A fórmula Gorongosa: Cientistas + fiscais + turismo + comunidade

Desta vez é mesmo uma tentativa simplista. Afinal, Gorongosa brilhou três vezes simultaneamente em junho. Dominique Gonçalves encanta National Geographic enquanto o lLago Urema regista 2.936 cegonhas, e a comunidade dança de alegria ao usar água dos fontanários construídos pela primeira. Três factos, uma mesma fórmula: cientistas contaram; fiscais protegeram; turismo financiou; e a comunidade cuidou.

A Doutora Dominique Gonçalves levou Moçambique ao “coração” dos Estados Unidos da América (EUA). No Festival de Exploradores da National Geographic 2026, em Washington D.C. Ela apresentou o Projecto de Ecologia de Elefantes da Gorongosa no recém-inaugurado Museu de Exploração da National Geographic, que abre ao público em breve.

Uma imagem tenta descrever o momento. “Na zona “Explorers Landing – Propósito”, visitantes conseguiam ver uma coleira satélite de elefante e uma capulana moçambicana. São símbolos do trabalho duplo que Gorongosa faz: “conservar elefantes e apoiar educação de raparigas através da iniciativa modelos a seguir”- uma exposição interactiva que permitiu ao público aprender sobre os esforços de conservação que estão a devolver vida ao parque. “Dominique está profundamente grata por fazer parte desta comunidade de exploradores, contadores de histórias e agentes de mudança”, celebrou a equipa do Parque Nacional da Gorongosa.

Enquanto a Doutora Dominique Gonçalves subia ao palco do Festival de Exploradores da National Geographic em Washington D.C. para contar a história dos elefantes de Gorongosa, o Lago Urema respondia com dados: 2.936 ninhos activos de aves aquáticas documentados em 2026. Da sala de exposição de Washington às águas de Sofala, Gorongosa prova que a conservação moçambicana virou referência mundial.

Três factos, uma mesma fórmula. Dominique brilhou em Washington porque cientistas, fiscais, turismo e comunidade trabalham integrados em Gorongosa. O mesmo modelo fez Urema “ressuscitar” cegonhas. Cientistas contaram cada ninho. Fiscais protegem margens contra caça furtiva. E o turismo trouxe “funding” e olhos do mundo.

Tudo começou com binóculo e caderno de campo. A equipa de cientistas do Parque Nacional da Gorongosa mapeou cada recanto do Lago Urema durante o levantamento de 2026. Resultado: 2.936 ninhos activos de dez espécies de aves aquáticas. Mas o número que abriu portas internacionais foi outro. Urema superou o critério de 1% da Convenção de Ramsar para cegonha-de-bico-amarelo e corvo-marinho-de-peito-branco. Sem ciência, Urema era só um lago bonito. Com ciência, Urema virou área húmida de importância internacional. Medir transformou beleza em dados. Dado virou credibilidade global.

Exemplo prático para comunidades

Dado sem protecção é número morto. Os fiscais do Parque patrulham as margens, retiraram redes ilegais e garantiram que cada ovo de cegonha chegasse até chocar. Enquanto isso, o turismo do Parque trouxe o que a conservação precisa: ‘funding’ e visibilidade. Turista paga para ver cegonha, doador paga para proteger cegonha. Esse dinheiro sustenta patrulhas, compra combustível e paga o salário do fiscal. Em termos práticos, significa que o turista tira foto. O fiscal garante que a foto exista no ano seguinte.

Protecção + financiamento = habitat seguro para 2.936 ninhos. E para as comunidades? Mais conhecimento e benefícios incomensuráveis: por exemplo, recentemente, cerca de 1.500 pessoas deixaram de percorrer longas distâncias, estão fora dos riscos de doenças de origem hídricas e dos riscos de ataques de crocodilos nos rios, dentro das localidades de Matenga e Nhampoca pela procura de água. Naquelas comunidades, interior do distrito de Nhamatanda já existem quatro fontanários pela primeira vez, graças ao apoio do Parque Nacional da Gorongosa, através do respectivo Programa de Água, Saneamento e Higiene, Water Sanitation and Hygiene (WASH).

“Estou feliz por ter água perto. Na montanha que está a se referir para buscar água, quando fossemos de manhã, cancelávamos a produção agrícola. Fazíamos escala, um dia para a machamba, outro dia para conseguir água. Era muito complicado para nós mulheres. Assim que a água já está perto, nas manhãs vamos tirar e conservar nas nossas casas, e quando regressarmos das nossas machambas cozinharmos, aliás, vamos beber água limpa.

Na comunidade de Tchiro, por exemplo, além da comunidade, percorrer cerca de quatro quilómetros, o caminho para o acesso à água é perigoso. Por causa disso, Isabel Mateus, não poupou pela felicidade: “sofríamos tanto ao escalar montanha, regressávamos com ferimentos só para conseguir água, agora paramos” de sofrer.

A Gorongosa pretende incutir uma responsabilidade de apropriação do fontanário aos líderes comunitários e a comunidade em geral para a melhor conservação das infra-estruturas, fazendo manutenção rotineira das bombas e a gestão comunitária. Para tal, foi criado um Comité de Água e Saneamento (CAS) na comunidade de Tchiro.

Para garantir a segurança do fontanário, “temos de fazer uma vedação da bomba de água. Depois faremos contribuição mensalmente para guardarmos os fundos, quando a nossa bomba tiver avaria, vamos mandar consertar e deixar de incomodar novamente o Parque. Afinal, não somos os únicos que precisamos da água, vamos deixar o Parque economizar o dinheiro para fazer furos noutras comunidades”, disse Paulino Gimo, lembrando o passado das mulheres voltarem tarde quando fossem procurar água, mas isso já acabou.

A equação provavelmente fecha com a água nas oito comunidades da Zona de Desenvolvimento Sustentável do Parque. A Gorongosa já construiu cinco fontanários, sendo quatro em Nhamatanda e um terminado, faltando três por completar no distrito de Marínguè, em breve. Consequentemente, as comunidades reduziram o abate das árvores, já usam fogões melhorados ou poupa-lenha, reduziram a caça furtiva por hortas, reduziram a agricultura tradicional prejudicial ao meio ambiente, são actores da conservação. Afinal, a mãe entrava no rio para buscar água suja e por vezes numa montanha. Hoje a água chega na porta e enquanto a cegonha tem paz para fazer ninho. Significa menos pressão humana ao rio e mais peixe. Mais peixe, mais cegonha. As comunidades entenderam: parque vivo gera fontanários abertos, escolas e hospitais construídos, escolinhas grátis.

Os beneficiários dos quatro fontanários são 2.338 famílias distribuídas em Catia 480, Nhabonbue 943, Mandire462 e Capimbe 453 no interior de Maríngué. Enquanto em Nhamatanda, as fontes de água estão localizadas na Escola Primária Completa (EPC) Divinhar para beneficiar 360 pessoas; EPC Mucharuenhe, para 467 pessoas; no 3.º Bairro Tchiro para beneficiar 317 pessoas (Matenga); e no 4.º bairro Nhamacaza (Nhampoca) para 397 pessoas, portanto, alcançando cerca de 1.500 beneficiários. Numa estimativa de mais de 3000 beneficiários.

A matemática da conservação em Moçambique tem quatro parcelas e um resultado. Cientistas contaram. Fiscais protegeram. Turismo financiou. A comunidade cuidou. A soma deu 2.936 cegonhas-de-bico-aberto e cegonhas-de-bico-amarelo a nidificar no Lago Urema em 2026. O elefante “falou” ao mundo. O País ficou destacável. A Fórmula Gorongosa prova: quando todos jogam na mesma equipa, o parque ressuscita e as comunidades prosperam. (Muamine Benjamim).


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