Cassenga planta 54 mil árvores em Cheringoma

Aos 61 anos, Carlos Augusto Francisco Nota Cassenga está a construir com as próprias mãos o futuro que quer deixar para os filhos e netos. Numa área de 10 hectares, na comunidade de Maçanza, localidade de Mazamba, no distrito de Cheringoma, ele cuida de uma floresta com 54.931 plantas. Plantou a primeira em 1996. O sonho ficou maior em 2009 e mantém a rotina.

Casado, pai de 20 filhos e avô de 14 netos, Carlos diz que tudo começou na escola. A culpa é de Samora Moisés Machel.

“O saudoso Presidente dizia: cada aluno deve pensar no que quer fazer no futuro. Eu pensei nas Ciências Naturais, em ser agricultor, em fazer plantas. Apostei nisso e cá estou”, conta, sorrindo.

Depois da guerra, largou a vila de Inhaminga e voltou para o campo para pôr a teoria à prova. “Fui experimentar se um ramo cortado pegava mesmo na terra. E pegou. A ciência diz que a natureza serve. E está a servir”, afirma.

 

Floresta feita ramo a ramo

Hoje, além das mais de 54 mil plantas, Carlos tem cerca de 160 cajueiros novos. Na floresta há chanfuta — 3.046 pés — e umbila — 2.068 pés. Tentou panga-panga, mas a terra não deixou. “Esta terra aqui é grossa, forte. Panga-panga gosta de terra leve, como a de Inhaminga ou Santa Fé. Aqui não dá”, explica.

Ele sonha em expandir para Santa Fé. Já pediu dois hectares ao secretário do bairro no ano passado para plantar tangerineiras, laranjeiras e panga-panga. Ainda espera pela resposta. “Como é terra de outra pessoa, não posso obrigar. Estou à espera.”

 

Ciência da paciência

Sem apoio técnico, Carlos tornou-se o agrónomo. Recolhe sementes de chanfuta, mete em saquinhos com areia e rega. Algumas demoram de 30 a 60 dias para brotar. Depois ficam mais de 90 dias no viveiro até irem para a terra.

Aprendeu um truque: plantar na chuva. “Abro a cova, tiro o plástico da muda e enterro. Com humidade pega fácil. No sol morre tudo”, diz.

Para manter a terra húmida, usa o que o mato dá: folhas secas e capim no fundo da cova. “Quando apodrece vira estrume para a planta. Não uso adubo. Falta apoio. Faço tudo sozinho.”

Outra técnica é plantar ramos. Cava meio metro, enterra o ramo de chanfuta ou umbila, rega com um litro de água e espera. “Fica seis meses sem folha. No sétimo mês começa a brotar. Demora, mas ajuda.”

 

“Só eu e a família”

O trabalho é dele, das três mulheres e dos filhos. A comunidade negou ajuda, então ele fez.

“Sou eu com a minha família. Quando o Governo do distrito precisa de alguém para semear, lembra de mim. Eu agradeço e planto para aumentar a minha floresta.”

Além das árvores, Cassenga produz mapira, milho, batata-doce, mandioca, gergelim e feijão-mbuete. Cria porcos, galinhas e pombos. Tem até uma moagem parada por falta de combustível.

Perguntado quanto já gastou, primeiro, riu: “Nem posso contar. Já comprei água de 20 litros a 5 meticais. Não sei quanto gastei. Mas valeu.”

 

O maior pedido: um papel para os netos

Emocionado, Carlos faz o maior pedido: o Direito de Uso e Aproveitamento de Terra (DUAT).

“O que eu preciso mesmo é o DUAT. Com DUAT fico seguro. Se eu morrer agora, vou morrer com nervo de que o Governo não fez nada. E o Governo está a fazer.”

Limpando lágrimas, Cassenga tem único pedido: “Quero que estas coisas fiquem para os meus netos e filhos quando eu morrer.”

Ele não pensa em cortar a chanfuta e a umbila tão cedo. Planta pensando à frente.

“Só estou a semear para o futuro dos meus netos. Até hoje eu estou a nascer”, brinca.

Dos pés de caju, papaia e goiaba já come. E diz que as árvores também protegem a casa.

“Passaram muitas ventanias. A minha casa é só de pau e capim e não voou. É por causa das plantas. Elas dão sombra, ar e saúde.”

Falta ferramenta, sobra vontade

O que mais falta são regadores, enxadas, catanas e saquinhos para mudas. Há seis anos o Serviço Distrital de Planeamento e Infra-estruturas (SDPI) deu algumas enxadas, mas já gastaram, e pediu ajuda a um filho na cidade da Beira.

Aos 61 anos, sente o peso da idade e quer passar o bastão.

“Já sou velho. Peço ao Governo um pouco de financiamento. Não precisa de ser muito. É para eu ensinar os meus filhos e netos a continuar. Para que os vossos filhos também tenham uma lembrança.”

Um recado: “Pedimos um grande favor à comunidade nacional: vamos conservar o meio ambiente. Sem ele não vivemos bem. Vamos abater uma árvore e plantar outra. E para os jovens sem emprego: a terra dá. Quem quiser aprender, pode se aproximar. Eu ensino.”

O sonho de Carlos Augusto é simples e gigante ao mesmo tempo: aumentar a floresta. Uma árvore de cada vez. (Pavlik Sagueta).


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