CANETA E TEMPESTADE:  A vida de um jornalista moçambicano

Em Moçambique ser jornalista é estar numa travessia sempre do perigo. É acordar todos os dias sabendo que a caneta protege mais que um colete à prova de balas.

O jornalista moçambicano vive entre dois fogos. De um lado, o dever de mostrar a vila sem água em Chemba, a escola em condições precárias no interior de Nhamatanda, o hospital sem remédio em Mocuba. Do outro, o medo, porque aqui, verdade tem dono. E quem não é dono, paga. Mesmo o que você não publicou te apontam por medo.

É o repórter que entra no Bairro da Mafalala para filmar o impacto das cheias e sai corrido por jovens armados que não querem câmara. É a jornalista que cobre um protesto em Maputo e leva gás lacrimogéneo na cara. É o correspondente em Cabo Delgado que escreve sobre ataques e dorme com um pé fora da província, porque sabe que na lista ele é o próximo. É o desaparecimento sem explicação.

A Lei de Imprensa protege no papel. Na rua, protege quem tem poder. Processo por difamação vira arma. Um artigo sobre desvio de fundo na autarquia rende intimação, multa e meses de tribunal. Ganha-se a causa, mas perde-se o salário, a paz e às vezes o emprego. A redacção não banca. O jornalista paga sozinho, enquanto o advogado quer pagamento ou a assistência revê sempre as quotas.

Investiga madeireiro chinês com licença falsa? No dia seguinte teu Facebook é clonado. Teu WhatsApp vaza. Te chamam de “vendido”, “agente estrangeiro”, “inimigo do desenvolvimento”. Tua família recebe mensagem: “Manda ele parar”. O ódio ‘online’ em Moçambique mata primeiro a reputação, depois procura o corpo.

Salário de 12 mil meticais para cobrir o país inteiro. Para fazer a matéria sobre fome em Tete, o jornalista tira do próprio bolso o chapa, a comida e o crédito. Se ficar doente cobrindo cólera em Quelimane, o seguro não cobre. Se morrer, a viúva recebe um “lamentamos” no comunicado.

Ninguém prepara o jornalista para fotografar o corpo de uma criança arrastada pelo Limpopo. Ninguém ensina a desligar o choro da mãe que perdeu tudo no ciclone Idai. Ele volta para casa, edita o vídeo, posta. De noite, sonha com os gritos. No outro dia, está na estrada de novo. Chama-se stress pós-traumático. Aqui chamamos de “ser forte”.

O pior risco não é morrer. É se vender. É aceitar o “refresco” do administrador para não publicar a vala comum. É trocar a manchete sobre corrupção por um convite para ser assessor de imprensa com carro e gabinete. Muitos caem, porque 12 mil não paga escola dos filhos.

O jornalista que se cala morre por dentro. Vira despachante de notícias. Lê comunicado no telejornal e sabe que é mentira. Sorri na foto com o governador que ele devia investigar. À noite, não se olha no espelho, talvez disfarça.

Pergunta ao velho Tomás Cumbane, 62 anos, 40 de rádio em Inhambane. Foi preso três vezes no tempo de partido único. Hoje ganha 9 mil. Por que não parou? “Porque se eu não falar daquela parteira que faz parto de lanterna em Funhalouro, quem vai falar? O deputado não pisa lá. Eu piso.”

Continua pela Dona Fátima, que sai de Xai-Xai às 4h da manhã para vender verduras e ainda liga para a rádio comunitária denunciar que a ponte caiu. Ela confia mais no microfone do que na polícia.

Continua porque Moçambique é feito de histórias que só o jornalista conta. A história do pescador de Angoche que perdeu rede no ciclone. A do professor de Niassa que dá aula debaixo da árvore há 10 anos. Se ninguém conta, elas não existem. E se não existem, ninguém resolve.

Uma tia, um camponês, um miúdo que diz “vi na tua reportagem”. Isso vale mais que salário.

Colega que empresta câmara, advogado que defende de graça, editor que segura a onda quando a ameaça chega. Sozinho, morre. Junto, resiste. Dizem “não vai”, ele vai. Dizem “não publica”, ele publica. Depois aguenta as consequências.

Ser jornalista em Moçambique é plantar milho em tempo de seca. Chove pouco, o sol queima. A praga vem de todo lado. Mas quando nasce uma espiga, alimenta a aldeia inteira.

A caneta treme, mas escreve. O microfone falha, mas grava. Porque enquanto houver um jornalista com coragem, nenhum silêncio será eterno.


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