Em 1986, Moçambique confirmou o seu primeiro caso de HIV, na província de Cabo Delgado. O país emergia de décadas de guerra, o sistema de saúde era frágil e poucos compreendiam a dimensão do que ali chegava.
Em 2026, 40 anos depois, o vírus é conhecido e continua a infectar e a matar, e, o que é mais perturbador, afecta as futuras gerações.
Moçambique continua entre os países mais afectados pela epidemia do HIV a nível global. Dados do Inquérito Nacional de Indicadores de Imunização, Malária e HIV/SIDA (INSIDA 2021), ainda utilizados como principal referência em 2026, indicam que o país ocupa o segundo lugar no mundo em número absoluto de novas infecções por HIV e o terceiro em número total de pessoas vivendo com o vírus.
Cerca de 2,45 milhões de pessoas vivem com o vírus no país. Destas, 155.000 são crianças com menos de 15 anos. Só em 2025, estimam-se mais de 75.000 novas infecções e 38.000 mortes relacionadas ao vírus.
Quase 119.000 mulheres grávidas viviam com HIV no mesmo ano. A província de Gaza lidera os gráficos com uma prevalência de 20,9%, seguida da Zambézia com 17,1%. A Cidade de Maputo aparece em terceiro lugar, com 16,2%, mas quando se olha apenas para as mulheres adultas na capital, essa taxa sobe para 20,2%. Uma em cada cinco mulheres adultas em Maputo vive com o vírus.
A taxa de transmissão vertical de mãe para filho durante a gravidez, o parto ou a amamentação fixou-se em 9,6% no final do período de amamentação em 2025. Isso significa que, num só ano, aproximadamente 11.400 bebés nasceram em risco real de infecção, mesmo existindo tratamento disponível e gratuito nas unidades sanitárias.
Por detrás destes números existem rostos
Esta reportagem foi ao encontro de algumas dessas mulheres, em Maputo, na Matola e arredores, para perceber uma pergunta que não se quer calar: se o tratamento existe e é gratuito, por que as crianças continuam a nascer infectadas em Moçambique? As respostas ouvidas vezes sem conta, não estão nos comprimidos, estão no estigma, no diagnóstico tardio, no medo, na falta de apoio financeiro durante o desmame e, para uma das mães ouvidas, numa realidade mais profunda: a diferença entre descobrir que se tem HIV e aceitar que se tem vírus; entre saber e agir; entre uma primeira filha que nasceu positiva e uma segunda que nasceu negativa porque a mãe cinco anos depois, já tinha aprendido a aceitar a doença.
Sofia, nome fictício vive na Matola. Tem hoje 37 anos. Descobriu que vivia com HIV durante a gravidez, em março de 2012. “Não foi fácil digerir o diagnóstico”, contou. “Era mãe solteira, meu parceiro tinha negado a gravidez e saber que era HIV positivo foi um verdadeiro pesadelo na minha vida.”
Sofia chora ao lembrar-se. Mas a lágrima não a impede de continuar. “Graças à ajuda da minha mãe, consegui aceitar e segui com o tratamento. Na altura, acabavam de implementar o tratamento vertical para mãe e filho.”
O tratamento vertical é o conjunto de medidas que impedem a transmissão do vírus da mãe para o bebé. Quando bem-feito com a mãe a tomar a medicação antirretroviral correctamente e o bebé a receber profilaxia desde o nascimento a taxa de sucesso ultrapassa os 95%.
A especialista em saúde materno-infantil Isabel Covane, que trabalha no Centro de Saúde de Beleluane, no distrito de Boane, explica: “transmissão vertical é a transmissão do HIV de mãe para filho. Pode ocorrer de três formas: na gravidez, no parto e durante a amamentação. A base da prevenção é o tratamento antirretroviral feito pela mãe. Se a mãe faz correctamente, o tratamento torna-se indetectável. O vírus fica adormecido. Não tem capacidade de passar para o bebé.”
Sofia seguiu o protocolo. Durante nove meses, tomou os 30 comprimidos que lhe foram prescritos um por dia, a mesma hora. O bebé nasceu negativo. Mas o verdadeiro pesadelo, diz ela, veio depois.
“Durante a amamentação, aconselharam-me a desmamar aos 6 meses. Aí o pesadelo voltou de novo.” Por que? Porque Sofia não trabalhava. O pai da criança estava ausente. A sua mãe, avó do bebé, tinha poucos recursos financeiros. “Desmamar aos 6 meses foi um pesadelo porque na altura eu não trabalhava e não tinha apoio da parte do pai. Minha mãe, com os poucos recursos que possuía, não tinha esperança de nada, porque tinha de introduzir outros alimentos alternativos.”
“Ninguem ajudou-me com alimentos alternativos. Só Deus é que esteve no comando de tudo, além da avó do bebé” desabafou Sofia.
O dilema que Sofia enfrentou é um dos pontos cegos dos programas de prevenção: entre amamentar e arriscar a transmissão do HIV, ou desmamar e arriscar a desnutrição por falta de recursos para alimentos alternativos, a mãe fica sozinha com uma escolha impossível.
Hoje, o filho de Sofia tem 14 anos. Continua negativo. “Hoje sinto-me guerreira, corajosa e forte. Meu filho é bem e forte. Eu, através da adesão ao tratamento, sou indetectável e sigo seguindo sem medo.”
No final da conversa, sem que lhe tivesse sido perguntado, Sofia deixou um recado para outras mães “A todas as mães que testaram positivo, aconselho a aderir ao tratamento vertical. Não é fácil, mas vale muito a pena. Vamos zelar por uma geração zero HIVs positivo. Ainda existem crianças que testam positivo por conta do abandono ao tratamento vertical e falta de apoio financeiro no desmame.”
“Ele disse que na casa dele não queria quem vive de comprimidos”
Amélia nome fictício também descobriu o HIV aos 6 meses da gravidez. Tinha 26 anos. “Fiquei com medo. A enfermeira que me atendeu aconselhou-me e disse que não devia procurar saber onde apanhei a doença.” Uma orientação, no mínimo, problemática do ponto de vista clínico e ético. Saber como se contraiu o vírus não é curiosidade mórbida; pode ajudar a quebrar cadeias de transmissão e a lidar com o estigma. Mas Amélia não questionou. Voltou para casa. Pensou. “Tenho de fazer tratamento. Pior, pensava no meu bebé.”
Contou a uma amiga. A amiga aconselhou-a a esconder o diagnóstico do parceiro. Amélia recusou. “Ela disse: ‘Não conta nada para ele. Eu disse: É melhor morrer de uma vez do que esconder isso dele’.”
Ela contou. A resposta do parceiro foi imediata e cruel. “Ele só falou que na casa dele não queria ninguém que vive de comprimidos.” Amélia não hesitou: calou e o deixou. Mas a separação não foi imediata. Por dependência económica e medo, permaneceu com ele mais um ano. Teve o bebé ainda nessa relação. O parceiro, talvez por ironia do destino continua negativo, Amélia, não.
Durante a amamentação, surgiu outra dificuldade. O hospital onde era seguida dizia que não se podiam misturar dois tipos de leite. Amélia amamentou exclusivamente durante nove meses três 3 mais do recomendado pelo protocolo, que aponta para 6 meses em mães com HIV e em tratamento. “No hospital não aceitavam juntar dois tipos de leite. Perguntaram-me qual era o leite que eu dava ao meu filho. Eu disse: Do peito. Disseram: Tudo bem, mas é para amamentar durante 6 meses. Eu dei-lhe leite do peito durante 9 meses.”
Amélia quebrou o protocolo. E, ainda assim, o filho cresceu negativo. A sua história poderia ser lida como uma prova de que os 6 meses são uma recomendação conservadora, mas os especialistas alerta o risco real.
Covane explicou um dos motivos de se recomendar o desmame aos 6 meses: “Quando a criança começa a ser bem-vinda, a ter dentes pode morder ao mamar e sair sangue. Aí, o contacto com o sangue aumenta o risco de transmissão. Se a criança já está nas outras refeições junto da família, já não depende muito do leite materno. Não é necessário prolongar”.
O filho de Amélia, hoje com 5 anos, é negativo. Mas o percurso foi solitário. Ninguém a ajudou a manter a medicação. O horário prescrito era às 6h da manhã, mas ela estudava e saía cedo. Muitas vezes tomava os comprimidos às 14h.
Isabel Covane explicou o perigo. “A duração do medicamento é de 24 horas. Passadas 24 horas, se a pessoa não cumpre o horário, o medicamento já não faz tanto efeito. O vírus do HIV tem capacidade de mutação. Se dermos tempo, o vírus acorda. Chega uma fase em que, mesmo fazendo aquela medicação, o medicamento já não vai fazer efeito”.
Amélia sobreviveu a isso. Mas o que mais a magoa hoje não é a doença é o estigma que vê todos os dias nas redes sociais. “Vivo vendo memes sobre pessoas que dormiram com alguém infectado. E desejam paz à alma. Às vezes o coração me dói, fico com raiva. Às vezes rejeito, finjo que não vi nada, [mas] continuo firme.”
O preço de negar o HIV durante a gravidez
Há uma história que nenhuma das outras mães contou. Porque é a mais difícil de confessar. E porque a sua protagonista carrega um peso que os números não detalham. Ela tem duas filhas. A primeira tem 7 anos. A segunda tem 2 anos. A primeira é seropositiva. A segunda, é negativa. A diferença entre as duas não está nos medicamentos disponíveis, estiveram sempre ali, na mesma unidade sanitária. A diferença está dentro dela, a mãe – no tempo de demora a aceitar o que os testes diziam.
Ela descobriu que vivia com HIV já aos 6 meses de gestação. O tempo era curto. Mas ainda era possível fazer o tratamento vertical – tomar a medicação anti-retroviral para tornar o vírus indetectável e impedir que passasse para a bebé. Ela não conseguiu. “Não aceitei o resultado”, conta. “Fui fazer teste noutra clínica. Mas o resultado era o mesmo.”
O diagnóstico caiu como uma sentença, não era só o vírus, era o medo, a vergonha, o que os outros iam dizer, o parceiro, a família, os vizinhos etc. Ela recusou-se a aceitar. E enquanto se recusava, o tempo passava. E o vírus, activo atravessava a barreira placentária. “Levei muito tempo para aceitar a realidade”, disse.
Quando finalmente aceitou, já era tarde. Não havia medicação que revertesse o que já tinha acontecido. Não havia profilaxia que apagasse o vírus que já tinha certeza do organismo. O parto chegou. A primeira filha nasceu com HIV.
Cinco anos depois a mesma mãe, a mesma doença e um resultado diferente. Esses anos separam a primeira filha da segunda. Meia década em que aquela mãe viveu com o vírus, aprendeu a tomar a medicação, viu o próprio corpo a responder ao tratamento. Cinco anos em que a negação deu lugar à aceitação porque não havia outro caminho.
Quando engravidou pela segunda vez, já não havia dúvidas. A medicação era tomada a horas. As consultas de pré-natal eram cumpridas. O tratamento vertical foi feito correctamente, do início ao fim. A segunda filha nasceu negativa.
“Culpo-me até hoje”, disse. A frase não é sobre a segunda gravidez que correu bem. A culpa é sobre a primeira. Sobre o tempo perdido. Sobre a filha que hoje vive com o vírus que podia ter sido impedido se a mãe tivesse aceitasse cedo. “Foi negligência minha”, assume.
Isabel Covane confirma que o abandono ou a recusa ao tratamento aumenta a possibilidade de transmissão. “Se a mãe não está a fazer a medicação, o vírus está activo. Naturalmente, tem grande chance de passar para o bebé.”
A diferença entre a primeira e a segunda filha não foi a sorte. Foi a aceitação. E a aceitação, em Moçambique, continua a ser uma responsabilidade exclusiva da mãe não dos hospitais que têm o papel de acompanhar.
Alda Meque não esconde o arrependimento. “Culpo-me até hoje”, repete. E depois acrescenta, como quem quer que aquilo sirva para alguém o tratamento funciona. Mas funciona se começar a tempo. E começa a tempo se a mãe aceitar o diagnóstico antes de ser tarde.
A primeira filha, a de 7 anos, vive com HIV. Está em tratamento. A segunda filha, de 2 anos, é negativa e saudável. A mesma mãe. O mesmo vírus. Dois destinos diferentes. A única coisa que mudou entre uma gravidez e outra foi o tempo que ela demorou a dizer “Eu tenho HIV. E vou viver com isso.”
Situação Nacional de HIV
Os dados do Conselho Nacional de Combate ao Sida (CNCS) para 2025 mostram que 90% das pessoas com HIV em Moçambique conhecem o seu estado serológico. Desses, 84% estão em tratamento anti-retroviral. E desses em tratamento, apenas 77% atingiram a supressão da carga viral.
Cada um destes números é uma perda. Cada percentagem é uma mãe que não iniciou o tratamento a tempo, um bebé amamentado sem profilaxia, uma criança que nasceu com um vírus que poderia ter sido impedido.
Desde 2011, a Fundação Ariel testou mais de 2,8 milhões de mulheres grávidas e lactantes. Mais de 88 mil mulheres grávidas e lactantes iniciaram tratamento antirretroviral com o apoio da organização. Mas o gap mantém-se a taxa de transmissão vertical de 9,6% está longe da meta internacional de eliminação, fixada em menos de 5%.
O que falta? Isabel Covane responde: “Falta informação? Não acredito. O HIV é falado em todo lado. As crianças pequenas já sabem o que é. O problema é outro: há pessoas que ainda não acreditam que o HIV pode passar para uma criança. Dizem Não é doença de criança. Porque as formas mais conhecidas de transmissão são as relações sexuais. Para a criança, como não teve contacto sexual, acham que não há risco.” E acrescenta: “A pessoa vive muito tempo sem apresentar sintomas visíveis. Só acredita que está doente quando a coisa já está feia. Aí já pode ser tarde.”
Sofia conseguiu. Amélia conseguiu. Alda Meque, mãe das duas filhas conseguiu na segunda vez. Mas a primeira filha dessa mesma mãe paga hoje o preço de uma aceitação que chegou tarde porque não houve quem a ajudasse a dizer “sim” mais cedo.
Um “sim cedo” e medicação após vários testes mudam o destino da futura geração e tira a culpa de quem uma vez descuidou-se e carregou doença para toda a vida. (Rafael Tovela).
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