Filimone: Entre as dificuldades e resiliência depois de braço amputado por acidente de trabalho

Aos 25 anos, um acidente de trabalho em Kondue, no interior do distrito de Cheringoma, em Sofala, mudou tudo. Hoje, aos 30, o jovem luta para sobreviver e alerta que a segurança no trabalho salva vidas.

Trata-se de Filimone Joaquim Jonasse. Tinha três anos de trabalho numa serração em Kondue quando a vida dele virou de cabeça para baixo. Era 9 de dezembro de 2021, lembra-se perfeitamente.

Naquele dia, Filimone Joaquim Jonasse carregava touros de madeira manualmente. Ao tentar desatar uma corda, três toros pesados caíram sobre ele.

“Chorando, só dou graças a Deus, porque ali era morte mesmo. Só acordei na Beira e nem me lembro como saí dali”, conta, com a voz embargada.

Socorrido pelos técnicos de saúde no local, Filimone foi levado primeiro ao posto de Kondue e depois, pela gravidade, transferido de emergência para o Hospital Central da Beira. De lá, no dia 23 de dezembro, seguiu para Maputo.

Ficou meses à espera. Os médicos conseguiram salvar a perna, mas o braço esquerdo não resistiu. A veia principal tinha rebentado. A amputação foi a única saída. A cirurgia aconteceu no dia 20 de janeiro. Só em junho de 2022, ele teve alta e regressou para casa.

A vida do jovem virou repentinamente, como se estivesse a desfolhar um livro. Hoje, o que fazia sozinho, depende dos outros quase para tudo.

Voltar para Inhaminga não foi fácil. As tarefas simples do dia-a-dia viraram desafios.  Até para comer depende de doações.

“Aquilo que eu fazia com dois braços, já não consigo. Cozinhar, cortar tomate e cebola… agora tenho de pisar para cortar. É triste”, desabafa.

A amputação constitui, em grande medida, um evento traumático e desestabilizador em muitos sentidos para aqueles que a vivenciam, sobretudo se considerando as especificidades de cada situação em particular e os agravos que lhe são inerentes a cada caso. Assim, há que se atentar para variados factores envoltos, tais como a idade do paciente e o seu desenvolvimento no curso do ciclo vital, a sua realidade sociocultural e o contexto psicossocial em que o sujeito se insere, as circunstâncias relativas à experiência da perda propriamente, bem como os aspectos subjectivos e familiares implicados nessa experiência e os seus desdobramentos para vida do paciente, em diferentes âmbitos.

Filimone, hoje, está entre as dificuldades psicológicas como, por exemplo, quadros de ansiedade, depressão e dificuldades de ajustamento.

Esses desdobramentos afectam directamente o comportamento e as suas relações de Filimone para consigo e para com o mundo a sua volta.

O pior do que a dor física foi o afastamento. Amigos sumiram. A esposa o abandonou. “As pessoas tinham vergonha de mim. Até hoje perco o sono por causa disso”, lamenta.

No meio da solidão, está a prova de uma presença em todos momentos da vida: a mãe. “Foi ela quem ficou comigo. Mesmo depois que a minha esposa foi embora, a minha mãe não me largou”, diz, com lágrimas nos olhos.

Hoje, com 30 anos, Filimone sobrevive da solidariedade. “Tem gente de bom coração que me dá 5 meticais. Eu compro alguma coisa e a vida vai indo. Se não tiver ajuda, passo fome, porque ir pedir comida nas casas dos outros é difícil”, conta.

Ele diz que perdeu a esperança de voltar a fazer o que fazia: trabalhar na machamba e na construção. “Tudo que se faz com dois braços, eu já não consigo”.

Mas nem tudo é desesperança. Filimone encontrou força na fé. “Passei três dias chorando. Depois pensei: até o animal que não cultiva, come e engorda. Tudo isso é Deus. E eu vou continuar a lutar com aquilo que tenho”.

A experiência de Filimone reforça a necessidade de Higiene e Segurança no Trabalho

Da dor, nasceu um pedido. Filimone quer falar com os outros trabalhadores.

“Chegou no serviço, valoriza primeiro a tua vida. Ter medo daquilo que te pode fazer mal. Se trabalhar com máquina, vê se o cabo não está estragado. Porque um acidente te puxa a vida toda para trás. Sem vida, não há trabalho. O nosso maior valor é a vida”, conclui. (Pavlik Saguate).


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