Temos mais de 65% da população com menos de 35 anos. Temos força. Agora precisamos de mais oportunidades.
Em Casa Banana, em Gorongosa, tive um aluno que terminou a 12.ª classe com boas notas. Era inteligente, era respeitoso, era o orgulho da mãe. Hoje, quando passo pelo mercado, vejo-o a vender crédito e a trabalhar como agente de moeda electrónica.
Não é que ele não queira trabalhar. Ele trabalha todos os dias. Mas o seu talento merecia mais. Ele merecia uma oportunidade à altura da sua formação.
Esta é a realidade de muitos jovens em Moçambique, do Rovuma ao Maputo, do Zumbo ao Índico. Somos um país jovem, com muita energia, e precisamos que as nossas políticas acompanhem essa juventude, com mais emprego, mais formação e mais apoio.
Este texto não é contra ninguém. É uma contribuição humilde, de um professor que começou em Zumbo, em Tete, e viveu 10 anos na Zona Tampão da Gorongosa, para juntos pensarmos como melhorar o nosso país, ao lado do Governo, das comunidades e dos parceiros.
A minha caminhada: do zumbo à Gorongosa
Eu não falo de livros. Falo da estrada que percorri.
Comecei a minha carreira como professor em Zumbo, província de Tete, nos anos 2009 a 2010, no Posto Administrativo de Zumbo, na localidade de Cassenga, e na zona de Compho, na Escola Primária de Compho.
Depois, vim para Gorongosa, onde vivi 10 anos na Zona Tampão do Parque Nacional da Gorongosa. Fui professor na Escola Primária de 1.º e 2.º Grau de Casa Banana, na localidade de Casa Banana, durante 10 anos. Depois fui professor e Director Adjunto da Escola Primária de 1.º e 2.º Grau de Madzimachena, na localidade de Pungué, distrito de Gorongosa, nos anos de 2022 a 2024.
– Do Zumbo à Gorongosa, vi a mesma realidade: crianças inteligentes, pais trabalhadores, mas poucas oportunidades depois da escola. Vi ciclones, tensão político-militar e Covid-19. E vi também o Parque Nacional da Gorongosa a ajudar as populações afectadas, por isso, quando falo de emprego jovem, falo do que vi com os meus olhos.
O diagnóstico — os números que nos desafiam
Segundo estimativas oficiais e de parceiros internacionais, mais de 65% da população moçambicana tem menos de 35 anos e cerca de 60% tem menos de 25 anos. Todos os anos, centenas de milhares de jovens chegam à idade de trabalhar.
Estima-se que precisamos de criar centenas de milhares de empregos por ano até 2030 para absorver quem entra no mercado.
Mas a realidade ainda é difícil: o desemprego afecta sobretudo os jovens e é mais alto nas cidades. A grande maioria dos empregos é informal e grande parte da população activa está na agricultura de sobrevivência.
O gás e os megaprojectos são importantes para o país, mas são intensivos em capital e geram pouco emprego directo. O jovem vê o desenvolvimento a passar e quer também fazer parte dele.
A pergunta não é se Moçambique tem juventude. A pergunta é: como transformar esta força em riqueza para todos?
A juventude não é problema. É um dividendo demográfico. Se investirmos agora, é riqueza. Se não investirmos, perdemos uma grande oportunidade.
O que acontece depois da 12.ª classe?
Este é o ponto que mais me preocupa como professor.
Muitos jovens terminam a 12.ª classe com sucesso. Estudaram, se esforçaram, passaram. Mas depois não conseguem continuar os estudos numa escola de formação profissional nem na universidade. Uns conseguem, mas a maioria não consegue, por falta de vagas, por falta de dinheiro, por falta de apoio, ou por estarem longe dos centros.
E o que acontece depois? O jovem fica parado, sem ocupação, sem esperança. E é aí que o perigo começa.
Sem ocupação e sem perspectiva, alguns jovens acabam por ser atraídos para as drogas, para os roubos e para outros caminhos que destroem a sua vida e prejudicam a comunidade. As meninas, em situações difíceis, acabam por ser empurradas para situações de vulnerabilidade, por vezes para sobreviver.
Não estou a dizer que o jovem é mau. Estou a dizer que o jovem sem oportunidade fica vulnerável. E isso assusta o futuro do amanhã.
O jovem de hoje é o dirigente de amanhã. É o futuro de amanhã. Se não investirmos seriamente nos jovens hoje, teremos problemas sérios no futuro. E os jovens, quando se sentem abandonados, podem aliar-se a várias situações do mal que podem destruir o país, por isso, investir no jovem não é favor. É protecção do futuro. É prevenção. É construir paz, emprego e esperança antes que o mal ocupe o lugar vazio.
E os que já concluíram a licenciatura?
Há também outra realidade que precisamos de falar com respeito e com verdade.
Todos os anos há graduações em várias áreas do saber: educação, saúde, agricultura, engenharia, gestão, direito e muitas outras instituições de formação. Os jovens estudaram, os pais sacrificaram-se, o Estado investiu, os professores formaram.
Mas depois da graduação, muitos ficam sem oportunidade de emprego. Concluem a licenciatura e ficam em casa, à espera. Uns conseguem, mas a maioria continua à espera, ano após ano. E, ao mesmo tempo, continuam a haver novas formações a decorrer, sem garantia se haverá emprego ou não.
Isto não é culpa do jovem. O jovem fez a sua parte: estudou. Também não é para acusar ninguém. É um desafio de todos nós, que precisamos resolver juntos.
Porque quando um licenciado fica anos sem trabalhar, ele perde a prática, perde a confiança, perde a esperança. E, tal como o jovem da 12.ª classe, também ele pode ficar vulnerável, desanimado, e procurar outros caminhos que não ajudam o país.
Nós nos formamos bem. Agora precisamos de ligar melhor a formação ao emprego. Formar sem empregar é como plantar sem colher.
O que pode ser feito? Soluções para ajudar o governo, sem ofender
Aqui deixo ideias práticas, construtivas, para ajudar o Governo e os parceiros a resolver este cenário:
- Ligar a vaga à formação antes de abrir o curso
Antes de abrir novas turmas, o distrito pode fazer um levantamento simples: quantos professores, enfermeiros, técnicos agrícolas, precisamos nos próximos 3 anos? Assim a formação responde à necessidade real, e o jovem já sabe onde vai trabalhar.
- Banco Distrital de Graduados
Criar uma lista pública e transparente em cada distrito, com nome, curso, ano de graduação e contacto, publicada na escola, na rádio comunitária e na administração. Quando houver uma vaga, um projecto ou um estágio, chama-se por essa lista, por ordem e por mérito. Assim ninguém fica esquecido.
- Estágio remunerado de 1 ano para recém-graduados
O recém-graduado pode fazer 1 ano de estágio na escola, no centro de saúde, na agricultura, na administração, com uma bolsa. Ele ganha experiência, a instituição ganha força de trabalho, e o Estado conhece quem está pronto para contratar.
- Licenciado empreendedor, não só licenciado à espera de emprego
Nem todos vão entrar no Estado, e isso é normal em todos os países. Por isso, o licenciado em educação pode abrir um centro de explicações, o de saúde pode abrir um posto de cuidados comunitários, o de agricultura pode criar uma cooperativa, o de gestão pode apoiar pequenas empresas.
Para isso, precisa de 3 coisas: formação em empreendedorismo na própria universidade, microcrédito simples e acompanhamento nos primeiros 2 anos.
- Contratação por mérito e com calendário conhecido.
Quando o jovem sabe quando haverá concurso, quantas vagas e quais os critérios, ele prepara-se com calma. A transparência dá esperança. A publicação da lista de admitidos na escola e na rádio, como já se faz em alguns lugares, fortalece a confiança de todos.
- Aproveitar os graduados onde já há falta.
Há escolas sem professor de Matemática, centros de saúde sem pessoal, machambas sem extensionista, projectos sem técnico. Se fizermos o mapa das faltas, vamos ver que muitos graduados podem ser úteis já hoje, mesmo em regime de contrato local, de projecto, ou de parceria com ONGs e sector privado.
- Formação contínua, mesmo sem emprego
Enquanto espera, o graduado não deve ficar parado. Cursos curtos de informática, inglês, contabilidade, agricultura, primeiros socorros, turismo, podem ser dados nas escolas, aos fins-de-semana, com certificado. Assim ele continua pronto e não perde o que aprendeu.
- Parceria com o sector privado
O Governo não pode empregar todos, sozinho, em nenhum país, por isso, precisamos de chamar as empresas, as minas, as fábricas, os hotéis, os bancos, os projectos de gás, para dizerem: que cursos precisam? Que estágios podem dar? Quantos jovens podem absorver por ano? É uma parceria, não uma exigência.
Caminhos construtivos para fortalecer as políticas de emprego e crescimento
Proponho sete caminhos construtivos para fortalecer as políticas de emprego e crescimento, em apoio ao trabalho que já está a ser feito.
- Escola que dá emprego, não só diploma
Hoje muitos jovens saem da 12.ª classe com diploma, mas sem um ofício nas mãos.
Podemos reforçar a ligação entre cada escola secundária e um centro de formação profissional: electricidade, canalização, soldadura, culinária, informática, mecânica.
Na Casa Banana, eu ensinava com giz. Hoje o jovem precisa de giz + ferramenta na mão. O Governo já tem feito esforços nesta área, e podemos ir mais longe, com mais centros, mais vagas, mais bolsas e mais professores técnicos, para que quem termina a 12.ª classe tenha para onde ir.
- Agricultura como negócio, não como sacrifício
Cerca de 65% vivem no campo, longe dos centros de emprego. Em vez de os jovens saírem para a cidade, podemos fazer o campo dar mais rendimento.
Terra infra-estruturada, regadio, sementes melhoradas, e jovens organizados em cooperativas que vendem para escolas, hospitais e hotéis.
O jovem não foge da machamba porque é preguiçoso. Foge porque a machamba ainda não lhe paga o suficiente. Se a agricultura for negócio, o jovem fica.
- Dinheiro que chega mesmo — fundo pró-jovem
O Governo criou o Pro-Jovem para apoiar jovens empreendedores, e parceiros já têm apoiado este esforço. É um passo importante e deve ser valorizado.
Para fortalecer ainda mais, proponho: concurso distrital, transparente, com lista publicada na escola e na rádio comunitária. 50 mil meticais bem geridos valem mais que 500 mil prometidos e nunca entregues.
Que o apoio chegue a todos os distritos, do Zumbo ao Índico.
- Formalizar o informal sem prejudicar o informal
A grande maioria do emprego informal não é crime, é sobrevivência. A mamã que vende no mercado, o jovem que conserta telefone na esquina, o jovem que vende crédito e é agente de moeda electrónica, não são problemas, são empresários sem papel.
Em vez de dificultar, podemos facilitar: registo simples no telefone, redução de taxas nos dois primeiros anos, acesso ao INSS e ao crédito.
Assim, a vendedeira vira empresária, com protecção e dignidade. O agente de moeda electrónica vira pequeno empresário formal.
- Economia digital e turismo — emprego sem precisar de grande fábrica
Moçambique continua muitas vezes a pensar em emprego só como fábrica grande. Mas o emprego do futuro também vai nascer no telefone e na nossa terra bonita.
Temos três riquezas juntas: juventude que já vive no telefone, natureza que o mundo quer ver — Gorongosa, Bazaruto, Quirimbas, Tofo — e cultura que vende — capulana, marrabenta, artesanato.
Propostas construtivas:
– Internet mais acessível para escolas. Internet não é luxo, é estrada.
– Laboratório digital em cada escola, para o jovem aprender a vender Online e receber por conta móvel.
– Apoio ao turismo de base comunitária: guia local em Gorongosa, casa comunitária em Nhamatanda, artesão a vender directo.
Um turista que dorme três noites em Gorongosa paga guia, cozinheira, motorista, artesão. São quatro empregos numa só visita.
Não precisamos de esperar só pela fábrica para empregar jovens. Podemos dar-lhe internet, formação e deixar que ele transforme a sua aldeia em empresa.
- Gás para industrializar, não só para exportar
O gás é uma riqueza de todos os moçambicanos. A sua receita pode ajudar a ter fertilizante mais barato, energia mais barata, estradas e fábricas de transformação.
Se o gás for bem aplicado dentro do país, o jovem sente o benefício. Se ficar só na exportação, o benefício é menor.
A ideia é simples: usar o gás para industrializar Moçambique, passo a passo, com transparência.
- Jovem na mesa onde se decide
O lugar do jovem não é na sala de espera do desenvolvimento, é onde se decide.
Concordo plenamente. Por isso proponho: 30% de lugares nos conselhos consultivos distritais para jovens, e orçamento participativo jovem. Nenhuma política de juventude sem juventude na mesa.
Os jovens querem ajudar a construir, não só a receber.
Samora dizia que a libertação da mulher é condição para a libertação de toda a sociedade. Hoje eu digo: o emprego do jovem é a libertação de Moçambique.
Moçambique não é pobre porque é jovem. Moçambique é rico porque é jovem, e precisa de transformar essa riqueza em oportunidade.
Quando tratarmos o jovem como investimento, e não como despesa, o país vai crescer ainda mais, do Rovuma ao Maputo, do Zumbo ao Índico.
Se investirmos no jovem depois da 12.ª classe, com formação, com emprego e com esperança, ele não vai procurar o mal. Ele vai construir o bem. Ele vai ser professor, enfermeiro, agricultor, guia, empresário, dirigente.
Não estamos a dizer que não há esforço. Há esforço. Há escolas a formar, há universidades a graduar, há programas a apoiar.
Estamos a dizer: vamos dar o próximo passo juntos. Formar é o primeiro passo. Empregar, estagiar e empreender são os segundos passos. E são esses segundos passos que hoje precisamos de fortalecer.
A luta continua — agora com giz, com telefone e com emprego. (Sousa Artur Sousa Roupa).
Discover more from JORNAL PROFUNDUS
Subscribe to get the latest posts sent to your email.







