Após uma vitória sobre o Egipto considerada controversa por muitos fãs, a selecção da Argentina retorna aos holofotes, mas, dessa vez, sob uma luz menos glamorosa: a Associação de Futebol Argentino (AFA está sendo investigada pelo FBI, que busca esclarecer movimentações de mais de US$ 300 milhões (cerca de 1,55 bilhão de reais) nos EUA.
Segundo o jornal argentino La Nación, autoridades do Departamento de Justiça dos Estados Unidos ampliaram uma investigação preliminar sobre as operações internacionais da AFA, buscando esclarecer como a entidade, presidida por Claudio “Chiqui” Tapia, movimentou centenas de milhões de dólares por meio do sistema financeiro americano e se parte dessas transacções pode ter violado a legislação americana.
Como parte da apuração, promotores federais e agentes do FBI vêm ouvindo pessoas com conhecimento das actividades comerciais da entidade. Uma das reuniões, realizada na semana passada por videoconferência contou com a participação do empresário Guillermo Tofoni e teria durado cerca de três horas. Segundo o La Nación, participaram do encontro investigadores sediados em Washington, D.C., e em Miami, que analisam se operações vinculadas à AFA configuram crimes financeiros, como lavagem de dinheiro e fraude bancária.
Procurado pelo jornal, Tofoni não confirmou nem negou a realização da reunião. De acordo com o jornal argentino, os investigadores americanos também procuram outras testemunhas que acompanharam a gestão Tapia e de seu gabinete na AFA, além das actividades da TourProdEnter LLC, empresa do produtor teatral Javier Faroni, responsável pela administração de contractos comerciais da entidade no exterior.
A investigação é ampla e poderá alcançar, inclusive ex-integrantes do governo do presidente Javier Milei. O Departamento de Justiça americano avalia convocar antigos funcionários que tiveram acesso a informações consideradas sensíveis sobre a AFA ou exerceram funções de supervisão, fiscalização ou interlocução com a entidade nos últimos anos.
As apurações começaram a ganhar forma ainda em 2025 e são conduzidas por uma equipe de procuradores federais especializados em crimes financeiros. Entre eles estão Patrick Gushue e Christopher Ting, baseados em Washington, e Michael Berger, do Distrito Sul da Flórida. Todos são considerados profissionais de elite e já estiveram envolvidos em casos de alto perfil, como o que resultou na condenação do ex-Controlador-Geral do Equador, Carlos Ramón Polit Faggioni, por lavagem de dinheiro em Miami, em 2024.
Embora a investigação ainda esteja em fase preliminar e não represente uma acusação formal contra a AFA ou seus dirigentes, o envolvimento de procuradores especializados em integridade bancária indica que as autoridades americanas concentram seus esforços no uso do sistema financeiro dos Estados Unidos em operações internacionais, apura o La Nación. Caso sejam identificados indícios de movimentações ilícitas em instituições financeiras americanas, o caso poderá evoluir para uma investigação criminal de maior escopo, ampliando o escrutínio sobre a gestão da principal entidade do futebol argentino.
As investigações passaram a concentrar-se na TourProdEnter LLC após a empresa centralizar a arrecadação dos contractos comerciais internacionais da AFA. O objectivo dos procuradores é reconstruir o fluxo de recursos administrados por Javier Faroni e por sua esposa, Erica Gillette, rastreando a movimentação de valores por meio de instituições financeiras americanas, a fim de verificar se houve violações da legislação dos Estados Unidos.
O Departamento de Justiça não respondeu aos questionamentos sobre o andamento da apuração, segundo o La Nación, que já pode incluir pedidos de documentos a bancos e empresas, além de depoimentos de pessoas com conhecimento direto ou indirecto das operações financeiras investigadas.
Enquanto isso, representantes da AFA intensificaram sua actuação nos Estados Unidos. Durante um fórum sobre futebol, corrupção e justiça realizado em Miami, o representante da entidade para a América do Norte, Tomás Regalado, e o advogado Mariano Lizardo defenderam o respeito ao princípio da presunção de inocência. Regalado realçou que a adopção de medidas investigativas, por si só, não constitui prova de responsabilidade criminal ou culpa.
Mesmo assim, documentos obtidos pelo La Nación indicam que Faroni e Gillette movimentaram centenas de milhões de dólares por meio por meio de contas mantidas em cinco grandes instituições financeiras americanas — Citibank, Synovus, Bank of America, JPMorgan e PNC Bank.
De acordo com a investigação jornalística, a TourProdEnter LLC administrou ao menos US$ 260 milhões em receitas internacionais da AFA. Os registros bancários analisados pelo veículo apontam que apenas parte desses recursos pode ser directamente associada a despesas operacionais identificáveis da entidade, enquanto cerca de US$ 57 milhões teriam sido distribuídos a empresas e beneficiários cuja finalidade económica não estaria claramente documentada.
Contractos internacionais
O interesse das autoridades americanas nas operações da AFA, contudo, antecede a investigação actual. Ainda em setembro de 2024, o então Ministério da Segurança da Argentina, comandado por Patricia Bullrich, compartilhou informações com autoridades dos Estados Unidos sobre potenciais riscos envolvendo a entidade esportiva. A iniciativa ocorreu após uma reunião com Tofoni, que apresentou elementos judiciais que permitiram o acesso a informações bancárias relativas à TourProdEnter LLC.
Naquele momento, todavia, agentes do FBI concluíram que o conflito entre Tofoni, Tapia e a própria entidade não reunia elementos suficientes para justificar uma investigação criminal em território americano. Esse entendimento, entretanto, começou a mudar após uma série de reportagens do La Nación e de outros veículos argentinos, publicadas a partir do fim de 2025, que revelaram uma rede de transacções financeiras e societárias estruturada principalmente no estado da Flórida.
Segundo a investigação jornalística, a TourProdEnter LLC actuava como veículo responsável por receber receitas provenientes dos contractos internacionais da AFA, administrando pagamentos de grandes empresas multinacionais, como Adidas e Warner. As operações ocorreram durante um período em que a Argentina enfrentava severas restrições cambiais e a coexistência de diferentes cotações para o dólar, contexto que aumentava a complexidade das transferências internacionais de recursos.
Os documentos também indicam que, pelo contrato firmado com a AFA, a TourProdEnter LLC tinha direito a 30% da receita internacional líquida da entidade, após impostos, ao longo dos últimos quatro anos, além de receber uma comissão correspondente a 10% das despesas logísticas relacionadas às operações comerciais administradas pela empresa.
Esse conjunto de transacções constitui hoje o cerne da análise conduzida pelo Departamento de Justiça e pelo FBI. Até o momento, porém, a investigação permanece em fase preliminar, ainda sem acusações formais contra a AFA, seus dirigentes ou os responsáveis pela TourProdEnter LLC. (Exame).
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