Da vigília ao velório: Quando a imprensa troca a verdade pelo prato

 

O quarto poder está a ser esquartejado pela política interna. A frase não é metáfora. É uma autópsia. Montesquieu separou os três poderes para se vigiarem. A imprensa nasceu como o quarto cão de guarda: latia quando os outros três roubavam o povo. Hoje o cão está na coleira, e a coleira aperta no pescoço de quem paga a ração.

As funções do quarto poder estão no forno porque em certas circunstâncias incomodam alguns. Incomoda mostrar a escola sem tecto depois do discurso sobre “educação de qualidade”. Incomoda filmar a fila do hospital depois da inauguração do novo bloco. Incomoda perguntar onde foi o dinheiro quando o relatório já diz que foi “executado a 100%”. Então mete-se a função no forno. Baixa-se o lume, deixa-se cozer devagar até virar cinza. Depois serve-se ao público como “jornalismo responsável”.

Três facas esquartejam a imprensa. A faca do salário: jornalista mal pago não investiga, reproduz. A nota de imprensa vira notícia. O comunicado do partido vira manchete. Upton Sinclair avisou há um século: “É difícil fazer um homem entender algo quando o salário dele depende de não entender”. Hoje é pior: o salário depende de não escrever. Quem morde a mão que paga, fica sem dentes e sem pão.

A faca da publicidade institucional: o Estado é o maior anunciante. Ministério, município, empresa pública… Quem critica, perde o contracto. Quem elogia, ganha página inteira. Tocqueville temia a “tirania da maioria”. Nós vivemos a tirania do balancete: a linha editorial ajusta-se à linha do depósito. A verdade passou a ter patrocinador. E o patrocinador não gosta de manchete negativa.

A faca da autocensura: é a mais afiada. Não vem de fora. Nasce dentro da redacção. O editor já sabe o que o dono não quer ler. O repórter já sabe que pergunta o chefe não vai deixar passar. George Orwell chamou isso de “polícia do pensamento”. Aqui chamamos “bom senso”. O silêncio vira política editorial. E política editorial vira política, sem aspas.

O resultado é o quarto poder de joelhos. Em vez de vigiar o poder, vigia o próprio texto para não ofender o poder. Em vez de incomodar alguns, incomoda o povo inteiro com o seu silêncio. Hannah Arendt dizia que “a verdade factual é frágil”. Em Moçambique a verdade factual está em coma induzida, com tubo de comunicado oficial ligado na veia.

Maquiavel nunca imaginou isto: o príncipe não precisa calar o jornalista. Basta comprá-lo, empregá-lo, condecorá-lo. O cão de guarda virou cão de colo. Late só para selfie com o dono.

E quando o quarto poder morre, os outros três dançam. Executivo rouba sem medo, legislativo aprova sem ler, judiciário condena sem prova. Porque não há manchete. E se não há manchete, não há escândalo. Se não há escândalo, não há consequência. A impunidade começa quando a impressora pára.

O que fazer antes que vire carvão? Separar o Estado da publicidade. Dinheiro público para media deve seguir critério técnico, auditável, sem depender de ministro. Quem paga a banda escolhe a música. O povo paga. O povo tem de escolher. Lei de protecção à fonte e ao jornalista. Quem denuncia corrupção não pode ser transferido, demitido, morto. Se incomoda alguns, é porque serve a todos. Esferográfica de volta ao repórter. Menos reprodução de press-release, mais sapato gasto na rua. Se a notícia não te fez sair da redacção, não é notícia. É recado.

O quarto poder não pede aplauso. Pede respeito. E respeito só vem do medo que o poder tem de ser exposto. Quando o político dorme tranquilo apesar da manchete, é porque a manchete já não morde. Só lambe.

Tirem o quarto poder do forno. Ou aceitem que, sem ele, todos vamos assar juntos na mesma fogueira de mentira e miséria. Imprensa livre incomoda. Imprensa morta mata.


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