O Parque Nacional da Gorongosa (PNG) compra o piripiri das 150 famílias nas várias comunidades da sua Zona de Desenvolvimento Sustentável por 80 meticais por quilogramas. Mas como este rendimento está a transformar a vida das famílias? E de que forma o seu cultivo do piripiri contribui para a mitigação dos conflitos entre pessoas e fauna bravia? Este texto responde as perguntas pendentes na edição “PROFUNDUS288.10.2026”.
O projecto encontra-se numa fase piloto sendo implementado nos distritos de Gorongosa, Muanza e Nhamatanda, restando abranger Cheringoma, Dondo e Marìngué na Zona de Desenvolvimento Sustentável do Parque Nacional da Gorongosa.
As variedades Birds eye & Cayenne long slim são as produzidas nos três distritos. São no total 28 hectares.
Os produtores recebem acompanhamento técnico desde o início do processo produtivo. A assistência inclui a distribuição de sementes, estabelecimento de alfobres, transplante das mudas para o campo definitivo e capacitação em práticas agrícolas sustentáveis.
O piripiri é cultivado através de práticas de agricultura regenerativa que restauram a fertilidade do solo, conservam a água e reduzem a erosão. A adopção de técnicas agrícolas sustentáveis a produtividade, fortalece a resiliência às aumenta alterações climáticas e assegura a produção a longo prazo, protegendo simultaneamente os recursos naturais.
A produção de piripiri proporciona uma fonte de rendimento fiável para as famílias rurais, complementando as culturas alimentares e diversificando os meios de subsistência.
Os 245 produtores registados, sendo 84 mulheres, têm acesso a sementes certificadas, assistência técnica, irrigação e mercado garantido, reduzindo os riscos económicos.
Mesmo na fase inicial, os produtores de piripiri já falam de ganhos financeiros e na mitigação do conflito Homem-Fauna Bravia. No distrito de Gorongosa, por exemplo, a produção começou com experimento de 2025, para o presente ano, as expectativas são maiores depois da experiência. Do outro lado, cinco jovens da Vila de Gorongosa, sendo três mulheres e dois homens, conseguiram oportunidade de emprego na unidade de processamento de piripiri.
O caso do distrito de Gorongosa
“Sou produtor de piripiri desde dezembro de 2025. Na fase experimental comecei com uma área pequena de meio hectare. Consegui colher até então 50kg. O piripiri difere do café porque é uma cultura fácil de produzir, não requer muito esforço e o valor é imediato”, disse Manuel Manejo.
Nas diversas culturas, os produtores queixam-se de invasão de animais. Então, o piripiri entra como elemento importante não apenas para o consumo e venda.
O piripiri actua como uma barreira natural contra elefantes, cuja sensibilidade à capsaicina ajuda a desencorajá-los de entrar nas machambas. Integrado em faixas de protecção ao redor das áreas agrícolas, o cultivo reduz os danos nas culturas, diminui o conflito entre pessoas e fauna bravia e promove uma coexistência harmoniosa entre as comunidades e a vida selvagem.
O piripiri é usado para mitigação do conflito animal de duas maneiras: é “usado plantando nas bermas das machambas; também como repelente com os fiscais – compram o piripiri seco em pó, colocam nas pistolas e disparam para não matar, apenas afugentar”, contou o produtor.
Manejo ganhou “4.000 meticais” com uma metade de um hectare de piripiri produzido no passado, mas tem a expectativa de ganhar 100.000 meticais, depois de aumentar da metade de um hectare para três hectares.
O piripiri da Gorongosa pode ser encontrado em todas as capitais provinciais de Moçambique, em forma de molho doce, molho picante, e em flocos sob a marca A NOSSA GORONGOSA.
Para 2026, as expectativas são maiores porque os produtores de piripiri já têm experiência.
Após a colheita, um transporte do Parque leva o piripiri das machambas para a unidade de processamento na Vila de Gorongosa. Ali, o produto passa pela secagem, etapa essencial para reduzir o teor de humidade e prolongar a conservação do produto antes da transformação industrial. É transformado em molho picante, molho doce, piripiri triturado, em flocos e em pó, produtos de marca 100% moçambicana, inicialmente destinados ao mercado nacional, mas com potencial para alcançar mercados internacionais.
O processamento varia conforme a mercadoria desejada. No caso dos molhos, o piripiri seco é moído, cozido e temperado antes do enfrascamento. Em seguida, os frascos recebem os rótulos, contendo a identificação do produto, marca, selo de segurança, validade e número do lote. Já para o piripiri triturado, o produto é moído, embalado e rotulado com as respectivas informações de validade. Para o piripiri em pó, o processo inicia-se com a secagem, seguida da moagem e do empacotamento.
Amélia Armando é a primeira mulher a vender piripiri pelo Projecto. “Pilamos e misturamos com água, usamos a água do piripiri para pulverizamos as nossas machambas. Antes de produzir o piripiri, os animais quase todos os dias invadiam as nossas machambas, mas agora em média, duas vezes por mês invadem”, descreveu a produtora, acreditando que ainda “vai criar muitos impactos positivos” na vida dela.
Amélia iniciou a produção com meio hectare. Este ano prevê dois hectares. Em 2025, ganhou “800 meticais” e este ano prevê “70.000 meticais”.
A Serra da Gorongosa oferece condições climáticas favoráveis para a produção contínua de piripiri. Ao contrário de culturas como o milho, que dependem fortemente das chuvas, o piripiri pode ser cultivado durante todo o ano, proporcionando uma fonte de rendimento mais estável. É a diferença entre viver apenas da chuva e viver do trabalho.
Chaputica Morge é de poucas palavras. Produziu piripiri há 1 ano. “Desde que comecei, consegui 160 kg”.
O produtor disse que já não se lembra do dinheiro total que ganhou com a venda de piripiri. Mas com o mesmo valor “consegui comprar material escolar para os meus filhos e variar a dieta alimentar da minha família”. Com isso, “pretendo até em dezembro [deste ano] cultivar um hectare”, deixando a metade de hectare de 2025.
Segundo o documento “PIRIPIRI DA GORONGOSA: Piripiri cultivado na Zona de Desenvolvimento Sustentável do Parque Nacional da Gorongosa, Moçambique” a que o “Profundus” teve acesso, até 2025, o Parque desembolsou 7.510 dólares (cerca de 475.007,50 meticais) aos produtores. São valores oriundos de 6 toneladas de piripiri fresco comprado.
Contudo, de janeiro a julho de 2026, o Parque já comprou 5,1 toneladas de piripiri. A meta é de 10 toneladas até ao final de 2026. (Ana Cleta de Lopes Coimbra).
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