Macacos-prego aumentam caça a vertebrados quando frutas são escassas, sugerindo uma evolução humana de carne

Estudos de longo prazo no Brasil mostram que os capuchinhos-de-listra-preta dependem mais de pequenos vertebrados quando os alimentos vegetais são limitados, com implicações para as dietas humanas iniciais.
Pesquisadores observaram macacos caçando e comendo pequenos vertebrados quando frutas e vegetais se tornam escassos. Esse comportamento, no qual primatas aumentam o consumo de carne durante períodos de pouca alimentação vegetal, está sendo proposto como uma possível pista de como os hábitos humanos de consumo de carne se formaram pela primeira vez.
Uma equipe conjunta de pesquisa do Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique, e da Universidade Sapienza de Roma, na Itália, publicou no dia 26 (horário local) na revista internacional PLOS ONE os resultados de um estudo de longo prazo que observou o comportamento de caça do capuchinho-listra-preta, um membro da família Cebidae que vive no Brasil.
Os humanos são os únicos primatas existentes que rotineiramente caçam animais maiores que eles. Acredita-se que os hábitos humanos de consumo de carne tenham surgido junto com o desenvolvimento de um cérebro grande e estruturas sociais complexas. A equipe de pesquisa focou na possibilidade de que os humanos não tenham começado caçando grandes animais, mas sim evoluído a partir de um padrão comportamental semelhante ao de outros primatas que comem pequenos animais.
A equipe observou dois grupos de macacos-prego vivendo em Fazenda Boa Vista, Brasil, por mais de 5.000 horas entre 2006 e 2010. Durante o período de observação, eles registaram 446 casos de macacos comendo pequenos animais. Lagartos representavam 43% das presas e roedores 28%. Pela primeira vez, também documentaram capuchinhos comendo gambás, iguanas e filhotes de aves.
O comportamento de caça variava conforme o sexo. Os machos caçavam com mais frequência do que as fêmeas e tentavam capturar presas relativamente perigosas, como cobras.
Durante períodos em que frutas e outros alimentos vegetais eram escassos, a frequência da caça à carne por capuchinhos aumentava. Os macacos também demonstraram preferência pelo cérebro e órgãos internos dos animais. A equipe analisou que “eles parecem priorizar tecidos com alto teor de gordura.” O estudo confirma que, quando os alimentos de origem vegetal são limitados, os primatas consomem pequenos vertebrados como uma importante fonte de nutrientes.
No entanto, a caça de vertebrados é influenciada não apenas pela quantidade de alimento vegetal disponível, mas também por vários fatores, como o sexo e a falta de nutrientes. Os pesquisadores observaram: “Precisamos investigar mais a fundo se comportamentos semelhantes ocorrem em outras espécies de primatas.”
O comportamento de caça à carne dos capuchinhos pode fornecer pistas sobre como os hábitos predatórios humanos evoluíram. A equipe explicou: “Foi sugerido que o mesmo padrão pode ter ocorrido nos primeiros humanos durante períodos em que os alimentos à base de plantas eram escassos devido às flutuações climáticas.” A caça a pequenos animais pode ter sido uma etapa intermediária que depois evoluiu para a caça a animais maiores.
Susana Carvalho, ex-professora de paleoantropologia na Universidade de Oxford e diretora científica do Parque Nacional Gorongosa, disse: “Este estudo mostra o quão cruciais são as observações de campo de longo prazo para entender o comportamento dos primatas, que têm longa expectativa de vida e mudam suas ações de forma flexível conforme as circunstâncias.” Ela acrescentou: “Ao analisar 45 meses de dados, confirmamos que, quando frutas são escassas, pequenos vertebrados como lagartos, roedores e cobras tornam-se uma importante fonte de alimento para os capuchinhos.”
Ela continuou: “O próximo passo é reexaminar o registo fóssil para buscar evidências de caça de pequenos vertebrados, a fim de determinar se pequenos animais também serviram como fonte fundamental de nutrição para os primeiros humanos.”

Fonte: Macacos-prego aumentam a caça a vertebrados quando as frutas são escassas, sugerindo uma evolução humana de carne – DongA Science


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