O piripiri da Gorongosa é muito mais do que um condimento. É uma fonte de rendimento para 150 famílias que deixaram de depender apenas da agricultura sazonal e passaram a produzir ao longo de todo o ano. O projecto demonstra que é possível conciliar conservação da natureza com melhoria das condições de vida das comunidades. Até ao momento, já foram adquiridas 4,5 toneladas de piripiri, e a meta é atingir 10 toneladas até ao final de 2026.
O projecto encontra-se numa fase piloto e está a ser implementado nos distritos de Gorongosa, Muanza e Nhamatanda, que integram a Zona de Desenvolvimento Sustentável do Parque Nacional da Gorongosa.
Há nove meses, o Projecto de Restauração da Gorongosa semeou mais do que piripiri: oportunidades. Cerca de 150 produtores aderiram à iniciativa. Destes, 15% são mulheres que hoje geram rendimento próprio, contribuindo para a educação dos filhos e para o sustento das suas famílias.
A Serra da Gorongosa oferece condições climáticas favoráveis para a produção contínua de piripiri. Ao contrário de culturas como o milho, que dependem fortemente das chuvas, o piripiri pode ser cultivado durante todo o ano, proporcionando uma fonte de rendimento mais estável. É a diferença entre viver apenas da chuva e viver do trabalho.
Para os produtores, os benefícios são concretos. Ao venderem o piripiri ao Parque por 80 meticais por quilograma, conseguem diversificar as suas fontes de rendimento, adquirir material escolar para os filhos e melhorar a alimentação das suas famílias. Ao mesmo tempo, a iniciativa reduz a necessidade de expansão das áreas agrícolas, contribuindo para a conservação das florestas e da biodiversidade. Quando o piripiri gera rendimento, as árvores permanecem de pé.
Da machamba para a mesa
O piripiri é colhido de duas em duas semanas durante todo o ano e segue para a fábrica de processamento na Vila da Gorongosa. É ali que se transforma em molho picante, molho doce, piripiri triturado, em flocos e em pó, produtos de marca 100% moçambicana, inicialmente destinados ao mercado nacional, mas com potencial para alcançar mercados internacionais.
Segundo o responsável pelo projecto, Juvêncio António, o processamento varia conforme o produto final.
“No caso dos molhos, o piripiri seco é moído, cozido e temperado antes do enfrascamento. Em seguida, os frascos recebem os rótulos, contendo a identificação do produto, marca, selo de segurança, validade e número do lote. Já para o piripiri triturado, o produto é moído, embalado e rotulado com as respectivas informações de validade. Para o piripiri em pó, o processo inicia-se com a secagem, seguida da moagem e do empacotamento.”
Mais do que aumentar a produção, o projecto pretende fortalecer as comunidades.
“Não queremos apenas produzir piripiri. Queremos formar produtores capazes de liderar outros produtores e contribuir para que a zona tampão esteja cada vez mais verde”, afirma Juvêncio António.
Assistência técnica desde a produção
Os produtores recebem acompanhamento técnico desde o início do processo produtivo. A assistência inclui a distribuição de sementes, estabelecimento de alfobres, transplante das mudas para o campo definitivo e capacitação em práticas agrícolas sustentáveis.
Após a colheita, o piripiri é transportado para a unidade de processamento, onde passa pela secagem, etapa essencial para reduzir o teor de humidade e prolongar a conservação do produto antes da transformação industrial.
Nhamatanda lidera a produção
Entre os três distritos abrangidos, Nhamatanda destaca-se como o maior produtor de piripiri, por ter sido o primeiro local onde o projecto foi implementado em fase experimental. Seguem-se Muanza e Gorongosa.
Apesar dos resultados positivos, persistem desafios. O aumento do número de produtores exige a expansão dos sistemas de rega, enquanto as más condições da estrada entre Muanza e Nhamatanda dificultam o transporte da matéria-prima até à fábrica na Vila da Gorongosa.
Outro desafio é a irregularidade das chuvas, cada vez mais evidente, que afecta o ciclo produtivo. Para responder a esta realidade, o projecto pretende reforçar a instalação de sistemas de rega e promover práticas que permitam uma utilização mais eficiente e sustentável da água.
“Em termos ecológicos, acreditamos que todos os distritos podem alcançar níveis semelhantes de produção. O nosso objectivo é reduzir a dependência das condições climáticas, permitindo que os produtores criem condições para cultivar piripiri durante todo o ano”, explica Juvêncio António.
Actualmente, o Parque Nacional da Gorongosa compra o piripiri aos produtores por 80 meticais por quilograma. Mas como este rendimento está a transformar a vida das famílias? E de que forma o cultivo do piripiri contribui para a mitigação dos conflitos entre pessoas e fauna bravia?
Essas histórias serão contadas pelos próprios produtores, no interior dos distritos, com cultura e línguas locais, na próxima edição do Profundus. (Ana Cleta de Lopes Coimbra).
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