Entre a Justiça do Homem e o Destino em Moçambique

Viver em Moçambique é aprender a respirar com medo e a sonhar com cautela. Aqui, a vida do povo é uma equação onde a fome é constante, a esperança é variável, e a justiça é a incógnita que nunca se resolve. Somos um povo treinado para sobreviver ao improvável. Sobrevivemos à guerra, à seca, à cheia, à corrupção. Mas há uma guerra que não acaba: a guerra contra o cidadão.

A justiça nacional: a balança que pesa só para um lado.

A justiça em Moçambique veste toga, mas anda descalça. Tem olhos vedados, mas só para não ver o pobre. Tem balança, mas o peso do dinheiro e do poder sempre inclina o prato.

Aqui é mais fácil prender um homem por roubar uma galinha do que julgar quem roubou o celeiro da nação. O fundamento para deter é o bolso vazio. O fundamento para soltar é o bolso cheio. A lei é letra morta no papel e bala viva na rua.

O tribunal do povo não fica no Palácio da Justiça. Fica na esquadra, no beco, de madrugada. A sentença vem antes do processo. A execução vem antes da prova. Morre-se por suspeita. Vive-se por sorte e peso de quem é conhecido.

A perseguição dos “Inimigos”: Quando pensar é crime

Em Moçambique, o maior inimigo do Estado não é quem pega em armas. É quem pega na consciência.

Ser “inimigo” aqui não exige traição. Basta ter opinião. Basta perguntar “porquê”. Basta não bater palmas. O sistema não persegue só corpos, persegue ideias, silencia vozes antes que virem ecos e apaga nomes antes que se tornem símbolos.

Criou-se a cultura do sussurro. Fala-se de política em voz baixa, como quem confessa pecado. Porque numa terra onde a verdade é subversiva, o silêncio vira instinto de sobrevivência.

O Povo: Teologia da Resistência

E ainda assim, o moçambicano não morre.

Podem deter o corpo sem fundamento, mas não detêm o destino que já foi escrito. Podem matar o homem, mas não matam a fome de justiça que ele deixou nos filhos. Podem enterrar a carne, mas não enterram a ideia.

O povo aprendeu uma teologia dura: Deus não nos prometeu justiça dos homens. Prometeu-nos justiça Dele. E a Dele não atrasa, não se corrompe, não se compra. A morte pelas mãos dos homens é uma interrupção. A morte pelas mãos de Deus é cumprimento. Por isso continuamos. Vendemos na rua com medo da rusga. Falamos baixo com medo da escuta. Enterramos os nossos com revolta contida. Mas acordamos. Porque quem tem destino não morre no desvio.

Moçambique não é dos que mandam. Moçambique é dos que aguentam. Dos que, mesmo sem fundamento legal para viver em paz, encontram fundamento divino para não desistir.

A injustiça humana é rápida. O destino divino é eterno.

Um dia a balança vai pesar certo. Mesmo que não seja nesta terra.


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