Gorongosa Renasceu
Gorongosa chorou na guerra,
calou-se no mato ferido.
O capim secou de tristeza,
o povo ficou perdido.
Mas a terra não morreu,
guardou a semente no chão.
Esperou a chuva e o tempo,
esperou com o coração.
Hoje canta na serra,
é um paraíso renascido.
Quem a vê agora, sabe:
Gorongosa venceu a dor.
Monte Gorongosa
Monte alto, monte santo,
guardas a chuva e o vento.
Quem te olha de longe,
sente Deus no pensamento.
Nas tuas encostas verdes,
nasce a água que nos dá vida.
És pai, és mãe, és templo,
és a nossa terra querida.
Monte, fica connosco,
protege quem cá vive.
Quem sobe até ao teu cimo,
desce com a alma mais leve.
O Rio Que Volta
O rio fugiu com medo,
quando a guerra chegou.
Ficou seco, ficou triste,
ninguém mais o escutou.
Mas voltou cantando baixinho,
como quem pede perdão.
Trouxe peixe, trouxe vida,
trouxe água ao coração.
Hoje lava os pés das crianças,
e rega o milho no caminho.
O rio de Gorongosa,
é o nosso irmão vizinho.
Terra Vermelha
Terra vermelha de Gorongosa,
terra que me viu nascer.
Nela aprendi a andar,
nela aprendi a escrever.
Nela planto o meu milho,
nela enterro o meu umbigo.
Terra vermelha, terra minha,
és mãe, és casa, és abrigo.
Nela quero envelhecer,
nela quero descansar.
Terra vermelha de Gorongosa,
nunca te vou abandonar.
A Chuva de Novembro
Quando a chuva cai em Novembro,
a terra sorri contente.
É Deus a regar Gorongosa,
é a vida a nascer na gente.
As crianças correm descalças,
a brincar na lama fina.
A mãe olha para o céu,
e agradece à chuva divina.
É sinal de milho novo,
é sinal de pão na mesa.
Chuva de Novembro em Gorongosa,
é bênção, é festa, é riqueza.
O Pôr-do-sol de Casa Banana
O sol desce devagarinho,
pinta de ouro o capim.
Em Casa Banana à tardinha,
o céu reza por mim.
As cabras voltam para casa,
o fumo sobe do fogão.
O professor fecha a escola,
com o caderno na mão.
E eu fico a olhar o céu,
a pensar na minha vida.
Casa Banana ao entardecer,
é a minha terra querida.
A Noite de Gorongosa
À noite o céu é tão limpo,
que as estrelas descem ao chão.
Em Gorongosa, quem olha para cima,
sente Deus no coração.
O grilo canta no mato,
a lua ilumina o caminho.
Ninguém tem medo da noite,
porque a paz dorme connosco.
Dormir em Gorongosa,
é dormir com a alma leve.
É saber que amanhã,
um novo dia se escreve.
O Capim e o Vento
O capim dança com o vento,
sem escola, sem professor.
Em Gorongosa a natureza,
é a primeira a dar amor.
O vento conta segredos,
que só o mato entende.
É a voz dos antepassados,
que nunca nos ofende.
Quem aprende com o capim,
aprende a ser humilde.
Que mesmo pisado no chão,
volta a crescer, firme e livre.
A Árvore Grande
Debaixo da árvore grande,
os velhos contam histórias.
É escola sem parede,
é livro sem memórias.
Ali se resolve a aldeia,
ali se faz a paz.
Ali o neto ouve o avô,
e aprende o que o tempo traz.
Árvore grande de Gorongosa,
fica de pé para sempre.
És a nossa biblioteca,
és a nossa maior semente.
A Machamba
Na machamba de manhã cedo,
a enxada canta no chão.
Quem planta com esperança,
colhe pão e gratidão.
O sol ainda está fraco,
o orvalho molha o pé.
Mas o camponês já canta,
porque tem fé.
Na machamba de Gorongosa,
não há preguiça, há vida.
Quem trabalha a terra,
nunca fica de mão vazia.
O Milho Amadureceu
O milho já amadureceu,
a mãe já pode sorrir.
Em Gorongosa, quando há milho,
há futuro para vir.
As espigas estão cheias,
o celeiro vai encher.
A criança vai à escola,
sem barriga a doer.
Milho é mais que comida,
milho é dignidade.
É a prova de que Gorongosa,
venceu a dificuldade.
O Café de Gorongosa
Café plantado na montanha,
cheiro que sobe ao céu.
É o suor do camponês,
a virar mel no papel.
Na montanha, com neblina,
o café cresce devagar.
Mas cresce com carinho,
como quem quer ficar.
Quem prova o café de Gorongosa,
prova a força desta terra.
É amargo na boca,
mas é doce na espera.
O Mel da Montanha
As abelhas de Gorongosa,
fazem mel de flor em flor.
É doce como a paz,
é doce como o amor.
Trabalham sem descanso,
sem pedir salário.
Ensinam-nos que a vida,
se faz com trabalho diário.
Mel da montanha de Gorongosa,
é ouro que não brilha.
Mas adoça a boca da criança,
e a vida da família.
A Flor Que Resistiu
No meio do capim queimado,
nasceu uma flor sozinha.
Assim é Gorongosa,
bonita mesmo na ruína.
Ninguém a regou,
ninguém a plantou.
Ela nasceu porque quis,
porque a terra a chamou.
Flor pequena, flor forte,
és o espelho do meu povo.
Que mesmo no meio do fogo,
volta a nascer de novo.
Terra Que Cura
Esta terra já viu sangue,
hoje vê semente a nascer.
Gorongosa não é só terra,
é terra que sabe curar.
Cura quem chega triste,
cura quem chega cansado.
Cura com o seu silêncio,
cura com o seu passado.
Quem pisa esta terra,
sai diferente daqui.
Gorongosa é hospital,
para a alma que quer sorrir.
Eu não escrevo Gorongosa porque ouvi falar. Eu escrevo porque vivi.
Vivi em Casa Banana, de pé descalço, com giz na mão. Vivi em Madzimachena. Passei por Zumbo. Hoje estou em Beira, mas Gorongosa nunca saiu de mim.
Gorongosa já foi chamada paraíso perdido. Hoje é chamada milagre. Eu vi esse milagre com os meus olhos: a escola que voltou, a criança que voltou a sorrir, o elefante que voltou ao mato, a mãe que voltou a ter pão.
Estes 62 poemas são a minha gratidão. São para a terra, para o povo, para quem restaurou e para quem ainda vai restaurar.
Se este livro ficar nas mãos de uma criança de Gorongosa, já valeu a pena.(Sousa Artur Sousa Roupa).
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