Chemba regista dois mortos e oito detidos por boatos sobre “encolhimento” genital

O Comando Distrital da Polícia da República de Moçambique (PRM), em Chemba confirmou ontem, sexta-feira, a detenção de oito indivíduos acusados de espalhar desinformação sobre o suposto “atrofiamento dos órgãos genitais masculinos”. O boato já provocou duas mortes por agressão física no distrito.

Em entrevista exclusiva, o comandante distrital da PRM em Chemba, Filipe Majete Miquicene, explicou que está a prender pessoas que incitam violência no seio da comunidade. “Não existe encolhimento dos órgãos genitais. A equipa médica do distrito já confirmou que se trata de um boato”.

Segundo o comandante, o distrito vive um clima de agitação social devido ao pânico colectivo. “Para desencorajar esta violência, estamos a deter quem espalha essa desinformação”, acrescentou.

Os oito detidos já estão a ser ouvidos pela justiça e vão seguir os trâmites legais.

A PRM faz lembrar que acusar alguém sem provas e fazer justiça com as mãos constituem crimes.

Miquicene apela aos residentes de Chemba para que não entrem em actos criminosos. “Quem se sentir mal deve ir ao Hospital Distrital. Não acreditem em boatos”, exortou.

O comandante dirigiu-se ainda aos pais e encarregados de educação: “Controlem as crianças. Temos meninos de 8 a 10 anos a acompanhar esta agitação e a replicar a violência”.

A polícia garante que vai continuar a trabalhar para manter a ordem e tranquilidade públicas no distrito de Chemba. (Rosário Phoinde)

SENSAP alerta sobre o perigo de revenda de combustível pelas botijas em Dondo

Continua a procura pelo combustível. Os bidões passaram a ser “tanques” de armazenamento para fácil deslocação a locais estratégicos e vende com preços que cada revendedor dita ao seu prazer (venda informal). Uma prática antiga em tempos oportunos, mas que as autoridades de Dondo continuam a chamar a atenção.

Quando o que é legal torna-se quase impossível, o ilegal ganha terreno. Não é diferente com combustível no posto administrativo de Mafambisse, em Dondo pela Estrada Nacional Número Seis (EN6).

A procura deste líquido deixa os proprietários das motorizadas, das viaturas, taxistas de motorizado vulgo “txopelistas” e passageiros desesperados.

Só na EN6 em Mafambisse, existem cerca de oito pontos a beira da estrada, onde o produto é comercializado em recipientes de 0,5, 1,5 e 2 litros. Os preços variavam de entre 70 e 250 meticais por litro, valores significativamente superiores aos praticados nos postos formais a litro por 83,57 e agora 93,69 meticais.

Entretanto, o armazenamento inadequado e a ausência de controlo de qualidade aumentam os riscos de incêndios, explosões e possível adulteração do combustível, podendo causar danos às motorizadas e viaturas.

Apesar de responder às necessidades imediatas dos consumidores, a proliferação do mercado informal levanta sérias preocupações de segurança.

“É muito perigoso utilizar recipientes plásticos, principalmente de refrigerantes ou de água para tentar conservar a gasolina ou gasóleo. Opte sempre em utilizar recipientes devidamente certificados para conservação de preferência metálicos”, apelou o comandante distrital do Serviço Nacional de Salvação Pública (SENSAP), Chapanse Paulino, em Dondo.

“Nos recipientes plásticos através da corrente estática, existe risco na explosão da corrente nos movimentos do combustível”.

Lembre-se do jovem Dino Jhone. De 24 anos, está agora com gesso, depois de uma explosão que o deixou em estado debilitado, na noite da semana passada. A vítima, operador de moto-táxi, sofreu queimaduras dentro da sua residência, na zona de TZR no bairro de Mafarinha, em Dondo.

Na altura, estando sozinho em casa, o jovem, na tentativa de acender fogo para preparar o jantar, levou uma vela à procura de plásticos. Por descuido, aproximou-se do combustível numa botija, e imediatamente a residência pegou fogo. Dino Jhone conseguiu arrastar-se para fora de casa em busca de ajuda.

“Esqueci, eu sabia que tinha combustível. Ao inclinar com a vela para ver plástico, logo explodiu o combustível”, contou Dino Jhone, que o combustível se encontrava debaixo de estante. (Narcísio Cantanha).

Com Air Gorongosa, “diga-nos para onde quer voar, trataremos do resto”

Toda a viagem tem um começo. Algumas começam onde termina a estrada. Do litoral às áreas de conservação, a Air Gorongosa liga Moçambique por via área – com confiança, cuidado e experiência. Voos operados a título privado em todo Moçambique, com serviços regulares em rotas seleccionadas.

A companhia aérea Safari Air adoptou a marca Air Gorongosa. A empresa moçambicana mudou, assim, de nome e passou a operar sob a designação Air Gorongosa, numa alteração de marca associada à parceria com o Parque Nacional da Gorongosa e a Gorongosa Safaris.

Air Gorongosa não é simples marca bonita na leitura, é mais o que as letras juntas podem descrever. É apoio à conservação, investigação, carga, evacuação e outras operações de missão crítica.

Algumas viagens levam a destinos familiares, outras levam para além do mapa, seja para um lodge de luxo, um local remoto de investigação ou operação, ou um canto escondido do País, a Air leva-te até lá com segurança, eficiência e conforto.

“A Air Gorongosa é mais do que aviação. Trata-se de facilitar o acesso, desbloquear oportunidades e apoiar o crescimento a longo prazo de Moçambique”, afirmou o CEO da Air Gorongosa, David Svendsen, em comunicado, a que o “Profundus” teve acesso.

Os serviços da Air Gorongosa incluem evacuações médicas aéreas e terrestres 24h todos os dias com coordenação total e equipamentos médicos; rapidez na autorização de sobrevoo e aterragem, tratados no seu nome; soluções personalizadas para carga, evacuações, recolocação de animais selvagens ou missões operacionais; coordenação prévia do abastecimento de combustível em locais estratégicos de Moçambique com fornecedores de confiança: gestão de aeronaves e tripulação, acompanhamento da manutenção, planeamento de voo e apoio operacional; levantamentos aéreos de precisão para conservação, mapeamento geofísico e monitorização operacional.

O melhor de tudo: pilotos moçambicanos experientes e com profundo conhecimento da região; aeronaves modernas especificamente para o terreno africano; operações sediadas em Maputo, Beira e Pemba (Sul, Centro e Norte); operações privadas com rigorosos padrões de segurança e manutenção; e confiança de lodges, equipas de conservação e parceiros corporativos.

A Air Gorongosa é uma escolha de equipas de conservação, ONG e parceiros do sector para chegar a locais remotos de forma segura e eficiente, operada de acordo com os mais elevados padrões de segurança e manutenção.

 

CANETA E TEMPESTADE:  A vida de um jornalista moçambicano

Em Moçambique ser jornalista é estar numa travessia sempre do perigo. É acordar todos os dias sabendo que a caneta protege mais que um colete à prova de balas.

O jornalista moçambicano vive entre dois fogos. De um lado, o dever de mostrar a vila sem água em Chemba, a escola em condições precárias no interior de Nhamatanda, o hospital sem remédio em Mocuba. Do outro, o medo, porque aqui, verdade tem dono. E quem não é dono, paga. Mesmo o que você não publicou te apontam por medo.

É o repórter que entra no Bairro da Mafalala para filmar o impacto das cheias e sai corrido por jovens armados que não querem câmara. É a jornalista que cobre um protesto em Maputo e leva gás lacrimogéneo na cara. É o correspondente em Cabo Delgado que escreve sobre ataques e dorme com um pé fora da província, porque sabe que na lista ele é o próximo. É o desaparecimento sem explicação.

A Lei de Imprensa protege no papel. Na rua, protege quem tem poder. Processo por difamação vira arma. Um artigo sobre desvio de fundo na autarquia rende intimação, multa e meses de tribunal. Ganha-se a causa, mas perde-se o salário, a paz e às vezes o emprego. A redacção não banca. O jornalista paga sozinho, enquanto o advogado quer pagamento ou a assistência revê sempre as quotas.

Investiga madeireiro chinês com licença falsa? No dia seguinte teu Facebook é clonado. Teu WhatsApp vaza. Te chamam de “vendido”, “agente estrangeiro”, “inimigo do desenvolvimento”. Tua família recebe mensagem: “Manda ele parar”. O ódio ‘online’ em Moçambique mata primeiro a reputação, depois procura o corpo.

Salário de 12 mil meticais para cobrir o país inteiro. Para fazer a matéria sobre fome em Tete, o jornalista tira do próprio bolso o chapa, a comida e o crédito. Se ficar doente cobrindo cólera em Quelimane, o seguro não cobre. Se morrer, a viúva recebe um “lamentamos” no comunicado.

Ninguém prepara o jornalista para fotografar o corpo de uma criança arrastada pelo Limpopo. Ninguém ensina a desligar o choro da mãe que perdeu tudo no ciclone Idai. Ele volta para casa, edita o vídeo, posta. De noite, sonha com os gritos. No outro dia, está na estrada de novo. Chama-se stress pós-traumático. Aqui chamamos de “ser forte”.

O pior risco não é morrer. É se vender. É aceitar o “refresco” do administrador para não publicar a vala comum. É trocar a manchete sobre corrupção por um convite para ser assessor de imprensa com carro e gabinete. Muitos caem, porque 12 mil não paga escola dos filhos.

O jornalista que se cala morre por dentro. Vira despachante de notícias. Lê comunicado no telejornal e sabe que é mentira. Sorri na foto com o governador que ele devia investigar. À noite, não se olha no espelho, talvez disfarça.

Pergunta ao velho Tomás Cumbane, 62 anos, 40 de rádio em Inhambane. Foi preso três vezes no tempo de partido único. Hoje ganha 9 mil. Por que não parou? “Porque se eu não falar daquela parteira que faz parto de lanterna em Funhalouro, quem vai falar? O deputado não pisa lá. Eu piso.”

Continua pela Dona Fátima, que sai de Xai-Xai às 4h da manhã para vender verduras e ainda liga para a rádio comunitária denunciar que a ponte caiu. Ela confia mais no microfone do que na polícia.

Continua porque Moçambique é feito de histórias que só o jornalista conta. A história do pescador de Angoche que perdeu rede no ciclone. A do professor de Niassa que dá aula debaixo da árvore há 10 anos. Se ninguém conta, elas não existem. E se não existem, ninguém resolve.

Uma tia, um camponês, um miúdo que diz “vi na tua reportagem”. Isso vale mais que salário.

Colega que empresta câmara, advogado que defende de graça, editor que segura a onda quando a ameaça chega. Sozinho, morre. Junto, resiste. Dizem “não vai”, ele vai. Dizem “não publica”, ele publica. Depois aguenta as consequências.

Ser jornalista em Moçambique é plantar milho em tempo de seca. Chove pouco, o sol queima. A praga vem de todo lado. Mas quando nasce uma espiga, alimenta a aldeia inteira.

A caneta treme, mas escreve. O microfone falha, mas grava. Porque enquanto houver um jornalista com coragem, nenhum silêncio será eterno.

Jovem pai de dois menores “enforcou-se”, conclui SERNIC em Dondo

Um jovem de 29 anos, enforcou-se na sua residência no bairro Samora Machel próximo ao campo da balança, distrito do Dondo, província de Sofala. A conclusão é do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), apontando problemas sociais como um dos motivos que podem ter originado o enforcamento.

O SERNIC, através do director distrital, Vicente Albino Mpfumo, em Dondo, repudiou este tipo de prática, apelando à comunidade para procurar resolver os seus problemas por vias seguras e adequadas.

A vítima é pai de duas crianças menores de 6 anos, que na passada sexta-feira, enquanto as nações celebravam o 1.º de Maio, Dia dos Trabalhadores, foi encontrado de manhã, sem vida, amarrado no pescoço através de um tecido, pendurado no barrote dentro do seu quarto.

Um dia antes, depois do jantar, o homem decidiu dormir sozinho noutro quarto.

A vítima como era de costume acordava cedo para o trabalho, levando os seus pertences. Mas naquele dia, a esposa achou estranho, ao acordar e encontrar chinelos e pasta do marido, na porta. Passou a procurar por ele na residência, e para a sua surpresa, o encontrou pendurado.

“Não sei de nada, disse-me que estou a ir dormir. Quando acordei de manhã abri a porta, vi chinelos e mochila dele, comecei a lhe procurar. Fui ao outro quarto, encontrei-o pendurado”, contou a esposa Rosalinda Fernando, acrescentando que antes não havia espaço para briga, muito menos carta que explica os motivos.

O inspector principal do Serviço de Salvação Pública (SENSAP) em Dondo, Armindo Jonasse, referiu que a instituição tomou conhecimento via telefónica da existência de um corpo sem vida.

Uma equipa multissectorial composta por agentes da Saúde, Polícia da República de Moçambique (PRM), SENSAP e SERNIC fez-se ao local.

“Removemos o corpo numa zona de difícil acesso. Encontrava-se pendurado e [era preciso] deixar num local de fácil acesso”, explicou o inspector principal dos Serviços de Salvação Pública, apelando que “tudo tem solução, não existem razões para tirar a vida”.

As autoridades continuam a reforçar o apelo à população para a procura de apoio e diálogo diante das dificuldades diárias. (Narcísio Cantanha).

FAMÍLIA MODELO VICTOR: Educação alimentar melhora nutrição de menores na comunidade de Mucodza

A mudança de comportamento da família Victor começou com o Programa Desenvolvimento Sustentável de Meios de Subsistência sobre as Comunidades da Zona Tampão da Gorongosa (SLDP), em inglês, Sustanaible Livelihoods Development Program (SLDP), a partir de 2022, quando passou a ser beneficiária, através de várias actividades integradas cujo foco é tornar as comunidades capazes de terem meios sustentáveis de vida. É família modelo quando adopta melhores práticas que podem servir de exemplos para outras pessoas, encontrando soluções locais para várias preocupações, na comunidade de Mucodza, interior do distrito de Gorongosa.

Paulo Victor pratica a agricultura de subsistência desde a sua infância. “Quase aquilo era despejar semente pela forma de semear: quatro a cinco sementes numa cova de milho, sem cumprir a distância entre plantas, prejudicando a produtividade”.

A família Victor tratava a desnutrição como uma doença que dependia de actos tradicionais. Afinal, não sabia que com base nos seus produtos agrícolas é possível combater a desnutrição que os seus filhos enfrentavam.

Com a aprendizagem no Programa, a família Victor passou a semear numa distância de 50 centímetros entre plantas e linhas, e duas sementes numa cova (milho), projectando-lhe uma produtividade, mas as mudanças climáticas afectam negativamente. Mesmo assim, consegue alimentar-se pelo que produz.

Por exemplo, em 2025, a família conseguiu produzir numa área de dois hectares, 49 sacos de 50 kgs de milho, suficiente ao consumo familiar durante quase um ano, garantir sementes, além de vender e ter dinheiro para outras necessidades.

A família Victor também faz parte de diferentes grupos de poupança em Mucodza –uma estratégia para garantir sobrevivência em momentos de crise.

Ainda em 2025, na horticultura, a família produziu tomate (19 mil meticais) e cebola (97 mil meticais), e ganhou 116 mil meticais pelas terras férteis do rio Mucodza. E conseguiu pagar a dívida ao grupo de poupança.

Na comunidade de Mucodza, no interior do distrito de Gorongosa, Paulo Victor é muito conhecido pela aprendizagem nos programas do PNG, passando as suas experiências a outras pessoas que enfrentam problemas semelhantes.

Antes de aprender as técnicas de processamento e secagem caseira de produtos agrícolas, “perdíamos grandes quantidades”. Afinal, é simples, o caso de tomate que não demora de apodrecer: “é só recolher o maduro, cortar, tirar a semente para usar na próxima época de produção; o resto pilar, deixar a secar no sol e conservar bem. E usar normalmente no caril” em tempos em que o tomate quase não existe.

A aprendizagem em saúde ajudou a família a planificar melhor, por exemplo, quantos e quando pretende fazer filhos, evitando a má prática rural de ter filhos anualmente, o que não é bom porque contribui negativamente para a criança e a mãe, além de que a comida pode não bastar em momentos de insegurança alimentar.

Por exemplo, antes, as crianças comiam no mesmo prato, competindo entre elas, mas praticamente, José – mais velho comia mais que a menor Ana. Com as actividades integradas do Programa, a família conseguiu produzir alimentos suficientes, resultando em cada filho e respectivo prato de comida bastante.

Ainda com agricultura, os dois filhos menores do casal, Victor, José e Ana, já estão recuperados da desnutrição.

Victor passa a experiência. A receita contra a desnutrição é simples: “fazemos papa enriquecida – uma mistura de farinha de milho, folha de abóbora ou moringa, um pouco de óleo, açúcar e um ovo de galinha”. É só dar à criança durante três meses. Foi assim, que o casal aplicou, primeiro, para o filho José, depois para a mais pequena, Ana, ambos já melhorados da desnutrição.

Hoje, Victor não apenas consome aquelas papas por gosto, mas também incentiva a comunidade.

“Num domingo, quando fui à igreja noutra comunidade, instrui alguém para passar a receita a uma mãe na casa dela cuja filha enfrenta a desnutrição”. Afinal, as soluções desta natureza já não dependem de mãe-modelos nas comunidades, mesmo os que já aplicam partilham as experiências. (Luísa Franque e Muamine Benjamim).

Gasolina passa de 83,57 para 93,69 e gasóleo de 79,88 já custa 116,25 meticais

A Autoridade Reguladora de Energia (ARENE) comunicou ontem, quarta-feira a actualização dos preços de produtos petrolíferos regulados a vigorar de hoje, quinta-feira, nos termos da legislação aplicável e observância dos mecanismos de ajustamento periódico de preços. A gasolina já custa 93,69 saindo dos 83,57 praticados anteriormente, enquanto o gasóleo saiu de 79,88 para 116,25 meticais, mas estes preços determinados variam no território nacional onde existem postos de abastecimento mediante a aplicação do diferencial de transporte correspondente às especificidades logísticas e operacionais de cada localidade.


Os novos preços referem-se à venda ao público nos postos de abastecimento situados nas circunscrições territoriais com terminais de distribuição de Maputo – Matola (Maputo Cidade), Beira (Sofala), Nacala (Nampula) e Pemba (Cabo Delgado).


A ARENE fundamente que o mercado internacional de energia continua a registar elevados níveis de volatilidade, fortemente influenciados pela intensificação do conflito no Médio Oriente, cujos efeitos têm impacto significativamente a segurança do transporte marítimo internacional de petróleo, particularmente no Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde se transita cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente.
As perturbações nas cadeias logísticas globais associadas aos danos em infra-estruturas energéticas estratégicas resultam no aumento substancial dos custos de transporte marítimo, prémios de seguro e factores de risco associados ao abastecimento enérgico internacional. Como consequência, verificou-se uma acentuada pressão sobre os preços internacionais dos combustíveis, com o Crude Brent a ultrapassar os 100 USD por barril.
Enquanto País importador líquido de produtos petrolíferos, Moçambique tem sido directamente afectado por estes choques externos. Esta situação é agravada pela dependência de importações provenientes de mercados internacionais fortemente expostos às actuais tensões geopolíticas, bem como pelas limitações de disponibilidade de divisas no mercado nacional, factores que exercem pressão adicional sobre os custos de importação e sobre a taxa de câmbio.
Para os demais pontos do território nacional onde existem postos de abastecimento, os preços de venda ao público foram determinados mediante a aplicação do diferencial de transporte correspondente às especificidades logísticas e operacionais de cada localidade. (Muamine Benjamim).

Gorongosa: Exportadas 41 toneladas de café em 2025 para mercados internacionais

Em 2025, os agricultores colheram 436.000 kg de cereja vermelha (café), produzindo 41 toneladas de grão verde de exportação vendidas internacionalmente, além de mais de 11 toneladas de café torrado localmente. São dados que constam no mais recente relatório do Parque Nacional da Gorongosa (PNG) “Destaques de 2025”.

O café continua a ser uma das iniciativas agroflorestais mais ambiciosas da Gorongosa. Desde o seu lançamento em 2014, com menos de 30 hectares, o programa expandiu-se para 484 hectares de café em crescimento activo, geridos por 1.623 produtores (570 mulheres, 1.053 homens).

Em 2025, os agricultores colheram 436.000 kg de cereja vermelha (café), produzindo 41 toneladas de grão verde de exportação vendidas internacionalmente, além de mais de 11 toneladas de café torrado localmente, sob a marca Produtos da Gorongosa.

O programa reabilitou ainda 23 viveiros e germinou mais de dois milhões de mudas, preparando o terreno para plantar mais 300 hectares durante a época chuvosa de 2025 – 2026. Até 2028, o programa pretende atingir 567 hectares em produção, combinando restauração.

O café da Gorongosa é exportado para os mercados como Áustria, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos da América, além do consumo nacional.

Ainda em 2025, o Parque Nacional da Gorongosa através do seu parceiro doador Reino dos Países Baixos, em coordenação com o Governo do distrito de Gorongosa, inaugurou uma fábrica de processamento de café, na vila de Gorongosa.

A unidade fabril faz subir de 50 para potenciais 1000 toneladas de café processado por ano, além de garantir oportunidades para as comunidades.

A iniciativa visa fortalecer a cadeia de valor do café, impulsionar os rendimentos dos pequenos agricultores e aprimorar a segurança alimentar. Além disso, contribuirá para os esforços de restauração da montanha Gorongosa.

 

Impacto comunitário

“Comecei a produzir o café como voluntária no Parque Nacional da Gorongosa, na altura sem remuneração. Cheguei a pensar em desistir”, revelou a produtora Fatiança Paulino, desconfiando se daria certo a produção.

Hoje, Fatiança Paulino apresenta surpresas. “Consegui formar a filha, construir uma casa melhorada, comprar motorizada e muitos bens”.

A plantação e produção de café é vista como uma actividade alternativa para as famílias evitarem a agricultura itinerante.

“Quando apostei na produção do café, a vida começou a melhorar. Já consegui dinheiro, o que antes era impossível”. Começou a viver momentos de “milagres” na sua vida: “consegue investir nos estudos dos filhos, e investir na formação no curso de saúde da minha filha, além de outros bens e casa melhorada que já conseguiu construir”, revelou o produtor, Manuel Manejo Machessa.

O produtor projecta-se a empresário de sucesso este ano, além de pretender alcançar 14 hectares, saindo dos mais de 8 hectares de 2025.

Isabel Verniz tenta resumir o Projecto de Restauração da Gorongosa, sendo produtora do café. “Também, estão a me ensinar a usar as técnicas de produção, além da ajuda com fertilizantes, há 7 anos. “Quando comecei a apostar na produção de café, a minha vida começou a melhorar. Já tenho uma casa melhorada, filha formada, corrente eléctrica na residência, motorizada, plasma e mobília na minha casa”.

Entre o manto verde que cobre a famosa Serra da Gorongosa está o café. Não são simples folhas, plantas e sementes, mas a esperança de mudança de vida e a união de um povo que tanto viveu de ódio (colonialismo e guerra civil). Hoje, as famílias projectam-se, graças também ao impacto desta produção motivada pelo Parque Nacional da Gorongosa. (Muamine Benjamim).

 

Entre a Justiça do Homem e o Destino em Moçambique

Viver em Moçambique é aprender a respirar com medo e a sonhar com cautela. Aqui, a vida do povo é uma equação onde a fome é constante, a esperança é variável, e a justiça é a incógnita que nunca se resolve. Somos um povo treinado para sobreviver ao improvável. Sobrevivemos à guerra, à seca, à cheia, à corrupção. Mas há uma guerra que não acaba: a guerra contra o cidadão.

A justiça nacional: a balança que pesa só para um lado.

A justiça em Moçambique veste toga, mas anda descalça. Tem olhos vedados, mas só para não ver o pobre. Tem balança, mas o peso do dinheiro e do poder sempre inclina o prato.

Aqui é mais fácil prender um homem por roubar uma galinha do que julgar quem roubou o celeiro da nação. O fundamento para deter é o bolso vazio. O fundamento para soltar é o bolso cheio. A lei é letra morta no papel e bala viva na rua.

O tribunal do povo não fica no Palácio da Justiça. Fica na esquadra, no beco, de madrugada. A sentença vem antes do processo. A execução vem antes da prova. Morre-se por suspeita. Vive-se por sorte e peso de quem é conhecido.

A perseguição dos “Inimigos”: Quando pensar é crime

Em Moçambique, o maior inimigo do Estado não é quem pega em armas. É quem pega na consciência.

Ser “inimigo” aqui não exige traição. Basta ter opinião. Basta perguntar “porquê”. Basta não bater palmas. O sistema não persegue só corpos, persegue ideias, silencia vozes antes que virem ecos e apaga nomes antes que se tornem símbolos.

Criou-se a cultura do sussurro. Fala-se de política em voz baixa, como quem confessa pecado. Porque numa terra onde a verdade é subversiva, o silêncio vira instinto de sobrevivência.

O Povo: Teologia da Resistência

E ainda assim, o moçambicano não morre.

Podem deter o corpo sem fundamento, mas não detêm o destino que já foi escrito. Podem matar o homem, mas não matam a fome de justiça que ele deixou nos filhos. Podem enterrar a carne, mas não enterram a ideia.

O povo aprendeu uma teologia dura: Deus não nos prometeu justiça dos homens. Prometeu-nos justiça Dele. E a Dele não atrasa, não se corrompe, não se compra. A morte pelas mãos dos homens é uma interrupção. A morte pelas mãos de Deus é cumprimento. Por isso continuamos. Vendemos na rua com medo da rusga. Falamos baixo com medo da escuta. Enterramos os nossos com revolta contida. Mas acordamos. Porque quem tem destino não morre no desvio.

Moçambique não é dos que mandam. Moçambique é dos que aguentam. Dos que, mesmo sem fundamento legal para viver em paz, encontram fundamento divino para não desistir.

A injustiça humana é rápida. O destino divino é eterno.

Um dia a balança vai pesar certo. Mesmo que não seja nesta terra.

Quando a oportunidade de negócio informal de combustível se torna uma ameaça fatal

A escassez periódica de combustível é uma realidade estrutural Moçambique, particularmente nos períodos de volatilidade dos preços internacionais, perturbações logísticas nas cadeias de abastecimento globais ou crises políticas e económicas como o conflito entre Estados Unidos da América e Irão pelo estreito Ormuz.

Em Moçambique, a dependência de importações, instabilidade cambial e redes de distribuição frágeis torna os episódios de escassez de combustível frequentes e prolongados.

No País, o perfil de risco é agravado pela elevada densidade habitacional em bairros com construção de materiais inflamáveis (madeira, palhota, chapa), a ausência generalizada de sistemas de detecção de incêndio e a normalização cultural de práticas de risco que tornam o comportamento inseguro a norma comunitária e não a excepção.

Como de quem se faz de esperto por algo que não produz, os moçambicanos já recorrem ao armazenamento doméstico de combustível em recipientes impróprios, sifão manual com a boca e proliferação de venda informal em condições sem qualquer controlo de segurança.

A experiência demonstra que estes comportamentos, embora racionais do ponto de vista económico imediato, têm custos humanos gravíssimos.

No distrito de Nhamatanda, província de Sofala, por exemplo, inicialmente pela escassez do líquido, nos postos de abastecimento, dezenas de motociclos, viaturas e pessoas a pé aglomeravam-se para a compra do combustível. Actualmente, passou para a fase de revendedores informais com o mesmo cenário de aglomeração. Mas o que ninguém possivelmente imagina é estarem a criar condições para uma tragédia de proporções potencialmente devastadoras. Afinal, o risco de ficar sem combustível é percebido como certo e imediato, enquanto o risco de incêndio, explosão ou intoxicação é percebido como remoto, improvável, ou coisa que acontece com os outros. Todavia, há como evitar.

O Decreto nº 89/2019, de 18 de Novembro aprova o Regulamento sobre os Produtos Petrolíferos) revogando o Decreto n.º 45/2012, de 28 de Dezembro.

O Decreto, no seu artigo 25, expõe: 1. a armazenagem de produtos petrolíferos é apenas permitida numa instalação petrolífera apropriada e em conformidade com o estabelecido no presente regulamento; 2. as instalações de armazenagem de produtos petrolíferos, devem obedecer às normas técnicas aplicáveis e regulamentos de segurança em vigor; 3. a entrega de produtos petrolíferos a uma instalação petrolífera deve ser permitida apenas se: a) Tiver sido efectuado um registo para a exploração da instalação, nos termos do presente regulamento; b) A entidade que efectua a entrega inscrever o número de registo da instalação respectiva num suporte permanente e a mantenha.

O número 3 do artigo 61 (fixação de formação de preços) aponta que a temperatura de referência para a comercialização de qualquer produto petrolífero, por unidade por unidade de volume do líquido respectivo, deve ser de 20ºC. Mas neste tempo de escassez, nem o comprador e muito menos o revendedor está preocupado na temperatura, aliás, a realidade de Nhamatanda tem sido de combustível vendido no sol pelas estradas, por um lado para maior visibilidade do produto por outro lado por negligência das regras.

Nhamatanda chegou a registar preços de 300 meticais por litro de gasolina, o que antes custava no bolso do cidadão 83 e alguns centavos.

A lei existe, o conhecimento existe, uma vez que o problema existe, apenas falta o elo fazendo entender o risco acessível (comunicação) alternativas práticas, e a convicção colectiva de que sobreviver não é sorte é escolha, neste contexto.

Os revendedores que deveriam ser fiscalizados, alguns deles são orientados nas esquinas por chefes que deveriam fazer o contrário – a intenção é o dinheiro.

Os revendedores deveriam restringir o acesso à área de abastecimento, deixando apenas o veículo em abastecimento e o operador. Mas realidade é outra, em Nhamatanda, por exemplo, onde vendem combustível, você não duvida, há aglomeração.

Não é aconselhável usar garrafas plásticas, bidões alimentares ou recipientes não homologados para combustível. Opte exclusivamente por bidões metálicos certificados, mas a realidade aponta total desorientação.

Desligue o motor, guarde o telemóvel e não fume antes e durante o abastecimento. Em ambientes com vapores de combustível, qualquer faísca pode ser fatal.

Não se aglomere nos postos, aguarde a sua vez à distância segura, sem criar obstáculos à evacuação.

Limite o armazenamento doméstico ao estritamente necessário, em local ventilado e afastado de fontes de calor, nunca dentro do quarto ou cozinha ou onde sempre as crianças têm acesso. Na última terça-feira, um jovem de 24 anos quase perdia a vida dentro da sua residência em Dondo, quando por descuido aproximou-se do combustível num bidão. Outro caso aconteceu em Tete matando um casal.

Em Tete, o marido, que vendia combustível informalmente, aproximou-se ao fogão com um recipiente de gasolina enquanto a esposa cozinhava, gerando uma explosão imediata.

O casal não resistiu à gravidade das queimaduras, mas um dos filhos sobreviveu ao incidente com apenas ferimentos leves.

Nunca faça sifão com a boca, use bomba manual. A aspiração de hidrocarbonetos causa pneumonite química com risco de morte.

Como consumidores, há um teste prático por fazer nos postos de abastecimento de combustível.

Leve dois bidões de cinco litros e peça 10 litros de combustível a dividir nos dois recipientes. Vai entender que possivelmente o litro das máquinas e do bidão são diferentes, apesar do mesmo nome no posto de combustível. A viciação e o regulador estão ali.

Em Manica, vigora a proibição de venda irregular de combustíveis em recipientes (galões). (Muamine Benjamim).

 

 

 

Jornal Profundus

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