Versos de uma terra que renasceu: Contin… Parte II – O povo

A Mulher de Gorongosa

Carrega lenha, carrega filho,

carrega água, carrega dor.

Mas quando sorri, Gorongosa,

sente que a vida tem cor.

 

De manhã vai à machamba,

à tarde vai ao mercado.

À noite cuida dos filhos,

sem nunca estar cansada.

 

Mulher de Gorongosa,

és coluna desta terra.

Sem ti, não há casa,

sem ti, não há guerra que se vença.

 

A Mãe de Casa Banana

Mãe de Casa Banana,

não tem ouro, nem tem prata.

Tem filhos na escola,

e isso já lhe basta.

 

Acorda antes do sol,

dorme depois da lua.

A sua riqueza maior,

é ver o filho na rua, com livro na mão.

 

Mãe, o teu filho vai ser grande,

porque tu não desististe.

Casa Banana te agradece,

por tudo o que resististe.

 

O Velho Que Conta

O velho senta-se à sombra,

conta a guerra, conta a paz.

Em cada ruga do rosto,

há um livro que ninguém mais faz.

 

Conta do tempo da fome,

conta do tempo do medo.

Conta também do renascer,

com voz de quem tem segredo.

 

Velho, conta mais,

que o tempo está a passar.

O que tu não contares,

ninguém mais vai contar.

 

O Camponês

Mãos calejadas, pés no chão,

coração cheio de fé.

O camponês de Gorongosa,

é rei sem coroa no pé.

 

Não tem escritório,

não tem fato nem gravata.

Tem a enxada como caneta,

e a terra como ata.

 

Camponês, tu és professor,

de quem vive na cidade.

Ensinas que o pão não nasce,

nasce da honestidade.

 

A Criança de Gorongosa

Criança de pé descalço,

com caderno na mão.

É pequena no tamanho,

mas gigante no coração.

 

Corre para a escola,

sem sapato, sem lanche.

Mas leva a maior riqueza:

vontade de aprender, de verdade.

 

Criança de Gorongosa,

o mundo é teu.

Estuda, cresce, voa,

que Gorongosa é teu céu.

 

O Menino da Escola

Menino, não tenhas medo,

o giz é a tua lança.

Quem aprende em Gorongosa,

leva o mundo na esperança.

 

A escola é pequena,

mas o sonho é grande.

O professor é pobre,

mas o ensino é gigante.

 

Menino, quando cresceres,

lembra-te de onde vieste.

Gorongosa te fez forte,

para venceres o que quiseres.

 

A Menina Que Quer Ser Professora

Ela diz: quero ser professora,

como o professor Sousa.

Quer ensinar outras meninas,

a voarem sem asa.

 

Ela já ensina em casa,

aos irmãos mais pequenos.

Com um pau como giz,

e a parede como caderno.

 

Menina, vais ser professora,

eu já vejo em ti.

Gorongosa precisa de ti,

para as outras crescerem aqui.

 

O Guarda do Parque

Guarda de noite e de dia,

protege bicho sem falar.

É herói sem farda de ouro,

é anjo a patrulhar.

 

Anda no mato sozinho,

com chuva, com sol, com medo.

Mas não abandona o posto,

porque o parque é o seu segredo.

 

Guarda, obrigado por cuidares,

do elefante e do leão.

Tu proteges Gorongosa,

com a tua própria mão.

 

A Enfermeira

Ela cura com as mãos,

cura também com o olhar.

Em Gorongosa, a enfermeira,

é mãe de quem precisar.

 

De noite, quando todos dormem,

ela ainda está acordada.

A cuidar de quem tem febre,

a segurar a mão cansada.

 

Enfermeira, tu és anjo,

de bata branca no mato.

Gorongosa te deve a vida,

mais do que um retrato.

 

O Professor de Pé Descalço

Pé descalço, giz na mão,

não tenho quadro bonito.

Mas tenho alunos com fome,

de aprender o infinito.

 

A minha sala é de caniço,

o meu teto é de capim.

Mas o meu coração é grande,

e cabe Gorongosa em mim.

 

Professor de pé descalço,

não tenhas vergonha, não.

Tu és o maior herói,

desta nação.

 

O Jovem Que Voltou

Ele foi para a cidade,

voltou para plantar.

Disse: minha terra é Gorongosa,

é aqui que quero ficar.

 

Na cidade tinha luz,

tinha emprego, tinha tudo.

Mas não tinha a paz,

que tem o mato e o mundo.

 

Jovem, voltaste bem,

Gorongosa precisa de ti.

Quem volta para construir,

é quem faz a terra sorrir.

 

A Avó

Avó cozinha no fogão a lenha,

reza antes de dormir.

É ela que segura a casa,

é ela que faz a paz existir.

 

Conta histórias de antigamente,

ensina a neta a rezar.

É a memória da família,

que nunca vai se apagar.

 

Avó, fica connosco,

mais cem anos, se puder.

Gorongosa sem a avó,

não sabe o que fazer.

 

Os Vizinhos

Antes eram inimigos,

hoje partilham o pão.

Em Gorongosa, o perdão,

é a maior oração.

 

Ontem não se falavam,

hoje dividem a água.

A guerra ficou para trás,

a paz ficou na mágoa curada.

 

Vizinhos, continuem assim,

a partilhar o milho e o sal.

Gorongosa só é forte,

quando o vizinho é irmão, afinal.

 

O Povo Que Não Desistiu

Bateram, queimaram, fugiram,

mas o povo ficou.

Gorongosa não morreu,

porque o povo não desistiu.

 

Passou fome, passou sede,

passou noite sem dormir.

Mas nunca perdeu a fé,

de um dia voltar a sorrir.

 

Povo de Gorongosa,

povo de coragem pura.

Tu és a prova viva,

de que a vida sempre cura.

 

Todos Somos Gorongosa

Não sou só de Casa Banana,

nem só de Madzimachena.

Sou de Gorongosa inteira,

sou de toda esta terra.

 

Sou de Zumbo, sou de Beira,

sou de onde a paz me chamar.

Mas o meu coração é Gorongosa,

onde eu for, vou levar.

 

Todos somos Gorongosa,

um só povo, uma só voz.

Se um cai, todos levantam,

porque Gorongosa somos nós.

 


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