JACINTO MATHE: Da infância ao novo líder do Laboratório E.O. Wilson da Gorongosa

O Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, no Parque Nacional da Gorongosa (PNG), anunciou uma transição histórica na liderança, marcando tanto o culminar de um capítulo de sucesso como o início de uma nova era inspiradora para a ciência da conservação em Moçambique. Saiu Dr. Piotr Naskrecki e entrou o 1.º cientista moçambicano em Paleontologia, Dr. Jacinto Adriano Mathe.

 

Infância e percurso

Jacinto, filho de Adriano Mathe e de Puresa Ngomane, nasceu no dia 22 de novembro de 1992, com uma infância na aldeia Mahungo, localidade de Maqueze, distrito de Chibuto, província de Gaza, sul de Moçambique.

Jacinto fez o ensino primário na escola de Mahungo e terminaria o nível na Escola Primária Completa de Maqueze, sede da localidade. Foi o melhor aluno na Escola Secundária de Chibuto na 10.ª e 12.ª Classes em 2009 e 2011, respectivamente.

Já na renomada Universidade Eduardo Mondlane, Jacinto fez o curso de Veterinário na Faculdade do mesmo nome, até conhecer o Parque Nacional da Gorongosa.

Na Gorongosa, Jacinto Mathe Adriano colaborou em trabalhos de recolha, análise e preservação de ossadas de animais. Nessa altura, destacou-se pelo rigor científico e pela curiosidade em compreender de que forma o registo fóssil ajuda a explicar a evolução da biodiversidade africana.

Inicialmente com estágio, em 2016, Jacinto passou a interessar-se pelos ossos e fósseis começou na Gorongosa, após entrar como veterinário.

Ainda na Gorongosa, em 2017, Jacinto tornou-se bolseiro de pesquisa, “ano em que entrei na área da Paleontologia”.

Ao lado de Jacinto, esteve sempre Norina Vicente, uma mulher entomóloga dedicada e focada na sua carreira. De colega de estágio na Gorongosa passou a ser noiva, depois de se conhecerem na Gorongosa.

Norina Vicente, de Tete, iniciou também como estagiária na província vizinha Sofala, onde se localiza o Parque Nacional da Gorongosa, saindo do Instituto Superior de Manica.

Jacinto chegou de vários prémios, começando com bolsas como da Universidade Eduardo Mondlane pelo Governo de Moçambique em 2012; a bolsa de pesquisa em Biodiversidade Gorongosa em 2016; o prémio de conservação de primatas da Sociedade Internacional de Primatologia em 2018; a bolsa de início de carreira da National Geographic em 2018; incluindo a Bolsa Gulbenkian em 2019.

O Dr. Mathe é licenciado em Medicina Veterinária pela Universidade Eduardo Mondlane (2017) e mestre em Antropologia Forense pela Universidade de Coimbra (2020).

Jacinto Mathe nasceu com a doença do Pé Boto Bilateral. A sua condição despertou a atenção do cirurgião ortopedista, Nuno Craveiro Lopes, que o operou em 2018, no Hospital Cruz Vermelha, em Portugal. Onde no mesmo País, dois anos depois (2020) viria fazer mestrado em Antropologia Forense pela Universidade de Coimbra. Mas antes, a sua longa ligação à Gorongosa começou como Investigador Associado no Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson (2016 – 2017).

Desde 2017 integra a equipa do Projecto Paleo-Primata contribuindo para o avanço do conhecimento sobre a profunda história evolutiva de Moçambique.

A Universidade de Oxford ou do original University of Oxford é uma instituição de ensino superior pública situada na cidade de Oxford no Reino Unido. É a mais antiga do mundo anglófono e a segunda mais antiga da Europa. É ali onde Jacinto Mathe doutorou-se em Paleontologia, tornando-se o primeiro moçambicano a alcançar este título.

Moçambique ganhou novo significado com Jacinto ao se tornar o primeiro especialista de doutoramento numa área central para o estudo da evolução humana.

 

Mathe, novo líder na Gorongosa

Edward O. Wilson, biólogo e autor que efectuou um trabalho pioneiro sobre biodiversidade, insectos e natureza humana – e ganhou dois prémios Pulitzer ao longo da sua caminhada – morreu num domingo (26.12.2021) em Burlington, Massachusetts, Estados Unidos da América (EUA), mas as suas obras o imortalizam na Gorongosa e no mundo.

O biólogo norte-americano afirmava possuir “um vínculo especial” com o PNG, que ajudou a salvar, e onde um laboratório com o seu nome foi inaugurado em março de 2014 e colocou Gorongosa como um dos centros de investigação mais avançados da África Austral.

Considerado pela National Geographic Society “o maior naturalista do nosso tempo”, o cientista documentou a história do parque moçambicano e publicou-a em livro, com fotografias de Piotr Naskrecki.

Desde a última terça-feira, “numa iniciativa que sublinha o compromisso duradouro da Gorongosa com a liderança local e o desenvolvimento de capacidades, o Dr. Piotr Naskrecki deixou o cargo de Director do Laboratório e o Dr. Jacinto Adriano Mathe foi nomeado para o cargo. O Dr. Mathe, cientista moçambicano com uma década de experiência no Parque Nacional da Gorongosa, teve o Dr. Naskrecki como seu primeiro mentor em 2016, e concluiu recentemente o seu doutorado em Biologia Antropológica pela Universidade de Oxford, no Reino Unido”.

Jacinto Adriano Mathe é um explorador da National Geographic baseado no PNG. Alcançou o doutoramento sob a supervisão de René Bobe e Susana Carvalho na Universidade de Oxford.

O Dr. Naskrecki, entomologista e conservacionista reconhecido internacionalmente, continuará o seu trabalho na Gorongosa como consultor, ao mesmo tempo que expandirá o seu foco em iniciativas globais de conservação e investigação em biodiversidade. Durante o seu mandato, o Dr. Naskrecki transformou o Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson num dos centros de investigação mais dinâmicos e produtivos de qualquer parque nacional africano. Sob a sua orientação, o Laboratório tornou-se um pólo de ciência de ponta em biodiversidade, recebendo investigadores de todo o mundo e construindo uma compreensão abrangente dos ecossistemas da Gorongosa — desde os insectos e as plantas aos grandes mamíferos.

Entre os seus principais contributos, conta-se a co-fundação, pelo Dr. Naskrecki, do Programa de Bioeducação da Gorongosa, uma iniciativa inovadora que capacitou estudantes moçambicanos através de formação científica prática. Este programa acabou por se tornar o primeiro mestrado em ciências do mundo realizado inteiramente numa área protegida — um feito que contribuiu para posicionar o consórcio do mestrado e da Gorongosa como líderes globais na educação para a conservação.

Através destes esforços, o Dr. Naskrecki ajudou a formar uma nova geração de líderes moçambicanos na área da conservação — cientistas, educadores e gestores ambientais que desempenham agora papéis vitais na protecção do património natural do país. A equipa do Laboratório documentou a biodiversidade na Gorongosa a uma escala sem precedentes, registando e mapeando populações de mais de 8.000 espécies de animais e plantas, o que levou à descoberta de mais de 100 espécies novas para a ciência e contribuiu significativamente para o avanço da compreensão global dos ecossistemas tropicais. Para homenagear esta contribuição excepcional, a Gorongosa decidiu nomear a colecção científica de zoologia como “Colecção Naskrecki”.

A investigação científica é parte integrante do plano a longo prazo para a restauração do ecossistema da Gorongosa. Um conhecimento aprofundado do ecossistema da Gorongosa ajudará a gestão do Parque a tomar melhores decisões sobre a sua conservação.

A nomeação do Dr. Mathe marca um momento histórico e de orgulho para o Parque Nacional da Gorongosa. Sublinha o investimento de longa data do Parque no talento moçambicano e a sua visão de conservação liderada localmente. Tendo crescido através dos próprios programas estabelecidos na Gorongosa, o Dr. Mathe representa o sucesso de um modelo que integra a educação, a ciência e o desenvolvimento comunitário.

“Jacinto personifica o futuro da conservação em Moçambique”, disse o Dr. Naskrecki. “A sua formação científica, o seu profundo conhecimento da Gorongosa e o seu compromisso com o país posicionam-no de forma ideal para contribuir de forma significativa para o próximo capítulo do Laboratório.”

Uma das funções do Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson é fornecer formação à próxima geração de cientistas moçambicanos do Parque e enviá-los para as universidades para obterem graus académicos avançados. Os jovens (das comunidades vizinhas do Parque ou das escolas técnicas da região) recebem assistência financeira total ou parcial do Laboratório e estudam em universidades e escolas secundárias para se tornarem profissionais da Medicina Veterinária, ecologistas e técnicos de laboratório.

O Laboratório atraiu a atenção nacional, regional e internacional. Cientistas de mais de 70 instituições realizaram investigação no Parque, como as Universidades Eduardo Mondlane (UEM) e Lúrio (UNILURIO), em Moçambique; as Universidades de Coimbra e de Lisboa, em Portugal; as Universidades de Oxford e Kent, no Reino Unido; e as Universidades de Harvard, Princeton e Berkeley, nos Estados Unidos da América (EUA).

 

Colhendo o que plantou

“O meu maior sonho é ver mais moçambicanos representados nos vários cantos do mundo. Somos um povo muito inteligente e resiliente; no entanto, as ferramentas utilizadas pelo ocidente para medir a nossa inteligência nem sempre são adequadas à nossa realidade. Avante Moçambique”, disse o cientista.

Jacinto deixa mensagem de motivação para jovens moçambicanos:

“O milho leva cerca de três meses até a colheita; o eucalipto, entre 15 a 20 anos. Tudo tem o seu tempo. Mas não deixem de semear em vós próprios e na vossa carreira, porque um dia a colheita falará por si mesma. Sejam dedicados nas pequenas coisas, pois são nelas que se prova a prontidão e a responsabilidade para assumir os grandes desafios da vida. Das pequenas coisas nascem as grandes conquistas”.

Jacinto já é uma das figuras centrais do PNG. Nada sairá, ou se fará no Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson sem o conhecimento dele.

Mathe é um exemplo de jovem, de oportunidade, de dedicação e de inspiração. (Muamine Benjamim).


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