“Mesmo com deserções, a Renamo continua viva”

Uma das maiores forças políticas em Moçambique vive momentos de discórdia relativamente à gestão actual do partido sob a liderança de Ossufo Momade. Os membros e simpatizantes da Renamo vivem entre ameaças, abandonos, discursos e resistência.

Dos exigentes em mudanças, na sua maioria são ex-combatentes, que pelo menos publicamente assumem, mas também ameaçam. São outros tempos os quais o mais antigo partido da oposição em Moçambique enfrenta o desafio de se reinventar num cenário cada vez mais exigente.

Novas formações políticas emergem, novas vozes disputam espaço, e antigos companheiros trocam de bandeira — um fenómeno que, para muitos, seria queda livre de uma estrutura. Contudo, a perdiz resiste.

“A Renamo não está triste com o abandono de alguns elementos. Isso não é nada. A Renamo nunca vai acabar porque João ou Manuel saiu. O partido está vivo do Rovuma ao Maputo”, confirmou, esta segunda-feira, o delegado distrital da Renamo no Dondo, Cristóvão Soares, que se mantém firme e coeso, apesar do abandono de alguns membros que decidiram filiar-se a outras formações políticas.

O dirigente assegurou ainda que, no Dondo, todos os militantes da Renamo apoiam o presidente Ossufo Momade, e que o partido continua a pautar-se pela democracia interna e pelo respeito à sua liderança.

“Não há nenhum elemento no Dondo que não queira o Ossufo Momade. Quem é da Renamo está com o presidente, o único a dirigir os caminhos do partido. Quando chegar o congresso, poderemos eleger outro presidente, mas neste momento seguimos e respeitamos o nosso líder”, reforçou.

Questionado sobre a alegada ausência da Renamo nas auscultações públicas no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, o delegado negou tal informação e afirmou que o partido tem participado sempre que é convidado.

“Participamos em todos os locais onde a Renamo é convidada. Estamos prontos para colaborar pelo desenvolvimento de Moçambique”, concluiu.

A Renamo no Dondo celebrou há dias a comemoração dos 46 anos após a morte do seu primeiro líder, André Matsangaisse, que iniciou a luta política em Moçambique. (Narcísio Cantanha).

Rio Zambeze: Mais um ataque de menor por crocodilo em Chemba

O distrito de Chemba, província de Sofala, voltou a ser palco de mais um trágico ataque de crocodilo nas águas do rio Zambeze. O corpo da criança foi recuperado horas depois, sem vida.

O incidente ocorreu na passada sexta-feira, numa ilhota chamada Utiritiri, quando o menor de 9 anos foi surpreendido por um crocodilo enquanto se encontrava próximo de um curso de água.

Relatos locais indicam que houve pronta intervenção de homens que estiveram no local. Procuraram pelo menino na água, mas recuperaram o corpo sem vida. Aliás, uns dizem que houve luta com o crocodilo, até largar o menor.

A situação gerou alarme entre a população e mereceu destaque durante a sessão do Diálogo Nacional Político Inclusivo realizada no sábado, na vila-sede de Chemba. Na ocasião, o administrador do distrito, Bento Conde Zeca, manifestou profunda preocupação com os ataques, apelando ao reforço das acções de prevenção, vigilância e educação comunitária, especialmente nas zonas ribeirinhas.

O Serviço Distrital de Actividades Económicas (SDAE), em coordenação com os órgãos de gestão da fauna bravia, foi mobilizado para averiguar o caso e delinear estratégias de mitigação, incluindo campanhas de sensibilização e possíveis medidas de controlo da população de crocodilos nas áreas de maior risco.

As autoridades reforçam o apelo à população para evitar o acesso às margens dos rios sem vigilância e continuar a reportar qualquer avistamento suspeito de animais perigosos, de modo a prevenir perdas humanas.

O outro ataque registado neste ano foi no dia 2 de junho, quando outro miúdo de 6 anos se encontrava a brincar com amiguinhos no areal. Ao lado, estava a mãe da vítima e sua amiga lavando roupas na margem das águas do rio Zambeze, na ilha de Madagáscar. De repente o crocodilo atacou, arrastando-o para as águas profundas. O corpo não foi achado.

Refira-se que em 2024, foram abatidos mais de dois crocodilos em menos de três semanas, supostamente problemáticos e supersticiosos, principalmente, na lagoa Ntunga. Depois dos vários ataques anteriores, um crocodilo chegou a levar botija de agua, confundindo ser pessoa, aumentando assim, as alegacões de superstição.

Através de anzóis, rede e carne de cão, os malawianos abateram os animais. Entretanto, o abate dos crocodilos levanta uma discussão. Uns pela falta de provas de se realmente se trata de animais problemáticos e supersticiosos e se matar seria a solução dos ataques recorrentemente reportados.

Na semana passada, Chemba recebeu uma equipa técnica do Censo Nacional de Elefantes e grandes mamíferos, no âmbito da iniciativa para o levantamento da fauna bravia, cujo objectivo é de compreender melhor a dinâmica destas populações dentro e fora das áreas de conservação, estrategicamente, ajudando na mitigação de futuros conflitos. (Rosário Phoinde).

Gabriel Júnior, o Ministro das viúvas, das dores e das vergonhas do Estado

Em Moçambique já nem é preciso governo, porque o filho do povo virou tudo: é Ministro das Viúvas, Secretário das Lágrimas e Director-Geral da Esperança Perdida. O Estado? Esse está de licença sem vencimento desde 1975, só aparece para cortar fitas e prometer reabilitar estradas imaginárias.

Ajudas!

Primeiro, foi a viúva do Azagaia — aquele que cantava verdades até o sistema engasgar. Quando o homem partiu, o Estado desapareceu mais rápido que salário no fim do mês. Quem apareceu? Gabriel Júnior. O homem é político, mas governa com o coração e um microfone.

Depois veio a viúva do Shottas, morto barbaramente nas manifestações ou seja, assassinado a sangue frio. O próprio antes de morrer disse à esposa: “vai procurar o filho do povo”. E ela foi. E o filho do povo fez o que o pai do povo (leia-se governo) nunca faz — ajudou. Mobilizou o povo, chorou junto, recolheu contribuições, e ainda deu entrevista com um sorriso cansado de quem já paga dívidas alheias desde a independência.

Agora, mais fresco que pão de manhã, Gabriel ajudou a viúva do “advogado do povo”, o Dr. Elvino Dias, que levou 25 tiros a queima-roupa. Vinte e cinco! Parece que até o silêncio do Estado foi alvejado, porque até hoje nada foi esclarecido. Enquanto isso, o Moçambique em Concerto virou o Ministério das Obras Humanas — uma espécie de INAS paralelo, só que com alma e sem fundos públicos.

Este homem, sem orçamento do Estado, envia doentes para tratamento na Índia! Imagine só: o governo nem consegue mandar ambulância de Nampula para Maputo, mas Gabriel manda gente para Mumbai! E o mais bonito é que faz isso com boa vontade e uma lágrima contida, enquanto o governo finge que governa e o povo finge que acredita.

Se o bom senso tivesse carteira profissional, já teria fugido do país. Porque é vergonhoso ver um cidadão fazer o trabalho de um Estado inteiro — e ainda ser acusado de “politizar a dor”. Politizar a dor? Quem politiza a dor é quem a ignora!

Gabriel Júnior é o único moçambicano que trabalha de graça, dorme mal, e ainda é amado por isso. Se amanhã ele decidir ser Presidente, nem precisa de campanha: basta dizer “Boa noite, meus concidadãos” e o país inteiro vai responder “Amém, filho do povo!”

Enquanto os ministros estão ocupados a inaugurar placas, viajar para fora do país, fermentar relatórios, exigir regalias, montar discursos nas televisões, ele inaugura esperanças. E se continuar assim, o dia não está longe em que o povo vai cantar: “Gabriel Júnior, nosso guia supremo da empatia nacional”.

E o Estado? Continua lá, sentado, com cara de quem perdeu o manual do dever.

Diálogo Nacional Inclusivo já em Chemba

O distrito de Chemba foi palco, neste sábado, de uma marcante sessão de Diálogo Nacional Inclusivo, uma iniciativa de auscultação que visa reforçar os pilares da reconciliação, da coesão social e da participação cidadã para a construção de uma nação mais justa e inclusiva.

O encontro decorreu num ambiente de abertura e escuta activa, com a participação de representantes de partidos políticos, líderes comunitários e religiosos, jovens, mulheres e membros diversos da sociedade civil.

Durante a sessão, foram discutidos temas centrais como governação participativa, justiça social, inclusão política e desenvolvimento sustentável, com os participantes a apelarem à necessidade de garantir que todas as vozes sejam ouvidas e tidas em conta nos processos de tomada de decisão nacional.

Na sessão, entre as propostas apresentadas destacou-se a indicação de administradores distritais e directores de serviços com base em critérios de competência e mérito, não apenas confiança; a eleição de comandantes distritais com participação comunitária; que os concursos públicos de obras sejam lançados e monitorados localmente, com penalizações para empreiteiros incumpridores; igualdade no acesso a subsídios e salários no sector dos recursos naturais; reserva de 50% das vagas de emprego para jovens empreendedores e empresários locais; pausa na exploração de recursos naturais renováveis, garantindo sustentabilidade; redução da centralização do poder estatal, incluindo a proposta de que o Presidente da República deixe de nomear magistrados da justiça; e revisão da legislação eleitoral, com destaque para a divulgação imediata e electrónica dos resultados eleitorais no próprio dia da votação.

A sessão foi moderada pelo coordenador Nacional da Sociedade Civil, Prof. António Chipanga, e pela vice-coordenadora provincial de Sofala, Muna Cassamo, entre outros representantes da comissão técnica nacional de diálogo político.

Em declarações à imprensa, Muna Cassamo fez uma avaliação positiva da participação em Chemba, considerando-a superior relativamente a outros distritos e classificando-a como “frutífera e promissora”.

A responsável destacou ainda o envolvimento activo dos diferentes segmentos sociais como sinal de maturidade política e compromisso com o futuro do país. (Rosário Phoinde).

Acidente de viação mata uma pessoa e fere outras 21 em Dondo

Um acidente de viação registado ontem, sexta-feira, matou uma pessoa e feriu outras 21 na Estrada Nacional Número Seis (EN6), no troço entre Mútua e Bloco 12, no trajecto Beira – Inchope, ainda no distrito do Dondo, província de Sofala.

A viatura “Quantum” capotou várias vezes após rebentar um dos pneus, quando circulava em excesso de velocidade, fazendo-lhe perder o controlo. No local, uma pessoa perdeu a vida devido à gravidade dos ferimentos.

Dos 21 ocupantes, cinco sofreram ferimentos ligeiros e receberam atendimento no Hospital Rural do Dondo. As restantes vítimas foram transferidas para o Hospital Central da Beira, capital de Sofala, para cuidados médicos intensivos.

O sinistro aconteceu quando o veículo, de transporte semicolectivo, seguia em alta velocidade, contou uma das vítimas com ferimentos ligeiros, Oleria David.

“Eu subi na balança, ia para Tica. Depois de chegarmos à Mutua, o motorista parou e levou três passageiros. A velocidade era muito alta. Passámos Tica e, já no Bloco 12, o pneu rebentou. Não vi mais nada, o carro começou a virar. Quando o cobrador abriu a porta, agarrei a camisa dele até o carro capotar na vala”, contou visivelmente abalada.

O director do Serviço Distrital de Saúde, Mulher e Acção Social do Dondo, Azarias Manhenje, confirmou a entrada de 21 vítimas no Centro de Saúde do Dondo.

“Entre os feridos, temos duas crianças, dez mulheres e nove homens. [Deste número] transferimos 16 para o Hospital Central da Beira, devido à gravidade dos ferimentos, e cinco com ferimentos ligeiros já receberam alta”, explicou Azarias Manhenje.

O responsável acrescentou que uma das crianças transferidas está em estado grave e outra apresenta suspeitas de fractura.

“Como não dispomos de aparelho de raio-x, entre outros serviços especializados, transferimos sempre os casos mais graves para o Hospital Central da Beira. Dos feridos graves, nenhum apresenta necessidade de amputação, embora existam fracturas expostas. Tivemos ainda um óbito extra-hospitalar, um homem que perdeu a vida no local do acidente”, esclareceu.

Manhenje apelou aos motoristas para uma condução prudente e defensiva, de modo a evitar mortes. (Narcísio Cantanha).

Clube da Rapariga: Um refúgio e esperança de milhares das comunidades pela Gorongosa

O Parque Nacional da Gorongosa (PNG) juntou centenas raparigas acompanhadas de madrinhas e promotores representantes dos seis distritos nomeadamente Nhamatanda, Gorongosa, Cheringoma, Muanza, Dondo e Maringué, no Dia Internacional da Rapariga, 11 de Outubro, para partilharem ideias inspiradoras e decidirem de olho para olho “sou rapariga, sou mudança, tenho sonhos, sou importante, sou capaz e acredito”.

Na Zona de Desenvolvimento Sustentável do Parque Nacional da Gorongosa, a lista de violações de direitos inclui uniões prematuras, gravidez indesejada de menores, violência doméstica, violência baseada no género e abuso sexual. Contra estes males que vitimizam as raparigas, o Parque viu-se obrigado a criar mecanismos de intervenção estratégica. Assim nasceu o Programa Clubes da Rapariga.

O Parque Nacional da Gorongosa continua a expandir as suas iniciativas, impactando raparigas da sua Zona de Desenvolvimento Sustentável. São 9 anos com o Clube de Raparigas iniciado em 2016.

Segundo a gestora do Clube de Rapariga, Joana Dinis, o Programa trabalha em estreita colaboração com as Escolas, Serviços Sociais e Polícia, capacitando Conselhos de Escola e Comités de Protecção da Criança, divulgando a Lei n.º 19/2019 – Prevenção e Combate às Uniões Prematuras em Moçambique, de 22 de Outubro de 2024, mecanismos de denúncia e apoio a vítimas e resgate da rapariga em risco.

O Clube da Rapariga não é simples lugar onde as meninas aprendem conteúdos de literacia, numeracia, mas também a diversificação de habilidades para a vida, aprendem a sonhar e a seguir sonhos, a se inspirar, a dizer não a união forçada e prematura. Afinal, serve de refúgio para quem pensa que o mundo é tão cruel sem saída.

O Clube da Rapariga, também inclui as meninas arrependidas por decisões anteriores decepcionantes, mas que agora servem de exemplos práticos para as outras a seguirem os sonhos.

Além das capacitações, o Parque tem apoiado na disponibilização de recursos para urgência de vítimas. Por exemplo, em 2024, o Programa Clube de Rapariga esteve envolvido directamente na denúncia e seguimento de 57 casos de risco de união prematura, violência doméstica e/ou sexual. Dois casos ocorreram o ano passado, um em Casa Banana e outro em Vunduzi, ambos casos de violação sexual contra raparigas menores.

As autoridades não têm recursos e meios para chegar muitas vezes a comunidades mais distantes, e em ambos os casos, de extrema urgência, o Parque comparticipou com o combustível para as viaturas chegarem e levarem os perpetuadores à justiça.

O Programa Clubes da Rapariga combina iniciativas de educação e conservação ambiental, para que as comunidades sejam actores de mudança localmente.

Inicialmente com um Clube, hoje, o Parque conta com 102 Clubes em 95 escolas, abrangendo os seis distritos da sua Zona de Desenvolvimento Sustentável.

Segundo a gestora do Programa, “cada Clube da Rapariga conta com 50 membros, sendo 40 raparigas e dez rapazes”, portanto, mais de 5 mil crianças beneficiam dessas iniciativas.

Dos 102 Clubes disponíveis em diferentes comunidades, 45 são apoiados pela Carr Foundation, 45 pela Noruega, seis pelo Canadá e seis pela Alexander Gruner Foundation.

No Clube da Rapariga, “desde cedo, começamos a atribuir bolsas para o ensino secundário. Em 2025, temos 108 bolsas ativas, sendo 68 bolseiras no distrito de Gorongosa e 40 raparigas no distrito de Cheringoma”, disse Joana Dinis, incluindo meninos.

Os bolseiros resultam de critérios de vulnerabilidade e interesse de aprendizagem, enquanto frequentam o ensino primário.

Continuam os esforços da Gorongosa. Raramente as raparigas desperdiçam a oportunidade. Mas este ano, uma rapariga perdeu a bolsa depois de engravidar com 21 anos ainda na 11.ª Classe, em Gorongosa. Uma vez dada a bolsa, rapariga assina um documento de compromisso com a bolsa. Não pode falhar o ano escolar (reprovar ou chumbar) e não pode engravidar, senão perde o direito à bolsa. Desperdiçou porque sem aquele apoio, “muito provavelmente não estaria na escola [secundária] ”.

Das centenas de raparigas participantes das comemorações do Dia Internacional da Rapariga, 11 de Outubro, em Chitengo (Gorongosa), 15 são finalistas bolseiras. Então, o lugar delas será atribuído a outras necessitadas.

 

“Tenho sonhos, sou importante, capaz e acredito”

Elisa Chico Bonjesse tem histórico, desde que o Clube da Rapariga iniciou em 2016. Foi a primeira pessoa a ingressar na iniciativa quando estava no ensino primário. Hoje, é finalista da 12.ª Classe pela bolsa de estudos.

Muitas meninas que ingressaram no Clube da Rapariga na época da Luísa Chico, “abandonaram o ensino primário para se unirem prematuramente, assumindo o papel de mãe, esposas e noras, mas hoje estão arrependidas”, disse.

“Se tem objectivo deve dizer, sempre, eu consigo. Não duvidar naquilo que está na tua mente. Dar vontade aos pais” e a Gorongosa pelo apoio.

Hoje, Elisa Chico Bonjesse projecta-se para ser jornalista e inspirar outras.

Zelita Elísio Manuel ingressou ao Clube em 2018. Negou se unir prematuramente para estudar.

Quando fazia a 6.ª Classe teve histórico igual da Luísa sobre o Parque, mas continuou a confiar até ganhar a bolsa de estudos com a qual hoje faz a 12.ª Classe.

Rapariga, “não siga o que as pessoas dizem [de errado]. Continue com o teu sonho, não case cedo e continue a estudar”, aconselhou Zelita.

Hoje, Zelita Elísio Manuel projecta-se para ser professora da sua comunidade.

O Clube da Rapariga é apoiado pela Carr Foundation como o principal doador e financiador das iniciativas do PNG, pela Embaixada da Noruega em Moçambique, pela Embaixada do Canadá em Moçambique e pela Alexander Gruner Foundation. (Muamine Benjamim).

INGD Sofala prepara-se para época chuvosa 2025–2026

O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) está a intensificar os exercícios de simulação, preparando-se para a época chuvosa. Sob o lema “Financiamento da resiliência, não dos desastres”, a iniciativa inseriu-se no âmbito das celebrações do Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres, assinalado a 13 de outubro.

Na ocasião, o delegado provincial do INGD em Sofala, Aristides Armando, avançou que as simulações visam testar os mecanismos de resposta e garantir que as comunidades saibam como agir em situações de emergência, reduzindo o impacto de cheias, ventos fortes e climas extremos.

“Estamos a treinar e a capacitar as comunidades para que saibam reagir de forma organizada e segura quando ocorrerem eventos adversos”, disse Armando.

O plano de contingência provincial já foi aprovado, encontrando-se em fase de implementação das actividades de resposta.

Sofala conta com 258 comités locais de gestão de riscos e desastres e 20 comités escolares, juntando cerca de cinco mil membros activos.

“Há uma probabilidade alta de risco para a cidade da Beira, razão pela qual a nossa maior atenção está concentrada neste ponto da província, embora o trabalho decorra em todos os distritos”, explicou o delegado.

Os exercícios de simulação também decorrem nos distritos de Gorongosa e Maringué, e a capacitar os comités distritais. “Na semana passada capacitámos técnicos de Cheringoma, e esta semana será a vez de Maringué, Machanga e Marromeu”, acrescentou.

Apoio às famílias afectadas

Nos últimos dias, um vendaval no distrito de Chemba provocou a destruição parcial de três casas e a queda de várias árvores, mas as famílias afectadas já receberam assistência e a situação foi normalizada.

O delegado revelou que mil famílias de Maringué serão beneficiadas de valores monetários de 3.500 meticais através do Programa PENURE, enquanto outras 1.500 famílias afectadas pelo Ciclone Jude em Cheringoma, Muanza e Marromeu já receberam produtos alimentares com apoio do Programa Mundial de Alimentação (PMA).

“O impacto do El Niño reduziu a precipitação e criou bolsas de fome, mas o sector agrícola está a recuperar. Continuamos a prestar assistência pontual às famílias em situação de vulnerabilidade”, sublinhou.

O plano de contingência provincial será submetido ao Conselho de Ministros e, após aprovação, contará com o apoio de parceiros internacionais, que manifestaram interesse em reforçar as acções de mitigação e resposta.

“Estamos confiantes de que as medidas em curso permitirão uma resposta eficiente e eficaz aos fenómenos previstos para a época chuvosa 2025–2026”, concluiu o delegado provincial do INGD em Sofala.

O INGD avança acções em vários distritos da província de Sofala, com destaque para Búzi, Nhamatanda, Dondo e Beira, onde as equipas técnicas estão a realizar exercícios de evacuação, primeiros socorros e comunicação em emergências decorrentes das chuvas dos meses de outubro 2025 a março 2026. (Narcísio Cantanha).

 

Seis detidos por furto em Búzi

Seis moçambicanos de entre 17 e 49 anos estão detidos no distrito de Búzi, província de Sofala, acusados de furto de bens.

A detenção ocorreu no dia 10 de outubro do ano em curso, no bairro da Companhia de Búzi, depois de uma investigação resultante de queixas apresentadas pelas vítimas de agosto a setembro.

Durante as detenções, igualmente foram apreendidos diversos bens, entre os quais três telemóveis, dois televisores plasma e dois aparelhos de som.

Alguns bens foram recuperados na cidade da Beira, capital de Sofala, tinham sido vendidos no bairro de Macurrungo.

“Eu comprei o telefone, mas não sabia que era roubado. Comprei com o Paulo, por isso é que estou aqui”, disse um dos detidos, negando o seu envolvimento neste tipo de crime.

O porta-voz do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) em Sofala, Alfeu Sitoe, explicou que as diligências realizadas culminaram com a detenção dos seis indivíduos e a apreensão de vários electrodomésticos, entre os quais um aparelho de som, três telemóveis das marcas Samsung, Redmi e Infinix, bem como dois televisores plasma.

“Conseguimos recuperar dois computadores portáteis, das marcas HP e Acer, além de mais dois telemóveis — um da marca Redmi e outro Samsung”, totalizando cinco telemóveis recuperados.

As autoridades garantem que as investigações continuam para identificar e responsabilizar outros possíveis envolvidos na rede de furtos.

“Queremos apelar à população para reforçar as medidas de segurança nas suas residências, certificando-se de que portas e janelas estejam bem trancadas durante a noite”.

O SERNIC apela vigilância popular e denúncia de qualquer acto suspeito. (Narcísio Cantanha).

Quando a igreja volta a falar, o país precisa ouvir

Os bispos moçambicanos merecem reconhecimento — não apenas pela cartilha que escreveram, mas pela coragem de voltar a dizer o óbvio…

Há tempos que Moçambique vive entre o murmúrio e o silêncio. O murmúrio do povo cansado e o silêncio das instituições que deveriam protegê-lo. Quando a fome invade as casas, quando a violência política sufoca a esperança e quando o jovem já não crê nas promessas que se repetem, resta pouco espaço para o diálogo. É nesse vazio que a Igreja Católica reaparece, não apenas como templo, mas como consciência — e lança a Cartilha Política para o Diálogo Nacional, um documento que pede mais do que palavras: pede coragem.

A Igreja, que tantas vezes foi refúgio espiritual, agora propõe-se a ser também farol cívico. A sua voz, que durante algum tempo pareceu discreta, emerge com força num país em que a fé convive com a fome e a crença se mistura ao desencanto. Com esta cartilha, os bispos desafiam o povo moçambicano a repensar o destino da nação — não como súbditos, mas como cidadãos.

Há algo de profundamente simbólico neste gesto. Quando o púlpito se transforma em tribuna moral, a palavra litúrgica ganha contorno político — não partidário, mas ético. A Igreja lembra que a democracia é vazia se o cidadão continua invisível, e que a paz é frágil se não cura as feridas da injustiça. A sua mensagem é clara: o Evangelho que não desce à rua e não se mistura ao pó das aldeias é apenas retórica sagrada.

No coração do documento está a provocação mais necessária de todas: colocar o ser humano no centro das decisões políticas. Um país que mede o sucesso em cifras, mas ignora o sofrimento real, adoece em sua alma. E quando o lucro fala mais alto que a vida, é a moral que empobrece. A Igreja, nesse ponto, faz o papel que o Estado esqueceu — lembra que o poder é serviço, e que a economia, se não é humana, é desumana.

Mas há também autocrítica implícita. Ao levantar-se agora, a Igreja parece reconhecer que demorou a reagir quando o sangue dos manifestantes manchou as ruas e o medo tomou as praças. Essa demora, ainda que compreensível, pesou como silêncio cúmplice. Contudo, é justamente por isso que o gesto actual tem força: porque fala depois da pausa, e porque sabe o valor de quebrar o silêncio.

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” — o mandamento de Jesus soa, aqui, como lembrete e desafio. A César, a responsabilidade pelo Estado; a Deus, a inspiração moral que deve guiar os homens. Mas quando César esquece o seu dever, é justo que Deus fale pelos seus profetas — e os bispos, ao erguerem a voz, cumprem esse papel.

Num tempo de desencanto e desconfiança, em que a política se tornou espectáculo e a pobreza rotina, a Igreja Católica oferece o que mais falta: uma convocação à consciência. Pode não mudar tudo, mas reabre o debate, reacende a fé pública e, sobretudo, devolve ao povo o direito de sonhar com um país reconciliado.

Os bispos moçambicanos merecem reconhecimento — não apenas pela cartilha que escreveram, mas pela coragem de voltar a dizer o óbvio: que justiça e fé não se excluem, e que o silêncio diante da dor é a pior das heresias. Que a sua voz ecoe, não como sermão, mas como semente. Porque um país só se reinventa quando ouve, de novo, a voz do seu pastor.

HOJE É DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO — e o menu nacional é vento com molho de promessas

Dezoito milhões de moçambicanos sem alimentação nutritiva, segundo o Programa Mundial de Alimentação (PMA). É tanto estômago vazio que, se todos arrotassem ao mesmo tempo, talvez chovesse. Os pais vão dormir sem saber o que os filhos vão comer — e, se sonham com comida, já é um avanço no cardápio do dia.

Mais de uma em cada três crianças tem o crescimento comprometido. O corpo não cresce, o cérebro não se desenvolve, mas os relatórios de combate à pobreza esses sim — crescem que é uma beleza. A fome virou estatística, e estatística, como se sabe, não sente dor.

Mas calma: nossos governantes estão preocupadíssimos. Tanto que criaram novas comissões, realizaram seminários e publicaram notas de repúdio à fome — tudo muito nutritivo, claro, para quem se alimenta de discursos. Enquanto isso, o povo mastiga paciência e engole saliva.

E a prova de que o estômago já perdeu a diplomacia veio de Muecate. No Dia Mundial da Alimentação, o povo invadiu os armazéns do INGD e levou todos os sacos de arroz. Não foi assalto. Foi grito. Foi o desespero a dizer: “Se o Estado não nos alimenta, comemos o que encontrarmos.” Aquilo não é fome apenas — é o corpo em revolta, é a incerteza do futuro a abrir a boca e morder o presente.

Enquanto isso, em Maputo, alguém há de ter dito com ar sério: “Precisamos investigar o incidente.” Investigar o quê? A fome? O estômago vazio não precisa de inquérito, precisa de comida. O povo não invadiu os armazéns por maldade, invadiu porque o estômago não respeita protocolo nem decreto.

É por isso que, quando falamos de corrupção, o tom de voz sobe. E não é teatro, é refluxo moral. Porque cada centavo desviado é uma colher de sopa arrancada da boca de alguém. Só que no país do “estamos a trabalhar”, o verbo trabalhar foi trocado pelo verbo mastigar fundos públicos.

Feuerbach dizia que “o homem é aquilo que come”. Pois olhem à volta: uns comem lagosta, outros comem vento. Uns digerem contractos públicos, outros digerem a própria miséria. Resultado? Temos uma elite gorda de privilégios e um povo magro de esperança.

A desigualdade aqui é tão grande que dá para ver a olho nu — sem telescópio, sem lupa, basta abrir a janela. O país parece um banquete onde meia dúzia come e o resto assiste com prato na mão, esperando o resto da sobremesa.

Mas a fome é paciente. Espera calada, até o dia em que a panela ferve. E quando ferver, não há polícia, nem discurso, nem blindado que segure. Porque barriga vazia é revolucionária — e não vota em quem promete pão e entrega pedra.

Hoje é Dia Mundial da Alimentação. Há quem comemore com discursos; há quem comemore com marmitas de luxo em nome do povo. E há o povo — que comemora sobrevivendo.

No fundo, “o homem é aquilo que come”. E o que Moçambique anda a comer — corrupção, desigualdade e cinismo — está a dar uma indigestão nacional. Se continuar assim, o único prato cheio do país será o prato da vergonha.

E como diria o chef do poder: “Para hoje temos promessas grelhadas com molho de impunidade. Sirvam-se, enquanto ainda há fome.”

Jornal Profundus

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