O Governo dizia que estava a trabalhar em silêncio para resultados concretos. Tudo não passou de simples frase para o caso da Estrada Nacional Número Um (EN1). Baseada em visita in loco, não de voo, mas de carro, a equipa da “Profundus” certificou sobre o estado daquela que é a coluna vertebral do País. Até ao momento, “tudo paulada” de promessas.
No dia 4 de dezembro de 2025, a imprensa nacional e internacional virou para Sofala onde foi lançada a primeira pedra no Posto Administrativo de Nhamapaza, distrito de Marínguè, na província de Sofala para a reabilitação da Estrada Nacional N.º 1, no troço entre Gorongosa e Caia, numa extensão total de 84 quilómetros. No terreno, parece que a estrada está no lugar errado, está no lugar das covas e não as covas na Estrada – a coluna vertebral do País.
Em alguns sítios, na EN1, a motorizada e bicicleta andam mais que qualquer carro.
Do cruzamento de Inchope a Gorongosa, o ensaio da EN1 começa depois do Rio Púnguè. Ali a velocidade do carro já não permite em 45 minutos chegar a Vila de Gorongosa, como antes se previa. A soneca termina ali.
Ainda no ano passado, o ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael, falando aos deputados durante as perguntas de insistência, disse também estar prevista a reabilitação do troço Inchope-Gorongosa (sem especificar as secções), na província de Sofala; Chimuara-Nicoadala, na Zambézia; e Pemba-Metoro, em Cabo Delgado; 3 de Fevereiro-Incoluane, na província de Maputo; e Rotunda de São Roque-Zimpeto, na cidade de Maputo, totalizando 532 Km em todo o país. Tudo no papel até agora.
Rafael dizia que melhorou, significativamente, a transitabilidade dos troços Rio Save-Casa Nova, Casa Nova-Inchope e Inchope-Gorongosa, na província de Sofala; Namacura-Nampevo, na Zambézia; e Pambara-Save, na província de Inhambane. Mas no terreno, tudo piora: os preços para viagens, estrada esburacada, estragos nas viaturas, mais tempo para chegar ao destino e consequentemente mais gastos de alimentação para os passageiros e saúde em perigo.
Como se justifica que a única estrada que liga o País do Sul a Norte esteja totalmente abandonada no sentido de intervenção?
Mas o problema não começa em Sofala, um cenário típico vive-se em Maputo, na zona de Zimpeto, concretamente nas zonas de Mafureira, cruzamento de Matendene e Coqueiro, na cidade de Maputo. Buracos de grande dimensão, poças de água persistentes e o escoamento contínuo de águas provenientes do bairro Magoanine “B”, vulgarmente conhecido por Matendene, transformaram a via num verdadeiro desafio para automobilistas e passageiros, mesmo em dias sem chuva.
De Gorongosa a Nhamapaza onde foi lançada a primeira pedra, nada foi feito, além de assinaturas de dirigentes e fotos de jornalistas. Buraco atrás de outro; desvio de carros após quase embate; ali não funcionam as regras de trânsito.
Numa viagem que seria normal, um dia da Beira para Nampula, levou dois dias. O transporte interprovincial avariou por três vezes antes de chegar a Caia com respectivas três paragens obrigatórias por causa de problemas mecânicos, entre eles pneus furados. E em alguns buracos na estrada, o carro rastejava e há quem diz “sentava” recorrendo-se sempre à tração.
Uma viagem que até 2020 durava cerca de 6h para o distrito de Caia, partindo de Inchope, já dura o maior tempo do dia. Os reportes da “Profundus” partiram às 6h e só às 18h chegaram a Caia, ainda dentro de Sofala. E às 23:00, o carro conseguiu chegar a Nicoadala-Zambézia. Todos dormiram ali. Já no dia seguinte, por volta das 14 horas, os jornalistas chegavam a cidade de Nampula. No dia seguinte, a viagem continuou para Pemba.
Estava também prevista a reabilitação do troço Chimuara-Nicoadala, na Zambézia; e Pemba-Metoro, em Cabo Delgado; 3 de Fevereiro-Incoluane, na província de Maputo; e Rotunda de São Roque-Zimpeto, na cidade de Maputo, totalizando 532 Km em todo o país.
A reabilitação seria apenas para tapar buracos e resselagem de algumas secções. Mesmo assim, continua no papel e sem data exacta o projecto de reabilitação da EN1, anunciado em agosto de 2022 pelo anterior Governo, cujo arranque ainda não se sabe, com a garantia de pelo menos 400 milhões de USD do Banco Mundial para a execução da obra.
De Nampula, ao entrar em Cabo Delgado, o “Ruanda de Moçambique”, o ar é outro. O silêncio até das plantas e casas vazias, chama atenção. Alguns residentes deslocaram-se para sempre, outros ainda aparecem temporariamente, é como quem diz uma parte de mim permanece naquela terra, por isso, merece visita apesar do esquecimento como província.
A estrada também revela um ambiente estranho. Da fronteira, a EN1 está normalizada até onde está a portagem, ali ao lado das bandeiras da ANE e Fundo de Estradas – instituição agora extinta. O resto que se dane, passando pelo cruzamento de Ocua, ali onde muitos quadros do Norte (Cabo Delgado) saíram “cozidos” pela EP2 na altura. A fé continua a guiar os viajantes pela EN1, passando pela famosa paragem de venda em abundância de mangas – Marínguè. Só em Mahipa é possível ter um “pedaço” de alcatrão. Depois desse troço, se você não chia, não assusta ou não grita está entre o desafio do silêncio e a coragem de suportar as dores, junto do medo dos insurgentes.
Enquanto isso, naquelas casas de capim onde o ar fresco tomava conta numa visita de netos pára, há pânico; aquela mapira pela estrada toda empoeirada numa população ausente parou de se mexer, ar de pânico; o fogo da bala e o medo tomam conta; o feijão jugo continua ali mesmo em tempo de tirar, mas o medo manda quando o colher; o ambiente verde pelas folhas de feijão boer permanece apesar de sem cuidado; na flor, a abelha ainda pousa para dali produzir o mel ou mesmo polinizar. A seguir, a vila de Chiúre marca diferença com novas casas desordenadas (novos desafios topógrafos)– é o resultado de deslocados, alguns casados, para garantir onde estar na fuga contra insurgência. Mas mesmo a vila não é segura.
Da Vila de Chiúre, mantém o ritmo de zig-zag contra os buracos na EN1 até onde sai o rubi de milhões em Montepuez.
Aquela sombra da moringa, planta que enquanto relaxas debaixo dela podes usar as folhas medicinais ou mesmo para papas enriquecidas; aquela acacieira apenas tem flores, o abandono permanece; aquela mandioqueira caiu as folhas por tanto tempo sem colheita, quase abandono. Tudo por conta do medo da insurgência em Cabo Delgado pela EN1. Mas o ruby não falha.
A viagem a Cabo Delgado teve o maior marco ao cruzar com blindados no troço Metoro-Silva Macua. Os homens armados eram ruandeses posicionados após uma informação de circulação de insurgentes. E é ali onde andava o carro com mais de 62 passageiros, o local habitual de travessia dos inimigos da paz. Um silêncio tomou conta e sendo zona com estrada danificada.
Por estranho que pareça, onde os insurgentes passam cortando a EN1 para depois sobressair em Mecufi ainda dentro de Cabo Delgado está uma residência rara bem pintada. Com o histórico assustador, talvez ali exista uma hipótese do sentido do nome insurgente: mesmos actores fingindo a favor da paz quando em apuros e promotores do conflito nas suas horas, resultando em casa do género.
Os velhos diziam há anos, cuidado ao andar no mato. Tem assassinos, mas hoje não se sabe quem é realmente assassino. Todos com a mesma farda na cidade e no mato, com armas e sem armas. Enquanto de Inchope a Nampula, a EN1 está livre depois do abate do autoproclamado líder da Junta Militar da Renamo, Mariano Nhongo, abatido em combate. Ali já reina a paz de armas. Mas a estrada não te garante tranquilidade.
O lado da Saúde
A saúde mental ou física ou mesmo o sentido da missão movem pessoas. Famílias viajam por saudades ou mesmo resolver assuntos: Único carro, uma sociedade inteira em movimento por vários motivos. Na EN1, os viajantes ficam entre a poeira, o medo e a fé para o destino.
Naquele metal, os desabafos não faltam. Um espaço onde a liberdade de expressão sobre a actual governação faz-se sentir. Ali até o Presidente da República e o seu elenco são chamados todos os nomes, afinal, cada passageiro sente os pecados na EN1. Todos comentam com absoluta convicção mesmo em boatos.
A gastronomia rodoviária não falha. A cada paragem, mesmo aquela em que o Polícia Transito obriga, os vendedores aproximam-se das janelas oferecendo uma variedade de iguarias que desafiam qualquer classificação científica. Há bolos visivelmente estranhos, suposta água mineral com marcas já conhecidas, plantas medicinais, sumos em garrafas reutilizadas cujas escritas esqueceram a alma do recipiente, até o consumo é por fé. Entretanto, para qualquer compra, vale partilhar experiência. Comprou, receba, primeiro, o produto, e peça troco antes de dar o dinheiro, caso contrário, pode ser que entregou dinheiro gratuitamente.
À nossa ENI e o sonho da paz, palavras não cabem. (Muamine Benjamim).
Discover more from JORNAL PROFUNDUS
Subscribe to get the latest posts sent to your email.








