O homem que destapou terrorismo enquanto o Governo “tapava” em Cabo Delgado

 

Dom Luiz Fernando Lisboa, antigo Bispo da Diocese de Pemba, actualmente Bispo da Diocese de Cachoeira de Itapemirim no Brasil vai receber o título Doutor Honoris Causa pela missão em Moçambique. A “voz das vítimas do terrorismo em Cabo Delgado mantem apelos “é preciso cultivar a esperança, não desanimar, dias melhores virão”.

 

Trajectória

Dom Luiz Fernando Lisboa nasceu em Marques de Valença (RJ) no dia 23 de dezembro de 1955. Ele é o nono de doze filhos do casal Francisco Lopes Pereira Lisboa e Benedita de Oliveira Pereira, ambos falecidos. Com nove anos mudou-se, com a sua família, para Osasco (SP), onde passou parte da sua infância, adolescência e juventude.

Em agosto de 1975, aos 19 anos, ingressou no seminário São Gabriel da congregação da Paixão de Jesus Cristo (missionários Passionistas), em Osasco (SP); fez seu noviciado em São Carlos (SP); cursou Filosofia na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Curitiba (UCP naquela época); Estudou Teologia no Instituto Teológico São Paulo (ITESP). Foi ordenado sacerdote em 10 de dezembro de 1983.

Ele possui duas especializações (Liturgia e Missiologia) na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (actual PUC SP) e mestrado em Teologia Pastoral pela PUC Curitiba, onde também foi um dos coordenadores do Curso de especialização em Missiologia.

Exerceu várias tarefas na congregação dos Passionistas e nas dioceses por onde passou, entre as quais: formador em várias etapas da formação, vigário, pároco, conselheiro provincial, coordenador de formação; coordenador da área de missão, director do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Osasco, membro do Conselho de Direitos Humanos de SP e assessor no Curso de Teologia.

No início do ano de 2001, foi como missionário Ad Gentes para a diocese de Pemba, Moçambique, onde trabalhou por oito anos; retornou ao Brasil e trabalhou por quatro anos como pároco na paróquia Santa Teresinha de Lisieux, em Colombo, na arquidiocese de Curitiba (PR).

Em 12 de junho de 2013, o Papa Francisco o nomeou como Bispo de Pemba. A sua posse deu-se dois meses depois, em 14 de setembro, com celebração na Universidade Católica de Pemba. A cerimónia contou com a presença do presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, de arcebispos, bispos, padres e leigos da região e do Brasil. Na Conferência Episcopal de Moçambique exerceu o cargo de secretário-geral e coordenador do Departamento Social.

Em 11 de fevereiro de 2021 foi nomeado bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Na mesma data o Papa Francisco concedeu a dignidade de arcebispo a Dom Luiz Lisboa. Em 20 de março de 2021 Dom Luiz Fernando Lisboa tomou posse como o Arcebispo-bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, sendo assim o 5.º pastor a conduzir a Diocese.

 

Em Moçambique

Lisboa esteve em Moçambique, durante quase 20 anos, primeiro como missionário, depois como bispo.

Em 2001, Dom Luiz Fernando foi como missionário Ad Gentes para a diocese de Pemba, Moçambique, onde trabalhou por oito anos; retornou ao Brasil e trabalhou por quatro anos como pároco na arquidiocese de Curitiba.

Em 2013, o Papa Francisco o nomeou como Bispo de Pemba. Na Conferência Episcopal de Moçambique exerceu o serviço de secretário-geral e coordenador do Departamento Social. Em Cabo Delgado, Dom Luiz Lisboa esteve directamente envolvido no apoio e assistência social às vítimas do terrorismo.

Na cidade de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, no tempo de Helena Matias Kida, várias confissões religiosas juntaram-se à ministra da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos para tecer o seu posicionamento sobre insurgência. Luiz Fernando Lisboa não poupou ao revelar o sofrimento das comunidades e a exigência de intervenção urgente do Governo e a sua intervenção passou como reportagem na Rádio Sem Fronteiras. Conta o actual editor do Jornal Profundus, Muamine Benjamim.

Muamine Benjamim, do final de 2019 ao início de 2020, foi jornalista da destacável Rádio Sem Fronteiras, auxiliar de programas comunitários e gestor das redes sociais da Diocese de Pemba. Ele é quem transmitia ‘Online’ as missas usando telemóvel a partir da Catedral de Pemba, no tempo da Covid-19. Mas depois abraçou o “Profundus”.

“Dom Luiz Fernando Lisboa é pessoa directa contra qualquer injustiça. Ainda em 2020, foi considerado como a figura do ano por jornais de renome em Moçambique e ONGs”, tenta resumir o editor do Profundus.

Não existe apenas uma motivação para a guerra. O extremo norte de Moçambique foi sempre esquecido pelo Estado, é uma região muito pobre. As etnias são outra questão: naquela região há uma que prevalece sobre a outra, tendo, por exemplo, com maior acesso à educação. Outros componentes também lançaram combustível para a guerra: há um certo extremismo de grupos que vieram de fora e foram formadas em outros ambientes, não aceitaram o Islão praticado em Cabo Delgado e quiseram fazer algo diferente.

Em entrevista publicada no Instituto Humanistas Unisinos, Lisboa revela que “tanto os muçulmanos quanto nós, denunciamos que os reais motivos desta guerra são questões económicas: os terroristas estão a usar o nome de Alá e do Estado Islâmico para encobrir os verdadeiros motivos desta guerra.” A província de Cabo Delgado é abastada em gás e petróleo, rubi da melhor qualidade, mármore, pedras semipreciosas, ouro, madeira, portanto, rica em recursos, um povo muito pobre, e grandes multinacionais chegando para explorar.

E ainda sobre a guerra, os jornalistas não eram permitidos em falar dela. Aliás, até hoje, não é qualquer imprensa senão estatal, apenas para falar do sucesso do País.

Com a censura aos jornalistas, a visibilidade sobre a guerra foi dada pela Igreja, denunciando e alertando Moçambique e o mundo sobre o conflito.

“Recebi primeiro ameaças de expulsão, após apreensão de documentos e no final de morte”, assegura Luiz Fernando Lisboa, que foi convencido pelo Papa Francisco a sair de Moçambique e a regressar à sua terra natal, o Brasil.

A missão Ad Gentes sempre foi um desafio e é cada vez mais necessária, actualmente. Quem faz uma experiência missionária, seja além das fronteiras geográficas ou, como disse o Papa, em situações especiais, nunca vai voltar a ser a mesma pessoa.

“Esta guerra me ajudou a aprender muitas lições. A mais importante delas é a grandeza dessas pessoas, que são pobres, mas têm um sentido de profunda solidariedade”, disse ele.

“Quando estive lá, testemunhei muitas coisas, ouvi muitas histórias pessoais, vi muitas situações diferentes e percebi o quanto, mesmo na pobreza, podemos ajudar, podemos compartilhar.”

 

Doutor Causa Honoris

Luiz Fernando Lisboa será homenageado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com atribuição do título Doutor Honoris Causa. Este reconhecimento é pela sua trajectória missionária, especialmente pelo trabalho em Moçambique, aqui onde foi acusado de pretender criar desordem sobre a insurgência em Cabo Delgado.

A informação foi divulgada há uma semana, depois da Universidade aprovar a concessão do título de Doutor Honoris Causa.

Esta informação “recebi com certa surpresa. Eu sabia já que estavam tentando isso, mas imaginei que não ia dar em nada. Então, fico mesmo surpreso, fico edificado e preocupado porque eu não quero que vejam jamais esse título como se eu fosse uma pessoa merecedora disso, porque não sou”, explicou Luiz Fernando Lisboa, ressaltando que “esse prémio é de todos eles. Esse prémio é da África, que sofre tantas guerras nesse momento, um continente tao esquecido, tão ignorado e tão violentado”.

“Não tenho nenhum merecimento pessoal” disse o Bispo, em entrevista a Emissora Católica da Beira, Lisboa falou sobre a homenagem, destacando que não tem nenhum merecimento pessoal, mas aceitou pela causa da missão, uma valorização do trabalho de vários missionários, por isso, este título será também uma homenagem aos missionários, especialmente a Irmã de Coppi, missionária comboniana que morreu vítima do terrorismo”.

Uma guerra que paralisa o país, disse Luiz Lisboa, acrescentando que é uma guerra absurda que já deveria ter acabado. O prelado olha para a homenagem como uma oportunidade para falar de Moçambique, homenagear a todos que morreram em consequência desta guerra.

Dom Luiz Fernando Lisboa deixa mensagem: “é preciso cultivar a esperança, não desanimar, dias melhores virão”. (Luísa Franque).


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