Gorongosa cria primeiro contacto de 30 crianças a paleontologia

Debaixo da floresta de miombo onde hoje as pessoas pisam, há 10 milhões de anos corria o oceano. Foi essa descoberta que 30 crianças tiveram no dia 18 de julho, durante uma visita à escavação paleontológica no povoado de Mueredze, interior do distrito de Muanza. Esta iniciativa é do Parque Nacional da Gorongosa (PNG), através do Departamento de Ciência, liderado por Suzana Carvalho, cujo objectivo é tirar a ciência da sala de aula habitual e colocar na mão das crianças in loco, e assim criar-lhes interesse cientificamente.

As 30 crianças são alunos da Escola Primária Completa (EPC) 13 de Janeiro e da EPC Muanza-Sede, e membros do Programa Clube da Rapariga, acompanhados por promotores e professores. No campo, elas aprenderam na prática o que é paleontologia, objectivos da paleontologia e alguns métodos aplicados durante as investigações como escavar, peneirar a terra à procura de ossos e ler as camadas do solo.

Segundo o supervisor distrital de Educação do PNG, Luscídio Alexandre, o objectivo de levar as crianças a visita do campo era de promover o interesse pela paleontologia e geologia para elas poderem aprender e desde pequeno começam a sonhar.

“Aqui [no local de escavação em Mueredze] encontramos dentes de dugongo e de elefante. Isso prova que o mar chegava até este ponto. Perto dali também havia floresta, porque achamos restos de elefantes”, disse Luscídio Alexandre, explicando numa linguagem simples, para as crianças que pela primeira vez tiveram o contacto com a paleontologia.

Situado no extremo sul do Grande Vale do Rift de África, o Parque Nacional da Gorongosa faz parte do sistema de fendas mais conhecido da Terra. Este sistema geológico de 30 milhões de anos abriga vulcões, fontes termais e géiseres – uma paisagem que continua a moldar a região até hoje.

A paleontologia analisa fósseis de diferentes grupos de organismos, ou seja, desde grandes dinossauros até microfósseis microscópicos. “Essa variedade revela como era a vida em períodos remotos, reconstruindo cadeias alimentares, ambientes e comportamentos”, disse a Directora do Departamento Científico do PNG, Susana Carvalho, em nota introdutória às crianças.

Nos fósseis, às vezes, os pesquisadores encontram dentes de crocodilo, dentes de tubarão e muitos outros vestígios, dando entender que ali, há milhões de anos, tudo mudou.

“Ao caminhar pela floresta, encontramos fósseis muito antigos, que podem ser de animais, podem ser de plantas, podem ser de tudo o que era organismo vivo, coisas vivas no passado, e que por algum evento especial que aconteceu, essas coisas, em vez de desaparecerem, ficaram debaixo da terra que vocês estão a ver”, explicou a cientista Susana Carvalho às crianças. “Então, o que nós fazemos, no nosso trabalho, é desenterrar essas coisas, mas de uma forma científica, com muito método, e depois estudamos tudo o que encontramos, para perceber a sua idade, como eles eram, como esta floresta que vocês estão a ver, que agora é de miombo, no presente, como este espaço era no passado”.

O Parque Nacional Gorongosa é um local auspicioso para investigar a evolução dos primatas, tanto passada quanto presente, e descobrir peças ausentes no quebra-cabeça das origens humanas. Situado em um local estratégico que representa o último elo não estudado do grande Rift Africano que atravessa a África Oriental, onde se encontram os “berços da humanidade”, Gorongosa abriga novos sítios fósseis e oferece uma diversidade ecológica impressionante como um cenário para estudar primatas existentes e fósseis. Ao adoptar uma abordagem interdisciplinar única, o Projecto Paleo-Primata busca lançar luz sobre as origens e o sucesso evolutivo da linhagem humana. Este é o primeiro projecto na evolução humana onde primatólogos, paleontólogos, geólogos, arqueólogos e ecologistas trabalham diariamente juntos, colectando dados que convergem para um objectivo geral.

Gorongosa e a suas descobertas

Em Muanza, “há uma coisa muito interessante. Há muitas coisas interessantes sobre estes sítios, uma delas é o que vocês sabem”. O mar por exemplo, hoje, está fora do distrito, restando apenas a floresta que o Parque desafia-se a recuperar em meio também a desafios resultantes da acção humana como as queimadas descontroladas, abate indiscriminado de árvores, caça furtiva e entre outros.

Segundo os estudos, “Muanza era uma floresta à beira-mar, com todos os animais que vivem no mar e que vivem na terra, que andavam neste sítio há 10 milhões de anos”, disse Susana Carvalho.

A visita ao campo permitiu o contacto directo entre as crianças, os pesquisadores e a ciência, facilitando maior aprendizagem.

Os pequenos “paleontólogos” por um dia aplicaram na prática os conhecimentos teóricos, como a escavação, a ceifa para procurar ossos e a observação geológica para ver as camadas da terra com equipamentos.

O aluno EP Muanza Sede, Pedro Alfeu Pedro, descreveu a aprendizagem do dia: “Eu aprendi sobre a paleontologia que é uma forma de descobrir os animais antigos que desapareceram; como descobrir os animais antigos; e como cavar bem os ossos; o que eu não sabia é como eram os animais antigos, que já não existem no local e mas que agora podemos ter esses conhecimentos através da inteligência artificial”.

“Aprendemos também sobre arqueologia que tem a ver com o trabalho que fazem para encontrar os ossos dos animais de muitos anos atrás” ou a ciência que estuda tudo o que se refere a civilizações antigas mediante os seus vestígios.

“Eu sei que agora, debaixo onde nós pisamos, podemos encontrar muitas coisas que valem. E um dia nós também podemos trabalhar e encontrar essas coisas que são ossos, dentes de animais que agora não existem, que existiam há muito tempo”, descreveu a aluna da EPC 13 de Janeiro, Cleusa Sinava José.

Estas descobertas são fundamentais para a compreensão da longa história da vida na região, aprofundando o conhecimento da evolução humana e do mundo natural.

Cleusa Sinava José já sonha em investigar sobre a paleontologia. “Gostei da visita e do trabalho que estão a fazer, gostaria que um dia eu ser como eles, passar a vida a investigar as coisas do passado e do futuro”, disse.

A Dra. Carvalho e a sua equipa já identificaram múltiplos sítios fósseis promissores no Parque Nacional de Gorongosa e iniciaram o que pode ser um empreendimento de exploração e pesquisa que pode durar várias décadas, com o objectivo de obter novos insights sobre quando e como os primeiros ancestrais humanos evoluíram na África, os ambientes que habitaram e atravessaram, e a fauna e flora com as quais interagiram e evoluíram com elas.

Após investigações envolvendo extensas pesquisas e o uso de novas abordagens na busca por sítios paleontológicos, a equipa desenterrou os primeiros fósseis do Mioceno em florestas costeiras no sul do Rift do Leste Africano. Portanto, o que aconteceu em Muanza na presença das 30 crianças é continuidade das descobertas no âmbito do Projecto Paleo-Primatas.

Afinal, a época do Mioceno se estende de aproximadamente 23 a 5,3 milhões de anos atrás – um momento chave na evolução dos ecossistemas africanos, que testemunhou a origem dos macacos africanos. Os sítios fósseis do Mioceno descritos até agora em Gorongosa forneceram um conjunto excepcional de espécies fósseis marinhas e terrestres, apontando para uma combinação única de fauna e flora conhecidas em nenhum outro local ao longo do Sistema de Rift da África Oriental. Essas descobertas e as escavações e investigações contínuas estão abrindo uma nova perspectiva sobre uma região da África que, até recentemente, permanecia paleontologicamente desconhecida que possui grande potencial para descobrir evidências do último ancestral comum dos humanos e dos macacos africanos, além de ampliar a compreensão da evolução dos mamíferos africanos de forma mais ampla.

Desde o início, o Projecto Paleo-Primatas reconheceu a importância de fomentar oportunidades de mentoria para a próxima geração de pesquisadores.

A equipa de paleontologia continua a escavar pistas para descobrir o passado profundo da Terra, treinando a próxima geração de cientistas e partilhando estas descobertas ao mundo. Com isso, na recente visita de crianças, estiveram no local, geológicos, cientistas, estudantes de universidades moçambicanas para também explicarem aos futuros cientistas, além de curiosos. (João Almeida e Muamine Benjamim).


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