Imagem de mil palavras sobre a Gorongosa

A Gorongosa expõe o diploma da sua criação, bem como os mapas de 1952, com a localização geográfica e a descrição da Reserva de Caça da Gorongosa a designação do Parque Nacional. O Parque Nacional da Gorongosa foi criado, pelo Diploma Legislativo n. 1993, de 23 de julho de 1960, na última quarta-feira, perfez 66 anos. Hoje, não se fala apenas do nome pelo número dos animais ou pelo verde, mas também pelo que eles representam para as comunidades (impacto local).

 

1920-1940 (Origem)

Desde muito cedo a paisagem dramática e a rica fauna bravia da região da Gorongosa atraíram caçadores, exploradores e naturalistas. A oficialização para proteger apareceu pela primeira vez em 1920, quando a Companhia de Moçambique ordenou que 1.000 quilómetros quadrados fossem conservados como uma Reserva de Caça para os administradores da companhia e os seus visitantes. A Companhia controlava toda a região central de Moçambique entre 1891 e 1940, tendo sido esta área concedida pelo Governo de Portugal.

Pouco se conhece sobre os primeiros anos da Reserva, com excepção de que a partir de uma dada altura, José Ferreira começaria a residir numa casa coberta de colmo no Chitengo incumbido de proteger a fauna bravia. Em 1935, o José Henriques Coimbra foi designado administrador e o Ferreira tornou-se no primeiro guia turístico. Naquele mesmo ano, a Companhia de Moçambique alargou o espaço da Reserva para uma área de 3.200 quilómetros quadrados para proteger o ‘habitat’ de inhalas (uma espécie de antílopes) e rinocerontes pretos, ambos troféus de caça muito apreciados.

Uma carta escrita por um oficial da Companhia de Moçambique em 1935 mostra claramente que nos primeiros anos, a Reserva era para um pequeno grupo de caçadores, e não propriamente um santuário de vida selvagem. “Uma visita à Beira será em breve feita pelo Cruzador Britânico CARLISLE, que consistirá numa jornada de caça para os respectivos oficiais nas planícies abertas de Gorongosa,” assim escreveu o oficial para o administrador local.

Em 1940, a Reserva já se tornara bastante famosa, uma nova administração e um campo turístico foram construídos nas planícies perto do Rio Mussicadzi. Infelizmente este sítio teve de ser abandonado dois anos mais tarde, devido a grandes cheias na época das chuvas. Os leões tomaram conta das construções abandonadas e o lugar tornou-se num grande atractivo turístico por muitos anos, conhecido com o nome de Casa de Leões.

 

1941-1959 (Gestão colonial)

Depois do término do contrato da Companhia de Moçambique, a gestão da Reserva passou para as mãos do governo colonial. Sob a administração do Capitão Pinto Soares, o fiscal Alfredo Rodrigues tomou os primeiros passos oficiais com o objectivo de banir as caçadas e estabelecer um negócio turístico viável.

Em 1951 começaram outras construções de uma nova administração e acomodações no Chitengo, incluindo um restaurante e um bar. No mesmo ano, o governo aumentou mais 12.000 quilómetros quadrados da zona de protecção à volta da Reserva para mitigar os impactos da estrada da Beira para Rodésia, que passava por Chitengo. Até aos finais de 1950, mais de 6.000 turistas visitavam anualmente a Reserva e o governo colonial tinha atribuído a primeira concessão de turismo no Parque.

Em 1955, o governo colonial decretou que a Divisão dos Serviços de Veterinária assumisse o controlo sobre a gestão de toda a fauna e flora bravia em Moçambique, incluindo a Gorongosa. A Gorongosa foi nomeada Parque Nacional pelo governo colonial, em 1960.

1960-1980 (o apogeu)

Da criação em 1960 e da incorporação em 2010 da Serra da Gorongosa, acima de 700m, o Parque incluiu um mapa do Projecto da Gorongosa, com detalhes sobre os locais da Zona de Desenvolvimento Sustentável (ao redor do PNG) onde existem iniciativas em Educação, Saúde e Agricultura.

Em 1960, após reconhecer que a Reserva necessitava de mais protecção ecológica formal e mais instalações para a actividade turística crescente, o governo português declarou a reserva e mais 2.100 quilómetros quadrados de terra (um total de 5.300 quilómetros quadrados), um Parque Nacional.

O novo Parque deu passos significativos de melhorias, arrancaram construções de estradas e outras infra-estruturas. Entre os anos de 1963 e 1965, as instalações de Chitengo foram alargadas para acomodar pelo menos 100 turistas. Durante esse período, o local passou a dispor de duas piscinas, um bar e um salão de festas, um restaurante com capacidade de servir entre 300-400 refeições por dia, uma estação de correios e uma estação de abastecimento de combustível, uma clínica para urgências, e uma loja para vender objectos artísticos locais.

As receitas das licenças de caça e as taxas de caça em qualquer parte de Moçambique contribuíram para este progresso do Parque. No mesmo período, a pavimentação da estrada Beira-Rodésia e a construção da ponte sobre o rio Pùngué, em Bué Maria, ajudou a duplicar o número de visitantes.

Igualmente, nos finais dos anos 60, realizaram-se os primeiros estudos científicos básicos do Parque, conduzidos por Kenneth Tinley, um ecologista sul-africano.

Na primeira contagem efectuada com meios aéreos, Tinley e a sua equipa registaram cerca de 200 leões, 2.200 elefantes, 14.000 búfalos, 5.500 bois-cavalos, 3.000 zebras, 3.500 pivas, 2.000 impalas, 3.500 hipopótamos e manadas de centenas de elandes, pala-palas e gondongas.

Tinley também descobriu que muitas pessoas e muita vida selvagem residente dentro e nos arredores do Parque Nacional, depende de um rio, o Vunduzi, que nasce nas vertentes da montanha de Gorongosa. Porque a montanha estava fora das linhas fronteiriças do Parque, Tinley propôs a expansão das fronteiras, de maneira a incluir a montanha por ser o elemento chave do Grande Ecossistema da Gorongosa, com cerca de 8.200 quilómetros quadrados. Ele e outros cientistas e conservacionistas ficaram desapontados em 1966 quando o governo reduziu a área do Parque para 3.770 quilómetros quadrados. A razão oficial para a redução era porque os camponeses locais precisavam de mais terras para suas práticas agrícolas. Tinley viu a situação de outra maneira. Ao apontar para o desaparecimento de muita vida selvagem em várias zonas circunvizinhas, ele acreditou que a razão verdadeira da redução da área do Parque era para facilitar o trabalho dos caçadores locais. “A fome deles era de proteínas, e não de terras,” disse Tinley.

Simultaneamente, Moçambique estava no meio da guerra de libertação iniciada em 1964 pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Felizmente, a guerra teve pouco impacto no Parque Nacional da Gorongosa até 1972, quando uma Companhia Portuguesa e membros da Organização Provincial de Voluntários se instalou no Parque para protegê-lo. Nessa altura, não foram causados muitos danos, embora alguns soldados caçassem ilegalmente. Em 1972, enquanto a guerra estava ainda em curso, o Parque tinha cerca de 200 leões, 14.000 búfalos, 5.500 bois-cavalos, 3.500 hipopótamos, e mais de 2.000 elefantes. Em 1976, um ano depois de Moçambique ter conquistado a independência de Portugal, contagens aéreas do Parque e do delta do rio Zambeze apontavam para alguns milhares de elefantes e uma população de leões na casa das centenas, provavelmente, a maior população de leões registada na região da Gorongosa até à data.

Em justo reconhecimento do progressivo desenvolvimento e reputação da fauna do Parque e da importância de conservar este bem em Moçambique, em 1981, o governo da Frelimo escolheu o Parque para acolher a Primeira Conferência Nacional sobre a Fauna Bravia.

 

1981-1994 (Guerra Civil)

A paz em Moçambique não foi duradoura. A África do Sul começou a financiar e armar uma tropa de rebeldes para desestabilizar Moçambique. Em dezembro de 1981, pela primeira vez, o Parque Nacional da Gorongosa sentiu a pesada fúria da guerra, quando os soldados da Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) atacaram o acampamento de Chitengo e raptaram muitos dos seus trabalhadores, incluindo dois cientistas estrangeiros.

A partir daquela data, a violência dentro e nos arredores do Parque aumentou. Em 1983, o Parque foi encerrado e abandonado. Durante nove anos, o Parque Nacional foi palco de frequentes batalhas entre as forças opostas. A violenta batalha terrestre, e os bombardeamentos aéreos destruíram todas as construções. Os grandes mamíferos do Parque sofreram terrível destruição. Os dois beligerantes dizimaram centenas de elefantes para retirar o marfim, que vendiam para obtenção de mais armas e outros equipamentos bélicos. Soldados famintos mataram muitos milhares de zebras, bois-cavalos, búfalos e outros animais ungulados. Os leões e outros grandes predadores foram mortos a tiro por desporto ou morreram de fome devido ao desaparecimento das suas presas.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas residentes dentro e nos arredores do Parque foram mortas ou espancadas, especialmente pela RENAMO, já nos últimos anos da guerra, quando grande parte do distrito de Gorongosa estava sob controlo dos rebeldes. Muitos se refugiaram dentro do Parque. Famintos de carne, caçavam a seu belo prazer, contribuindo assim para aniquilamento da fauna bravia.

A guerra civil terminou em 1992, mas a caça furtiva no Parque, principalmente por caçadores vindos da Beira, continuou por mais dois anos. Por essa altura, as enormes populações de mamíferos de grande porte, incluindo elefantes, hipopótamos, búfalos, zebras e leões, já tinham sido reduzidos em 90% ou mais. Felizmente, as espetaculares aves do Parque saíram relativamente ilesas.

 

1995-2003 (Recuperação)

O esforço preliminar para reconstruir a infra-estrutura do Parque Nacional da Gorongosa e restaurar a sua vida selvagem começou em 1994, quando o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) iniciou um plano de reabilitação – com a assistência da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Foram contratados 50 funcionários novos, a maioria deles ex-combatentes. Baldeu Chande e Roberto Zolho, ambos empregados do Parque antes da guerra, voltaram para assumir cargos de liderança. Chande era director do programa de emergência e Zolho era coordenador da fauna e flora bravias, assim como da fiscalização. “Concluímos que todas as espécies que havia no Parque antes da guerra ainda existem”, afirmou Chande a um repórter em 1996. “Nenhuma se encontra extinta, mas muitas estão representadas em muito menor número do que antes”. Num período de cinco anos, esta iniciativa do BAD reabriu cerca de 100 km de estradas e caminhos e formou fiscais na luta contra a caça ilegal.

 

De 2004 a esta parte (recomeçar)

Em 2004, o Governo de Moçambique e a Carr Foundation, com sede nos EUA, acordaram unir esforços no sentido de reconstruir a infra-estrutura do Parque, restaurar a sua fauna e flora bravias e estimular o desenvolvimento económico, dando assim início a um novo e importante capítulo da história do Parque.

Entre 2004 e 2007, a Carr Foundation investiu mais de dez milhões de dólares neste esforço. Durante este período, a equipa do projecto de restauração do Parque criou um Santuário de Fauna Bravia de 6.200 hectares e reintroduziu búfalos e bois-cavalos no ecossistema. Também foi nesta altura que se começou a restaurar o Acampamento de Chitengo.

Dado o sucesso deste projecto inicial de três anos, o Governo de Moçambique e a Carr Foundation (que passou a designar-se “Gorongosa Restoration Project”) anunciaram em 2008 a assinatura de um acordo para restaurar e co-gerir o Parque nos próximos 20 anos.

A dedicada equipa de cientistas, engenheiros, gestores de negócio, peritos em economia e técnicos de turismo que agora trabalha na restauração do Parque Nacional da Gorongosa está confiante de que com trabalho árduo, com o desenvolvimento da população local e com os rendimentos provenientes do ecoturismo, esta zona espetacular irá reencontrar a glória que teve no passado.

Em julho de 2010, o Governo de Moçambique decidiu alterar os limites do Parque Nacional da Gorongosa e incorporar a Serra da Gorongosa (acima dos 700 metros) dando assim satisfação a uma velha aspiração que tinha sido apresentada nos anos 60 pelo então ecologista do PNG, Kenneth Tinley. O Parque passou a ter uma área de 4.067 quilómetros quadrados e o Governo decidiu também estabelecer oficialmente uma zona tampão com cerca de 3.300 quilómetros quadrados.

No dia 25 de julho de 2016 foi publicado no Boletim da República de Moçambique o despacho de aprovação do Plano de Maneio do PNG para o período 2016-20. Em 6 de setembro de 2016, o Governo de Moçambique aprovou a extensão por mais 25 anos do contrato de gestão conjunta do PNG. A extensão do contrato de gestão foi formalmente assinada em 7 de junho de 2018.

Em 2021 o Parque foi apresentado como um modelo de parceria público-privada de sucesso num novo relatório do Banco Mundial e no levantamento aéreo de fauna bravia efectuado em 2024 foram contados mais de 110.000 animais de grande porte.

Dados detalhados surpreendem. Em 2022, a Gorongosa documentou mais de 100.000 animais em 60 por cento do Parque; mais de 1.500 Bois-cavalos (ou Gnus); mais de 1.400 Búfalos; e mais de 900 Hipopótamos, um aumento de 10 por cento comparativamente aos períodos de entre 2018 e 2020. O registo de 2024 foi de um total de 110.513 indivíduos de 20 espécies de animais de grande porte (107.765 herbívoros e 2.748 crocodilos). Estas são reais contagens, não estimativas. Esta contagem é feita a cada dois anos, abrangendo a maior parte do Parque.

Segundo a contagem de 2024, nos últimos dois anos, nenhum sinal de caça ilegal, incluindo animais capturados, foi observado; e mais animais foram contados do que nunca. Isso prova o comprometimento com acções de conservação envolvendo as comunidades.

Decorridos 66 anos, hoje, Gorongosa não é apenas nome de nove letras, resume-se na Biodiversidade e impacto de vida das comunidades ao seu redor, tornando-se amplamente reconhecida como uma das maiores histórias de recuperação da vida selvagem em África.

Os programas integrados do PNG resumem-se em Conservação, Educação, Saúde e Agricultura, além de construção de infra-estruturas nos seis distritos considerados Zona de Desenvolvimento Sustentável, nomeadamente, Nhamatanda, Gorongosa, Cheringoma, Dondo, Muanza e Maríngué.

Em 2024, existiam mais de 1.800 pessoas empregadas no Parque, sendo 1.086 funcionários a tempo inteiro e mais 721 trabalhadores sazonais e a tempo parcial, cuja maior parte é de jovens filhos da Zona de Desenvolvimento Sustentável, Gorongosa. Alguns desses já fazem parte de grandes organizações internacionais pelas oportunidades internas.

Mais de 300 homens e mulheres do Departamento de Conservação (99% dos quais moçambicanos) trabalham incansavelmente para proteger a Gorongosa, usando uma variedade de abordagens: fiscalização da conservação, rastreio e gestão da fauna bravia, cuidados veterinários para animais, reintrodução de espécies, gestão de queimadas, estabelecimento de contactos com os governos provinciais e locais e representantes legais, e trabalho com as comunidades locais para alcançar a coexistência humana com a fauna bravia.

Ainda no emprego pela Conservação, em muitas áreas, o facto de seres humanos e animais selvagens viverem lado a lado apresenta desafios para ambos. Os elefantes podem ser particularmente problemáticos porque por vezes destroem colheitas e silos de cereais tradicionais. O Parque utiliza diversas estratégias para facilitar a coexistência pacífica entre seres humanos e vida selvagem. Esta unidade emprega actualmente 22 funcionários.

Existem programas que visam melhorar o acesso à água potável, a cuidados de higiene (clínicas móveis) e serviços de saneamento nas comunidades da Zona de Desenvolvimento Sustentável.

Em 2025, a Gorongosa entregou 26 infra-estruturas escolares e sanitárias, além de continuar a capacitar professores e proporcionar clubes extracurriculares para raparigas e rapazes, com um enfoque adicional nas raparigas em risco de uniões prematuras, em colaboração do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano.

A Gorongosa tem mais de 100 Clubes de Raparigas onde as meninas aprendem sobre os seus direitos e deveres, saúde sexual e reprodutiva, se inspiram sobre a vida.

Do outro lado, existe o Programa Clube da Paz para a integração dos ex-guerrilheiros e os seus familiares em iniciativas de formação para o emprego e autoemprego.

Existem tantos projectos, como o de café cultivado, de mel, e na agricultura o destaque vai para o Programa de Desenvolvimento de Meios de Vida para melhorar a vida de 30 mil produtores agrícolas familiares até 2027, no qual os beneficiários recebem sementes, são instruídos sobre a produção e produtividade, comercialização e conservação da colheita.

Até 2030, o Parque e parceiros querem tornar a Vila de Gorongosa modelo. Enquanto isso, já corre o processo de construção de um Hospital-escola na região na mesma Vila. E, ao mesmo tempo, uma unidade de processamento de frutas no distrito de Nhamatanda.

Em 1960, a Gorongosa não apenas mudou o nome para Parque Nacional, mas passou a assumir a ideia de equilibrar a conservação e desenvolvimento humano das comunidades.

Decorridos 66 anos, hoje, a Gorongosa resume-se na Biodiversidade e impacto de vida das comunidades ao seu redor, tornando-se amplamente reconhecido como uma das maiores histórias de recuperação da vida selvagem em África.

Os objectivos de Carr estão ainda longe, mas se o limite do possível se concretizar, será no Parque Nacional da Gorongosa. (Muamine Benjamim).


Discover more from JORNAL PROFUNDUS

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Discover more from JORNAL PROFUNDUS

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading