Quilómetro 15 e a falência moral do Estado

O caso recente de estupro colectivo envolvendo adolescentes na Escola Básica do Quilómetro 15, na periferia de Maputo, causou justa comoção pública. Mas se limitar a esse episódio é correr o risco de ignorar uma realidade mais ampla e estrutural: a violência sexual, quando enraizada na fome, na desigualdade e no abandono, é apenas o sintoma de uma doença social mais profunda. E essa doença tem nome: omissão estatal.

Enquanto jovens de 14 e 15 anos riam, brincavam e tentavam viver o que ainda lhes resta de infância, o cotidiano brutal do país se infiltrava nos corredores da escola. O monstro não chegou de repente – ele foi sendo alimentado, dia após dia, pela precarização da vida, pelo colapso dos serviços públicos e pela indiferença institucionalizada. No mesmo país onde meninas trocam o próprio corpo por um pedaço de pão, o governo ostenta aviões presidenciais e carrega uma “tocha da unidade nacional” por estradas que não levam alimento nem segurança às comunidades.

Não é apenas um problema de segurança pública. É um projecto político fracassado – ou perverso. Crianças não são violadas apenas por agressores individuais, mas também por um sistema que permite (ou mesmo estimula) a normalização da miséria. Quando não há merenda, quando não há professores, quando não há luz eléctrica nas escolas, o crime se apresenta como única forma de poder visível.

A resposta da sociedade costuma ser imediata: punição. E sim, é necessário que os responsáveis pelo crime do Quilómetro 15 sejam identificados e julgados. Mas será suficiente? Quantos outros crimes sexuais acontecem diariamente sem vídeo, sem denúncia, sem escândalo público? Quantas meninas permanecem invisíveis, exploradas nas sombras, vítimas não só de indivíduos, mas da fome e da negligência?

É preciso ir além da punição. É preciso perguntar por que, em pleno século XXI, ainda temos crianças estudando em salas sem tecto, em comunidades onde o Estado só chega em época de campanha ou com solenidades. É preciso denunciar o absurdo de um país que gasta milhões em desfiles e jantares de gala, mas não consegue alimentar suas crianças.

O Quilómetro 15 não é um caso isolado. É a expressão de uma política pública que prioriza o espectáculo à sobrevivência, a propaganda à protecção social. A “unidade nacional” não pode ser construída sobre os escombros da infância, sobre a carne violada de meninas que o Estado insiste em não enxergar.

A jovem do Quilómetro 15 carregará suas cicatrizes. Mas há outras, sem nome, sem rosto, sem justiça. O silêncio que paira sobre essas histórias é tão violento quanto o ato em si. Ou assumimos, como sociedade, a responsabilidade por essa tragédia cotidiana, com políticas concretas que alimentem, protejam e dignifiquem a vida, ou continuaremos a fingir surpresa cada vez que a barbárie bater à nossa porta.

A fome é política. A violência é consequência. E a indiferença é escolha.


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