A Guiné-Bissau parece ter inventado um novo género político: o golpe autossuficiente. Não precisa de adversário, não precisa de oposição, não precisa sequer de vergonha. É o famoso golpe de circuito fechado. O sujeito governa, perde, não aceita, dá golpe e acusa a si de golpe. É como se fosse o único aluno da sala, faz o exame, leva para casa, corrige, mete uma nota 20 e ainda reclama do rigor da banca. É o tipo de política que transforma Kafka em redactor do diário oficial.
O presidente Sissoco Embaló conseguiu a façanha de transformar o Estado num espelho. A oposição olha para o governo e só vê o governo olhando de volta. A democracia vira uma cerimónia de despedida de solteir. A metáfora mais precisa: é pedir a um bêbado especializado em cachaça para liderar uma campanha contra o álcool. Ele até aceita o convite, mas antes abre a garrafa para “fiscalizar o conteúdo”. A União Africana, por sua vez, assiste tudo com aquele ar de tia distante no velório da política regional: finge que está tudo bem, mas não consegue disfarçar que não entendeu nada.
É trágico, mas a tragédia no continente africano tem sido aperfeiçoada pelos próprios protagonistas. Não é a mão estrangeira que acende o fósforo – muitas vezes é o próprio candidato que risca, sopra e ainda culpa o vento. Golpe atrás de golpe, eleição que se transforma em piada interna, e líderes que tratam o cargo como herança familiar.
Se a democracia é um jogo, em Bissau ela virou partida solitária: o árbitro marca penalti para si mesmo, cobra, defende, comemora e ainda reclama do VAR. O povo assiste de bancada, acreditando que uma hora o jogo acaba. Mas por enquanto, quem dá o golpe é o mesmo que anuncia a vitória e ainda escreve a ata da posse.
A África não está condenada. O que condena são os projectos políticos pequenos, comandados por gente grande em ego e pequena em carácter. O continente merece líderes, não gestores de golpes domésticos com certificado de autenticidade própria.
A farsa em Guiné-Bissau continua porque a política por lá ainda acredita em mágica: o presidente perde, mas ganha. A democracia morre, mas o golpe vive. A garrafa está vazia, mas o bêbado jura que é água. Isso não é só ironia. É a prova de que, no laboratório político de Bissau, a ciência principal continua sendo a alquimia do poder. E enquanto isso o povo segue esperando o dia em que alguém, finalmente, haverá de soprar as cinzas e limpar o balcão.
Guiné-Bissau dos que não são da Guiné-Bissau. Será que este jogo é um experimento para as próximas eleições em Moçambique?
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