universidade. A visão inclui a utilização de registos clínicos electrónicos — já em fase piloto em Moçambique — e de telemedicina.

O “hospital escola” será projectado também para aquilo que Greg Carr chama de “capitalismo de base comunitária”. Diferente dos habituais hospitais construídos com financiamento pontual de doadores, que lutam muitas vezes para sobreviver quando os fundos terminam.

As empresas baseadas na natureza vão ajudar a financiar serviços públicos, incluindo os cuidados de saúde. Actualmente, o Governo de Moçambique investe cerca de 2,5% do seu produto interno bruto no sector da saúde, mas comprometeu-se a aumentar a despesa nacional em saúde nos próximos cinco anos.

“Começámos imediatamente com a saúde comunitária”, afirmou Carr. “Agora, expandir a saúde comunitária para um sistema hospitalar regional no centro do país é um aumento de escala, mas também uma progressão natural da ideia original”. (Muamine Benjamim).


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