Se existe uma melhor compreensão do impacto do mel não apenas pela doçura, mas pelo que representa desde a polinização a transformação das comunidades envolvidas na sua produção, é ouvindo os mesmos produtores, dando-lhes a voz de descreverem nas suas línguas e/ou gestos. Da floresta a mudança de vidas, o mel deixou de ser simples produto nas comunidades do distrito de Gorongosa, na província de Sofala.
As abelhas são indispensáveis para a vida na Terra, actuando como pilares da biodiversidade, da segurança alimentar e do equilíbrio ecológico. A sua função na polinização sustenta não apenas ecossistemas naturais, mas também a agricultura global, impactando directamente a economia e a subsistência humana. No entanto, as ameaças climáticas exigem acções urgentes de conservação.
Do medo aos resultados surpreendentes e motivadores
A comunicação formalizada ou de apenas papel e/ou telefonema é dinâmica, mas falha ao não ver in loco os envolvidos nas suas terras, seus ambientes diários, sua rotina e desafios. Ou simplesmente ao não vivenciar os momentos. até o que parece simples cara fechada ou sorridente transmite informação. O “Profundus” descortina, deixando os dados estáticos formais, desta vez na comunidade de Nhanguo, vivendo os factos no interior do distrito de Gorongosa, com os apicultores em suas línguas, culturas e residências sobre as abelhas e o seu mel, afinal, o que realmente acontece?
Cada detalhe dos 650 apicultores, sendo 40% mulheres, representa uma etapa decisiva. Cada tarefa carrega uma responsabilidade. E em cada missão, há uma equipa empenhada, envolvendo activamente as comunidades.
Tambula Martinho António é apicultor desde 2018. “Quando integrei na produção de mel, comecei com dez colmeias. Antes de tudo, passei por uma fase de treinamento, criei uma pequena floresta, onde coloquei as minhas colmeias. Fui implementando as boas práticas apícolas”, disse, acrescentando que “na primeira produção, a colheita foi muito baixa porque não tinha experiência”.
O Parque Nacional da Gorongosa fornece os equipamentos necessários para o início da actividade apícola nas comunidades, incluindo fatos de apicultor, colmeias, fumigadores e espanadores, além de assistência técnica.
Depois da assistência técnica, inicia-se o processo de colheita, realizado em duas épocas do ano: entre fevereiro e abril, e entre setembro e novembro. Os apicultores são pagos e o mel é transportado para a fábrica, onde passa pela avaliação de qualidade para verificar se cumpre os padrões exigidos.
De dez, Tambula Martinho aumentou para 20 colmeias, contando com as suas cinco colmeias compradas depois de vender o mel. Nelas “faço limpeza, coloco um recipiente com água para as abelhas realizarem as suas actividades”, disse, prevendo colher 80 quilogramas de mel este ano.
Mais do que a simples produção de mel, a iniciativa contribui também para mitigar o conflito entre o Homem e a Fauna Bravia. Parte do mel é produzida em cercas com colmeias instaladas para proteger os campos agrícolas contra elefantes que escapam dos limites do Parque Nacional da Gorongosa (PNG).
Enquanto afastam os elefantes de forma sustentável, as abelhas também aumentam o rendimento das plantações de café e caju em até 50%.
“Quando me integrei pensei que fosse mais uma brincadeira. Primeiro o medo tomou conta de mim, o medo de ser discriminada por ser uma mulher ao fazer esse tipo de actividade. Fui ao treinamento, voltei, recebi o meu apoio comecei a implementar e comecei a sentir a minha vida mudar”, explicou Nora José, com sorriso no rosto.
O que parecia brincadeira tornou-se numa oportunidade de impacto. “O que eu achava difícil, hoje é algo fácil, provei que as mulheres também podem exercer funções e actividades que os homens também exercem. Hoje consigo ajudar o meu marido com despesas de casa, enquanto a minha produção tem aumentado”, disse Nora José, prevendo 30 kg de mel este ano. Quanto mais quantidade maior serão os ganhos.
O parque compra todo mel produzido pelos beneficiários, garantindo mercado local. Mas antes negocia os preços, leva a balança ao terreno e depois entra na fábrica de processamento. Em seguida, ocorre a extracção, separando-se o mel líquido dos favos. Depois, o produto segue para a decantação, fase em que se controla a humidade do mel, antes do enfrascamento, rotulagem, armazenamento e distribuição ao mercado.
Geraldo Melo praticava apicultura tradicional. “Não era sustentável; havia muitas queimadas descontroladas e abate de árvores para a produção de colmeias. Mas hoje, com as melhores práticas “consigo ter ganhos usando colmeias modernas. Com os ganhos, já tenho uma casa melhorada e pretendo ainda este ano fazer outra ainda maior, e consigo cobrir as despesas escolares das crianças”.
O preço da compra do mel é variável dependendo dos desafios aliados a mudanças climáticas. Desde o ano passado, o PNG compra o mel por 120 meticais em Nhanguo.
Geraldo Melo sugere que haja limite entre a zona de apicultura e comunidade, para “reduzirmos também os riscos de ataques por abelhas na comunidade, então uma área específica só para colocarmos as nossas colmeias distantes das pessoas.
O gestor do Programa de Mel do PNG, Marcos Chova, tenta descrever o antes e depois. “Primeiro, tínhamos histórico de apicultores sem histórico de produção de mel, mas que hoje já têm uma produção. Tivemos apicultores que já produziam, sem as melhores práticas apícolas, e hoje já conhecem e aplicam. Além de mudanças comportamentais de ponto de vista de práticas que eram usadas para a produção de mel, há mudanças de ponto de vista económico, as pessoas já conseguem ter dinheiro vindo da produção de mel”.
“Continuaremos a trabalhar em colaboração com a comunidade, apicultores, líderes comunitários para tornarmos este projecto sólido e fazer com que o mel da Gorongosa seja conhecido, e seja uma marca muito grande no mercado nacional e internacional assim que tivermos o nosso selo orgânico”, disse Marcos Chova.
No primeiro trimestre de 2026, o PNG conseguiu mais de 15 toneladas de mel colhido com o apoio dos produtores. E isso mostrava o quanto as comunidades estão envolvidas e impactadas pela apicultura.
No primeiro trimestre de 2026, o PNG conseguiu mais de 15 toneladas de mel colhido com o apoio dos produtores. E isso mostra o quanto as comunidades estão envolvidas e impactadas pela apicultura, somando cerca de 650 apicultores em Muanza, Gorongosa, Nhamatanda, Marínguè e Cheringoma, excepto Dondo ao nível dos seis distritos considerados Zona de Desenvolvimento Sustentável. (Ana Cleta de Lopes Coimbra e Muamine Benjamim).
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