O dinheiro como novo evangelho na vida humana

O desejo de dinheiro tem corroído silenciosamente a essência do ser humano, a tal ponto que, para muitos, já não há diferença entre existir e possuir. Vive-se para o lucro. Ama-se para ganhar. Serve-se para subir. A vida já não é um dom, mas um investimento. O outro já não é um irmão, mas um obstáculo ou um degrau. É como se muitos tivessem vindo ao mundo não para ser humanos, mas para ser máquinas de acumular.

Essa obsessão pelo dinheiro travestida de ambição, eficiência ou sucesso tem aprisionado as almas num labirinto sem saída, onde cada conquista material exige uma renúncia espiritual. A moral cede lugar ao oportunismo. A solidariedade é sufocada pela competição. A verdade se torna incómoda quando ameaça os interesses.

Filosoficamente, é a inversão completa da ordem do ser. O dinheiro, que deveria ser meio, tornou-se fim. A ferramenta passou a comandar o artesão. E assim, o homem deixa de ser senhor da criação para se tornar escravo do seu próprio desejo.

Nietzsche dizia que “quem luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um deles”. O dinheiro, quando idolatrado, é esse monstro: silencioso, sedutor, omnipresente. E muitos já se transformaram na imagem desse ídolo, sacrificando valores, afectos, tempo, dignidade e até a própria paz no altar da ganância.

Mas o mais trágico é que, mesmo com os bolsos cheios, há corações vazios. Mesmo com contas recheadas, há vidas falidas de sentido. Porque o dinheiro pode comprar conforto, mas não descanso; pode comprar atenção, mas não amor; pode comprar prestígio, mas jamais respeito verdadeiro.

A pergunta que ecoa, então, é: quanto custa a alma? E a resposta é esta: não tem preço. Justamente por isso, vendê-la por cifrões é o maior desperdício da existência.


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