Aster Xavier Tomás cresceu numa família numerosa de sete filhos, composta por quatro homens e três mulheres, num agregado familiar cuja principal fonte de sustento é a agricultura de subsistência.
Desde a infância, Aster esteve ligada ao trabalho doméstico e agrícola intensivo, realidade comum a muitas raparigas das comunidades rurais.
Muitas vezes, essas responsabilidades eram priorizadas em detrimento da escola.
Ainda assim, Aster esforçou-se para conciliar os estudos com as tarefas domésticas, enfrentando dificuldades significativas num contexto comunitário em que se acreditava que apenas os rapazes deviam estudar.
Determinada a mudar o seu destino, Aster percorreu diariamente cerca de sete quilómetros a pé para chegar à escola, durante vários anos.
Ao longo desse percurso, enfrentou situações de violência doméstica associadas ao incumprimento de actividades de casa, mas nunca abandonou a caneta e o caderno.
A educação tornou-se, para ela, um instrumento de resistência, esperança e transformação.
A viragem na sua vida aconteceu com a sua entrada ao Clube das Raparigas do Parque Nacional da Gorongosa, na localidade de Gravata. Nesse espaço, Aster passou a aprender sobre direitos da rapariga, igualdade de género, conservação do meio ambiente e desenvolvimento pessoal, experiências que fortaleceram a sua auto-estima e ampliaram a sua visão de futuro.
No Clube de Raparigas, Aster aprendeu a negociar com os pais, chegando a decidir “caso-me, mas não para já. Por agora, o foco é estudar.
O Clube contribuiu decisivamente para a sua transformação psicológica e social.
Graças ao seu bom desempenho escolar, dedicação e participação activa, Aster Xavier Tomás foi reconhecida como uma das melhores raparigas do ano, distinção que lhe garantiu uma bolsa de estudos para o ensino secundário atribuída pelo Parque Nacional da Gorongosa.
Esta conquista não só mudou a sua vida, como também transformou a percepção da comunidade relativamente à educação da rapariga.
Actualmente, Aster frequenta a 10.ª classe sem ter que se preocupar com condições financeiras para ter o material escolar, com firme determinação de concluir os seus estudos.
O Clube da Rapariga não é simples lugar onde as meninas aprendem conteúdos de literacia, numeracia, mas também a diversificação de habilidades para a vida, aprendem a sonhar e a seguir sonhos, a se inspirar, a dizer não a união forçada e prematura. Afinal, serve de refúgio para quem pensa que o mundo é tão cruel sem saída.
O Clube da Rapariga, também inclui as meninas arrependidas por decisões anteriores decepcionantes, mas que agora servem de exemplos práticos para as outras a seguirem os sonhos.
Olhando para o futuro, Aster sonha formar-se e tornar-se veterinária, com o objectivo de cuidar dos animais, contribuir para a conservação da fauna e apoiar o desenvolvimento sustentável da sua comunidade, alinhando o seu sonho profissional com a missão do Parque Nacional da Gorongosa.
Hoje, Aster é respeitada na comunidade de Gravata e vista como um exemplo de superação, inspirando outras raparigas a acreditarem que a educação abre caminhos e torna possíveis sonhos que antes pareciam inalcançáveis.
A história de Aster Xavier Tomás mostra que investir na educação das raparigas é investir num futuro mais justo, sustentável e promissor para todos.
Dos 102 Clubes de Raparigas disponíveis em diferentes comunidades, 45 são apoiados pela Carr Foundation, 45 pela Noruega, seis pelo Canadá e seis pela Alexander Gruner Foundation.
No Clube da Rapariga, desde cedo, as meninas ganharam bolsas para o ensino secundário. Só em 2025, o Parque tinha 108 bolsas activas, sendo 68 no Gorongosa, incluindo Aster, e 40 raparigas no distrito de Cheringoma, incluindo meninos. (EUGÉNIA CARLOS).
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