Não deixaria este junho terminar sem um texto do seu reconhecimento a ti Vila de Nhamatanda, no teu mês. Se antes Nhamatanda era só aquela paragem antes de Inchope na EN6, hoje quem pisa no distrito encontra outra coisa: cheiro de hortícolas no mercado, arroz da machamba a secar no sol e jovens com tablet na mão, prédios ali (positivo), mas também a fofoca acolá (negativo).
Nhamatanda carregou por anos a cicatriz do Ciclone Idai. A estrada partiu, alguns aquedutos caíram, a machamba virou lama. Mas a cicatriz, quando bem cuidada, vira músculo. E o músculo de Nhamatanda tem nome: comunidade mais terra preta e mais teimosia.
De Outubro a Janeiro, Nhamatanda veste amarelo. São milhares de mangueiras que viraram escola de negócio para famílias. Resultado: Menina que ia casar aos 15 agora paga escola com dinheiro da manga.
Nas baixas do rio Púnguè, agricultores trocaram enxadas por bomba solar e agricultura tradicional, por sustentável.
Enquanto alguns distritos choram pela poluição, Nhamatanda conta com jovens guardiões. Mapeiam o lixo, desmatamento e adoptam melhores práticas ambientais.
A Autarquia de Nhamatanda possui uma superfície de 314 Km² e densidade populacional de 161,44 hab/Km² com uma população actual estimada em 63.304 habitantes.
Apoiar em reportagens ou negócios em Nhamatanda, assim é dizer: “Nós não só passamos na EN6. Nós investimos na gente que vive aqui”.
Nhamatanda prova três coisas que o Profundus acredita: 1. Comunidade com terra e vontade não precisa de pena, precisa de mercado. 2. Jovem com tablet/telemóvel cuida melhor do rio que fiscal com caderno. 3. Sofala se reconstrói de baixo para cima, machamba por machamba.
O Jornalismo sério mostra a luz e a sombra. Se só publicamos manga e arroz, viramos uma revista de publicidade. Se só publicamos problema, viramos boca de desespero. O Profundus faz jornalismo de solução: mostra a ferida, mas também quem está a costurar.
Quando a estrada promete e a ponte esquece: Há cinco anos depois do Idai, agricultores ainda perdem hortícolas por dificuldades de vias de acesso e consequentemente o não acesso aos mercados, aliás, comunidades por vezes trocam escola por caça ilegal.
A manga amarela ainda vende na EN6. Mas 5 km depois do asfalto, a história muda. Lá em Metuchira Lumaco, lá em Mapalanhanga, a terra preta vira armadilha quando chove. E armadilha sem ponte ou ao menos acessibilidade vira fome.
Lá em Metuchira, quando o tomate fica pronto, o caminhão não passa. A venda do produto tem sido como se tratasse de genro para sogro, a preços banais no terreno, mas na Beira ou na Vila de Nhamatanda vale o triplo de lucros. Perde-se tanto. Resultado: Agricultor que devia ganhar vira carregador de prejuízo; banco não empresta porque é zona de risco; e filho abandona escola porque “machamba não dá” proveito, supostamente.
Na Vila de Nhamatanda, ainda há separação de famílias e serviços divididos. A pequena ponte entre o 1.º e 9.º bairros foi destruída, mas ainda não terminou há quase dois anos.
Sem emprego e sem ponte, jovem de Nhamatanda encontrou “solução”: extracção ilegal de ouro, lá em Mafufo. Consequência: Margem dos rios desaba, nascente seca, água turva (riscos maiores), e o pior, desabamento matando jovens. Os mesmos “guardiões da conservação” que plantam árvores hoje, amanhã cavam o próprio chão, são furtivos…e curtem na Vila.
O hospital sem paracetamol; seropositivos denunciados no bairro; escola com “boladas” para notas além da troca por sexo…… São preocupações de rotina. Enquanto o “mbewa” se escapa no almoço, no jantar não falha.
Profundus não publica isso para “queimar” Nhamatanda. A comunidade só avança se o problema virar pauta.
Nhamatanda foi elevada à categoria de Vila em 1938 pelos portugueses. Então, 2026 = 88. Vamos celebrar a resistência da terra.
Há 88 anos, o mapa oficial escreveu “Vila de Nhamatanda”. Mas Nhamatanda já existia muito antes disso na boca dos camponeses, no cheiro do Púnguè, na teimosia da terra preta e na força das águas que moviam os troncos.
Se Nhamatanda fosse pessoa, seria aquela tia que apanhou Idai em 2019, guerra antes disso, seca depois disso… e ainda assim no Outubro seguinte a manga tá amarela para o mercado da Beira.
Os historiados diriam, Nhamatanda era só linha do caminho-de-ferro e troncos movidos pela água baptizando o nome. Quem descia do comboio, comia pão com chá e seguia para Gondola.”
A vila nasceu servindo quem passava. Hoje serve quem ficou. A EN6 ainda corta no meio, mas agora quem corta é o povo de Nhamatanda a caminho do campo.
Depois da Independência, Nhamatanda virou celeiro. Horta de Metuchira e de Lamego e a pedra de construção abastecem a cidade da Beira onde está o Porto eficaz e mais eficiente da África Austral, segundo a classificação do Banco Mundial.
Afinal, a guerra enterrou livros, escondeu enxadas para fugir do inimigo, mas não escondeu o espírito de reconstrução. Voltamos a plantar.
Idai levou ponte, casa, escola. Mas não levou nome. Hoje, Nhamatanda responde com imprensa ‘online’ e de voz. A aprendizagem não parou.
Os 87 anos ensinaram e este ano ainda ensina: governo mantem promessas e feitos, empresas aparecem e outras desaparecem, chefes são transferidos, mas a comunidade fica com as terras. Terra preta não é maldição: é reserva de manga, arroz, hortícolas e gente que trabalha mesmo sem ponte.
EN6 não é só estrada que divide a vila, é artéria. O que Nhamatanda produz alimenta Beira. O que Beira investe, Nhamatanda transforma em vida.
Os 88 anos merecem mais que discursos: merecem soro no hospital; merecem paracetamol; merecem chefes que sentam e ouvem os extractos sociais sem distinção de altura ou cor; merecem jovens que constroem; merecem jovens que não apenas copiam para destruir, mas sim impactar; merecem concentração das mães no cuidado às crianças; merecem políticos que discutem (impacto) ideias e não pessoas; merecem jovens que valorizam a hierarquia e respeitam os chefes; merecem ideias e não ódio; merecem conexão de empoderamento, não divisionismo; merecem tecnologias de impacto; merecem o combate a drogas; merecem o combate ao feminicídio; merecem atenção contra acidentes; merecem imprensa que analisa e não simples reprodutora de erros; merecem cidade; merecem exemplos de fora mas aplicados no contexto local; e merecem motivação aos dirigentes pelos feitos para tornar Nhamatanda ao que é hoje.
Afinal, Nhamatanda é de todos. Se estás aqui, faça o seu melhor legalmente. O distrito precisa de si.
Parabéns, Vila. São 88 anos, é idade, é medalha. Medalha de quem plantou na guerra, colheu no ciclone e ainda sorri na seca. Mesmo assim alimenta o seu povo. (Muamine Benjamim).
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