Os moradores das Unidades A e B, quarteirão 5, do bairro Consito, na cidade municipal de Dondo, província de Sofala, denunciam o corte de fornecimento de água potável há cerca de 5 anos. Mesmo assim, os denunciantes são cobrados através de facturas mensais.
Um documento na posse do “Profundus”, emitido em dezembro de 2025, expõe uma cobrança de factura de mais de 500 meticais.
Só no bairro Consito, a situação afecta mais de mil clientes. Uma gota de água da torneira passou a ser ouro, gerando sofrimento e indignação entre as famílias afectadas. Mesmo que o acesso à água potável seja um direito.
Entre a factura e a realidade pela procura de água, está o drama de recorrer a fontes alternativas, com destaque para fontenários e poços, muitas vezes inseguros para o consumo humano. A escassez de água compromete gravemente a higiene, a saúde pública e a qualidade de vida, com altos riscos de contaminação.
“Vivemos esquecidos. Água é um direito, não um luxo. Já estou há 5 anos sem sair água na torneira, mas as facturas continuam a chegar mesmo sem consumir. Já procurei saber o que se passa e até hoje não tive resposta. Não sei onde recorrer. As pessoas que trazem as facturas dizem para pagar primeiro e depois reclamar”, desabafou Luísa João, que, no calor da frustração, decidiu tomar medidas: “já pedi ao meu filho para retirar a torneira aqui em casa”.
“A água para o consumo, vamos buscar nos fontenários. Não é fácil, porque somos muitos e carregamos bidões”, lamentou Luísa João, apelando parta intervenção urgente no abastecimento do escasso líquido.
O líder do bairro Consito, João Caetano, um dos afectados, afirmou que o problema já foi reportado ao Fundo de Investimento e Abastecimento Público de Água (FIPAG) e ao Conselho Municipal do Dondo, mas até ao momento não houve solução.
“Temos as Unidades A e B, quarteirão 5, onde não sai água na torneira há cinco anos. Esta é uma inquietação que já levámos ao FIPAG, com conhecimento do Conselho Municipal do Dondo, e até hoje não há resposta. Os utentes precisam de água para o seu uso diário, mas estão preocupados com este cenário”, explicou.
Além da falta de abastecimento, outro factor que revolta os consumidores é a constante emissão de facturas mensais. “O munícipe vai à empresa e não tem uma resposta satisfatória. O que incomoda é ter torneira sem sair água e, mesmo assim, receber facturas. As famílias são obrigadas a recorrer aos fontenários ou mesmo a poços para obter o precioso líquido”, lamentou o líder do bairro.
O bairro dispõe apenas de oito fontenários em funcionamento para cerca de 1.500 famílias residentes, insuficiente para suprir a procura.
Reacção do Município de Dondo
O vereador de Salubridade Urbana e Meio Ambiente no Conselho Municipal do Dondo, Manuelinho Alface, explicou que o município está em contacto permanente com a empresa fornecedora para encontrar uma solução e garantir que as famílias tenham água potável nas torneiras.
O vereador afirmou ainda estar preocupado com a exposição inadequada da caixa de conduta do FIPAG, no Mercado Central do Dondo, próximo aos semáforos. “Como município do Dondo, vínhamos a observar as tampas fechadas há vários anos. Na semana passada foi possível constatar a abertura de um ponto de convergência da conduta da FIPAG, causado por uma viatura que bateu na tampa. Verificámos água turva e muita sujidade, o que gerou preocupação.”
“Sendo propriedade do FIPAG, nada poderíamos fazer sem contactar a empresa. Ao município cabia remover o lixo e retirar as águas negras. Neste momento, a FIPAG já foi contactada. O que nos chega é que a empresa está a estabelecer diligências, posso assegurar que existem duas forças — o Município do Dondo e a FIPAG — empenhadas em trazer uma solução ao problema ou mesmo proceder ao fecho da caixa”, concluiu.
Reacção do FIPAG
A pedido de contraditório como um dos princípios jornalísticos, o Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, através de Águas de Moçambique, Instituto Público (AdeM,IP), em Sofala, inicialmente partilhou um comunicado de “restrições no abastecimento de água à cidade da Beira”:
A AdeM,IP informa aos seus utentes e ao público que as “chuvas que se têm registado na Região Centro estão a afectar a qualidade da água bruta, resultando no aumento dos níveis de turvação na captação de Ding Ding, o que obrigou à redução da captação, por forma a garantir os níveis de potabilidade de água distribuída”.
Entretanto, este documento é de 2026, ou seja, foi emitido no dia 14 de janeiro deste ano, mas os queixosos denunciam o problema que já tem “barba branca” dos últimos 5 anos.
Continua o documento. “Esta situação tem como impacto a redução dos volumes de distribuição de cerca de 50.000 m³/dia para aproximadamente de 42.000 m³/dia, criando restrições no abastecimento de água em alguns bairros da cidade da Beira, bem como nos extremos da rede”.
“Paralelamente, foi identificada uma fuga numa conduta de transporte de água bruta, provocada pela pressão elevada associada ao aumento do caudal e pela instabilidade do terreno resultante das chuvas intensas. A intervenção para a reparação desta conduta serra realizada logo que os níveis de água na captação baixem e as condições de segurança estejam reunidas, de modo a permitir a actuação eficaz das equipas técnicas”, termina o comunicado, pedindo a compreensão dos utentes e ao uso responsável durante este período, e assegura que as equipas técnicas continuam a trabalhar no sentido da normalização progressiva do abastecimento de água.
O sector de comunicação da AdeM, IP garantiu uma entrevista, mas até ao fecho desta redacção não o fez, carecendo de “autorização”.
As perguntas que não querem calar: como se justifica a cobrança sem jorrar água há 5 anos? Quando começar a jorrar, qual será a regra aplicada aos que já pagam mesmo sem água?
Os afectados chegam a se questionar se se trata de um erro ou simplesmente “bolada” como dizem na gíria.
Contudo, entre o silêncio institucional e cobranças permanentes, está o descontentamento de quem paga só por ter os ferros da torneira na sua casa. (Narcísio Cantanha).
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