NHAMATANDA: Marcado culto de libertação contra desmaios de alunos para próxima semana

A Direcção da Escola Secundária Geral de Nhamatanda convoca todos os alunos da 7.ª classe à 12.ª classe do curso diurno e nocturno e todos os professores e funcionários da Secretaria, a participarem no culto de “oração e libertação”, a ter lugar na próxima segunda-feira, dia 21 de julho de 2025, pelas 7h, no recinto escolar, a ser dirigido por pastores provenientes do vizinho Zimbabwe.

“A participação de todos os alunos, professores e funcionários da Secretaria da Escola é de extrema importância e obrigatória”, lê-se na convocatória de hoje, a que o “Profundus” teve acesso.

Esta actividade enquadra-se nos esforços do Governo de Nhamatanda para resolver o problema de desmaio.

O “Profundus” sabe que os pastores provenientes de Zimbabwe já estão a fazer alguns trabalhos naquela escola.

Desde última quinta-feira, a Escola Secundária Geral de Nhamatanda (ESGN) decidiu interromper aulas de duas semanas, na esperança de ver os educandos a voltarem a estudar num ambiente sem delírios, agressões físicas e destruições cujas vítimas são os próprios alunos por motivos ainda não conhecidos.

Os alunos voltarão no final deste mês para iniciar as Avaliações Provinciais (AP). Esta decisão é o resultado de uma orientação do Governo local.

Uma das alunas da ESGN, com delírios no dia 13 de junho de 2025

As tentativas de solução não começaram hoje. Os recentes convites apontam um grupo de pastores de diferentes igrejas de Nhamatanda que deveria realizar um “culto de libertação”, mas ninguém foi “liberto” e nem tempo para tal. Antes mesmo de o fazerem, no dia 13 de junho, à noite, cerca de sete alunas começaram com os delírios danificando tudo a sua volta, gritando, por vezes falando línguas estranhas, mencionando nomes de alguns professores que supostamente teriam feito algum feitiço ali e ameaçando pessoas nas principais vias de acesso à escola. Não houve oração, senão fuga.

Entretanto, a recente paralisação de aulas resulta de uma comissão já criada no dia 4 do mês corrente, incluindo agentes da saúde, pastores e líderes comunitários, para em dez dias apresentarem propostas contra desmaios na ESGN.

É um assunto receoso para alguém se dar o luxo de comentar para publicações, até porque o já tem barbas “brancas”.

De 2022 a esta parte, a escola soma cerca de 60 alunos vítimas, sendo cinco rapazes.

Enquanto os delírios continuarem naquela escola, o fim das aulas não dependerá de horários, mas sim de desmaios, agressões físicas e destruição de bens materiais através de alunos. (Muamine Benjamim).

Chemba avança para XIV edição do Café de Ciências

Hoje, o distrito de Chemba realiza a XIV Edição do Café de Ciências, um espaço de reflexão e debate académico que reúne gestores das escolas, membros do governo distrital, estudantes e convidados.

Os participantes discutem temas cruciais que afectam o sistema educativo e o bem-estar social, em Chemba. Entre os assuntos abordados destacam-se: o impacto do professor à distância na qualidade do ensino e aprendizagem; o consumo de drogas e seus efeitos na saúde e no desenvolvimento socioeconómico; a liderança, as redes sociais e o comportamento humano; os benefícios da segurança social obrigatória; a educação financeira na estabilidade familiar; estratégias de ensino, integração da tecnologia no processo educativo; e os desafios da aprendizagem nas zonas rurais.

No discurso de abertura do evento, o director Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia (SDEJT) de Chemba, João Fernando Sadique Paulino, louvo a participação dos intervenientes e a importância do Café de Ciências na promoção de uma cultura de diálogo, investigação e inovação no seio das Escolas.

“Este encontro é uma oportunidade para reforçarmos a nossa missão educativa, encorajando o pensamento crítico e o intercâmbio de ideias que enriquecem a prática pedagógica”.

O Café de Ciências é uma plataforma de diálogo e reflexão onde se partilham experiências, metodologias e inovações no campo da educação e da ciência. (Rosário Phoinde).

Moçambique sem destino para os jovens

Por Rosário Ntepa

Moçambique, como muitas nações em desenvolvimento, enfrenta um desafio que cresce silenciosamente: a falta de um destino claro para os seus jovens. A juventude, força vital de qualquer nação, vive mergulhada numa névoa de incertezas, promessas não cumpridas e oportunidades que nunca chegam.

Os jovens saem das escolas com diplomas na mão e sonhos nos olhos, mas o mercado de trabalho fecha as portas. As instituições públicas, muitas vezes corrompidas e ineficientes não oferecem mecanismos reais de inserção profissional. Os programas de empreendedorismo, apesar de anunciados com pompa, raramente chegam aos que mais precisam.

A frustração cresce e, com ela, o risco de se perder uma geração inteira — uma geração empurrada para a informalidade, para a emigração forçada ou para escolhas perigosas.

Um país sem políticas claras para seus jovens é um país sem futuro. Não basta apelar ao patriotismo ou à paciência. É urgente criar caminhos reais, investir em educação de qualidade, fomentar inovação e oferecer esperança concreta.

Porque se o país não oferece destino aos seus jovens, os jovens acabarão por dar outro destino ao país — e nem sempre será o melhor.

Lixo: A imagem habitual de mil palavras de Cheringoma

A vila de Inhaminga, a capital do distrito de Cheringoma na região norte de Sofala está a viver momentos menos bons devido à fraca capacidade de recolha e tratamento de resíduos. E do outro lado, a malária ganha espaço com registo médio de 72 casos diários.

O distrito de Cheringoma, especificamente, a vila de Inhaminga é o centro de todo tipo de actividades de saneamento, conservação ambiental e engajamento comunitário e outras áreas, envolvendo capacitações, principalmente promovidas pelo Parque Nacional da Gorongosa.

São actividades recentemente implementadas em datas comemorativas, Dia Mundial da Floresta, 21 de Março; Dia Mundial da Biodiversidade, 22 de Maio; e Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de Junho, nas quais parceiros como o Parque Nacional da Gorongosa e o Governo de Cheringoma promovem actividades de saneamento, além de que existem também acções temporárias com o Clube de Jovens e Clube Ambiental. Mas o que se vê nas artérias da Vila de Inhaminga tende a não efectiva mente espelhar estas aprendizagens e experiências. Seria pela insuficiência de recursos de quem deve mobilizar acções concretas, desleixo ou insuficiência de estratégias de actuação para garantir a “casa do actual Presidente, Daniel Chapo, atractiva pela beleza?

O director distrital do Serviço de Planeamento e Infra-estruturas (SDPI) – Cheringoma, em contacto telefónico, disse que está a reinventar-se para garantir o seu funcionamento. E já no segundo semestre de 2025, ainda não recebeu nenhuma dotação orçamental para o seu funcionamento.

Já o chefe da Repartição de Gestão Ambiental no SDPI, Inoque Manuel Nota, evoca a exiguidade de recursos humanos, financeiros e materiais para um trabalho mais eficiente. Entretanto, com as condições locais e cooperação institucional é possível fazer mudanças de impacto visual de Inhaminga.

Com efeito, em quase todas as esquinas da Vila de Inhaminga, encontram-se entulhos de lixo que tempos em tempos são in cinerados em plena luz do dia, in dependentemente dos efeitos colaterais do tal acto.

Os locais onde menos se imagina que poderiam ser repositórios de lixo incluem as bermas da Estrada Nacional Número 282, no troço que atravessa a vila, a Praça dos Continuadores, a rua que passa em frente ao Banco local, e que mais adiante passa ao lado da Escola Básica 25 de Setembro, atravessando de pois a Rua número 1, assim como um espaço adjacente a um empreendi mento hoteleiro em frente ao edifício do Governo. Neste último e porque o lixo é incinerado em plena luz do dia o fumo alcança o edifício do governo distrital o que logicamente afecta os funcionários e os demais no local. São locais de privilégio, mas o lixo tem os seus efeitos por conta da acção humana.

Contudo, a explicação oficial indica que esses são alguns dos lugares transitórios de deposição de lixo que por vezes é removido para a lixeira distrital situada a uns seis quilómetros da sede distrital.

Outros focos de depósito de lixo que destoam situam-se junto às bancas próximo da estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique, o local que serve como paragem de viaturas para a cidade da Beira e dentro do perímetro do mercado local mais concretamente à volta do único balneário público onde contrariamente às informações do Chefe da Repartição de Gestão Ambiental o lixo fica por mui to tempo indicando como espaço de deposição definitiva.

Chama ainda atenção o caso da parte traseira dos alpendres que funcionam como oficinas de motorizadas e bicicletas próximo da passagem de nível. Neste lo cal, sob pretexto de tapar uma cova que havia, vai sen do entulhado mui to lixo até fora da área que era a tal cova.

Estranhamente os que trabalham no local não aceitaram registar suas imagens nem declarar a sua identificação, mas sob anonimato lamentaram a atitude, condenando a deposição de lixo bem perto do local onde exercem as suas actividades. “Para aqui, são trazidos os mais diversos tipos de resíduos. Fraldas descartáveis, produtos em putrefacção e mais coisas que quando chove causam-nos um mal-estar devido ao cheiro nauseabundo que se liberta” foram as declarações de uma senhora que vende produtos comestíveis por perto. Saúde pública em causa.

Mais para o centro da vila, um cidadão que também preferiu o anonimato disse que perto do local onde pratica as suas actividades de venda, há muito lixo que é acumulado. “A recolha que se faz só é aparente. Na parte traseira destas barracas há muito lixo acumulado que nos in comoda pelo mau cheiro, mas não podemos falar pois corremos o risco de sermos rotula dos”.

Há uma saída com a Gorongosa

 

O PNG, através do seu gestor de Educação, de Zondai Hlungwani, destaca a sua participação em campanhas de limpeza, ensina aos alunos de algumas Escolas Primárias como aproveitar aquilo que habitualmente se descarta como é o caso de garrafas plásticas e de vidro bem como a produção de carvão a partir de papel.

Já no Centro de Educação Comunitária construí do pelo PNG a ser inaugurado em breve, vai fazer o processamento de resíduos para produzir compostos que mais tarde serão utilizados como fertilizantes na produção de hortícolas no mesmo lo cal

 

Árvores de sombra, poda ou mutilação?

Inhaminga, que já ocupou o lugar de segunda cidade da província de Sofala depois da Beira, tem um dos melhores desenhos de ordenamento. Nessa altura a cidade era dividida em duas zonas distintas:

A Este pertencente à companhia privada ferroviária Trans-Zambeze-Railways Com pany (TZR) que mais tarde seria intervencionada pelos Caminhos de Ferro de Moçambique que herdaram todo o seu património local. As ruas deste lado da vila eram todas asfalta das e estão ladeadas de árvores de sombra, acácias maioritariamente, raras são as lembranças do ano em que foram poda das, para dar espaço aos candeeiros públicos, pois, já ofuscam a iluminação das ruas.

Do lado Oeste da vila, onde predo mina o comércio, apenas uma rua está asfaltada. Há acácias, umas novas, outras nem tanto. Este é o lado onde a assistência na poda é mais assídua e então levanta outro questionamento: o que é podar uma árvore de sombra? É, durante alguns meses, tirar-lhe a capacidade de dar sombra ou é eliminar os ramos e galhos que se mos trem inconvenientes?

É que quando chega a época da poda, as acácias ficam literalmente mutiladas e Inoque Nota sustenta que assim se age para evitar a queda de flores e folhas que vão constituir lixo que seria difícil de remover porque o SDPI só conta com dois funcionários para essa tarefa.

Num Distrito onde já há alguns funcionários graduados pelas Universidades deste País em Gestão Ambiental não parece fazer sentido que não sejam aproveitados esses saberes para o bem comum que seria, neste caso, manter a vila de Cheringoma linda, atractiva e bem organizada.

 

A limpeza precisa de Chapo?

Habitualmente, apesar de temporária, sempre que há visita do Chefe de Estado, o local acolhedor torna-se paraíso em um segundo. Ora, Inhaminga viu nascer o actual Presidente, Daniel Francisco Chapo. Chapo nasceu a 6 de janeiro de 1977 no posto administrativo de Inhaminga, distrito de Cheringoma, em Sofala, actual Vila de Inhaminga.

Filho de Francis co Chapo (faleci do), trabalhador ferroviário, e de Helena dos Santos Chiremba, doméstica, Daniel Chapo é o sexto filho de 10 irmãos. “Um fi lho volta à casa”, a solução dos recursos apontados pelo SDPI, será por Chapo? Do outro lado, a malária já preocupa o governo local, levando-lhe a promover palestras de boas práticas contra a doença nas comunidades, além de distribuir as redes mosquiteiras. O responsável do Programa de Controlo da Malária no Serviço Distrital de Saúde Mulher e Acção Social de Cheringoma, António Tomé Caetano, explicou que a “tendência é de aumento de casos. Todos os dias, em média, rondam 72 casos”. Só no primeiro trimestre de 2025, houve sete mortes por malária. Comparativa mente ao período de 2024, houve aumento de 90 casos em 2025. “Tive mos 6.407 e 6.497”, respectivamente, resultando, numa média diária de 72 casos de malaria, revelou António Caetano depois de uma palestra em maio. (Ricardo Mapoissa).

Iniciada a reconstrução de casas para Norte de Moçambique

As primeiras três casas das cerca de 500 projectadas para serem reconstruídas na cidade de Pemba no âmbito do “Melhoria Habitacional” do Projecto de Desenvolvimento Urbano do Norte de Moçambique (PDUNM) estão a ganhar corpo, no bairro Chuíba.

As obras das duas primeiras casas entraram para a fase de execução da betonagem dos pilares e assentamento da armadura da viga de coroamento e a terceira está na fase da amarração da viga de fundação.

As três casas integram as primeiras 25 da fase piloto do projecto.

Segundo a nota informativa do PDUNM, durante esta fase piloto, serão testadas técnicas de construção que promovem a redução de custos e tempo das obras, bem como a resiliência das habitações.

Em simultâneo, continuam as acções de selecção e treinamento prático dos artesãos, nomeadamente pedreiros, carpinteiros ajudantes de obras. Até à primeira semana de julho, tinham sido treinados 284 pessoas, sendo 222 homens e 62 mulheres.

Igualmente, continuam as actividades de selecção dos potenciais beneficiários das casas nos quatro municípios abrangidos pelo Projecto, designadamente Pemba, Montepuez, Nampula e Nacala.

Depois fase piloto, seguir-se-á a fase de reconstrução de casas em escala das cerca de duas mil previstas, envolvendo cerca de 8 mil artesãos nos quatro municípios.

O principal critério de selecção é a vulnerabilidade sócio económica, segundo critérios das instituições do Estado moçambicano, designadamente, em termos cumulativos, pobreza multidimensional, famílias vulneráveis segundo os padrões do INAS, deslocados internos e casas muito degradadas.

Alzira Picardo é a nova chefe da localidade administrativa de Mútua

Tomou posse na última sexta-feira, a nova chefe da localidade administrativa de Mútua, Alzira Picardo, substituindo Luís Damião no cargo, no posto administrativo de Mafambisse, no distrito de Dondo, província de Sofala.

O acto foi dirigido pelo administrador de Dondo, Adamo Ossumane, que desafiou a nova responsável a ser proactiva no desempenho das suas funções.

“É um sinal de amizade, confiança que desempenhou as suas funções, observando um dos pressupostos mais importantes na vida que é o humanismo e ponderação que lhe caracteriza, facto que contribuiu para o crescimento do distrito”, reconheceu Ossumane dirigindo ao antigo chefe da localidade administrativa de Mútua.

Na ocasião, o administrador fez lembrar que a recente nomeação enquadram-se nas mudanças normais de refrescante governativa e visa promover o dinamismo nos órgãos locais do Estado e do Programa Quinquenal do Governo (2025 – 2029), por isso, as funções da chefe da localidade administrativa de Mútua estão condensadas em quatro categorias: “planear, organizar, liderar e controlar”.

“Ninguém nasce sabendo tudo. Mesmo com experiência, todos precisamos de orientação e quando ela errar, aproximem-se, orientem-na, expliquem-na e só assim construiremos juntos uma localidade forte e coesa”, pediu à população para a nova chefe da localidade administrativa de Mútua.

Luís Jorge Damião vai à reforma depois de ter trabalhado por mais de 10 anos naquela localidade.

“Hoje é o fim desta nobre missão, e sinto uma grande alegria como dever cumprido. Agradeço a todos pela entrega abnegada ao longo de todo o exercício, onde a voz do comando se manifestou através de uma coordenação harmoniosa”, disse Luís Damião.

Damião disse estar disponível para apoiar no que for necessário, colocando a sua experiência à disposição da nova liderança. (Narcísio Cantanha).

Anamalala, coitado

O Conselho Constitucional moçambicano, com toda sua toga e formalidade, acaba de dar à luz uma criatura jurídica peculiar: um nado institucional com ambliopia democrática — baptizado, com ironia, de Anamalala. Nasceu de uma cesariana tardia, produto de um parto judicial forçado, e já veio ao mundo em coma induzido. O que deveria ser a manifestação do primado do direito virou um retracto da inoperância legal travestida de tecnicismo.

O documento recentemente divulgado, parte do Acórdão n.º 3/CC/2025, revela mais do que uma simples decisão jurídica. Ele desnuda o funcionamento moroso e omisso de um Estado que se esquiva de responder às demandas dos cidadãos — neste caso, o pedido de constituição de um partido político. O silêncio da administração pública, aqui justificado como “indeferimento tácito”, não é só uma abstracção legal: é o próprio Estado virando as costas à cidadania.

A decisão articula um paradoxo inquietante: ao mesmo tempo que reconhece a omissão do Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, usa essa mesma omissão como base para julgar improcedente o recurso dos recorrentes. A jurisprudência foi transformada em um labirinto onde quem entra buscando justiça encontra apenas paredes de tecnicalidades e prazos que se contradizem. O Estado, em vez de responder com clareza, escolhe calar — e o Conselho, ao invés de exigir a resposta, homologa o silêncio.

Esse “Anamalala” — nome que evoca a fragilidade de um bebé prematuro e vulnerável — simboliza o que se tornou a legalidade em Moçambique: um organismo vivo, mas sem visão, sem firmeza, sem orientação democrática. Um nado cego lançado num oceano de arbitrariedades.

Essa prática institucionalizada do “indeferimento tácito”, embora prevista legalmente, deveria ser excepção, não regra. Sua utilização como ferramenta política para evitar decisões impopulares ou polémicas enfraquece o próprio espírito da Constituição. A democracia exige coragem institucional. Exige decisões. Exige transparência.

Mais do que um parecer, o acórdão é um espelho. Nele, vemos reflectida a imagem de um país em que o direito de associação política é negado não por argumentos substantivos, mas pela inércia administrativa e pela conivência judicial. Um país onde a cidadania é respondida com silêncio e o silêncio é institucionalizado como norma.

A ambliopia do “Anamalala” é, portanto, simbólica. Representa a visão turva que as instituições têm da própria democracia. Cabe agora à sociedade civil abrir os olhos e exigir não apenas decisões, mas decisões justas, claras e corajosas. A democracia não pode sobreviver se seus próprios guardiões têm medo de falar — ou pior, se fazem do silêncio sua sentença.

Posso morrer hoje ou amanhã, não morrerei como covarde

Por: Júnior Rafael
Por mais que a morte seja uma possibilidade real e cotidiana, há quem viva dobrado diante do medo, da opressão e da injustiça. Eu, não. Se o fim tiver de chegar hoje ou amanhã, que me encontre de pé, olhando nos olhos do mundo, dizendo o que penso, lutando por aquilo em que acredito. Não morrerei como covarde.
O silêncio, em muitos contextos, é um tipo de cumplicidade. Em sociedades marcadas por regimes autoritários, onde a verdade é reprimida e a crítica é punida, calar-se pode significar sobreviver, sim — mas à custa da dignidade. Há quem prefira esse caminho. Há quem escolha abaixar a cabeça, cumprir ordens injustas, obedecer leis desiguais e fingir que tudo vai bem. Eu não sou um desses.
A coragem não está apenas no ato de enfrentar armas ou desafiar poderes. Está, sobretudo, na recusa em se render ao medo. Está em escrever, falar, denunciar, mesmo quando o preço é alto. Está em erguer a voz pelos que não podem mais falar, pelos que foram calados, desaparecidos, torturados ou marginalizados por ousarem sonhar com um mundo justo.
Quando me levanto contra o sistema que oprime, quando denuncio as mentiras institucionalizadas, não estou apenas fazendo política. Estou fazendo humanidade. Porque é humano não se conformar. É humano desejar mudança. É humano resistir.
Não morrerei como covarde porque compreendo que a neutralidade, em tempos de injustiça, é uma escolha — e quase sempre, uma escolha do lado opressor. E eu escolho não ser cúmplice. Escolho me posicionar, mesmo sabendo que minha integridade, meu futuro ou minha vida podem estar em jogo.
Ser corajoso não é ser inconsequente. É ser ético. É saber que a covardia não protege ninguém por muito tempo. O silêncio hoje pode ser o túmulo de todos amanhã. E a história não perdoa os que assistem impassíveis ao sofrimento coletivo.
Se me perguntarem por que não me calei, direi: porque o mundo precisa de vozes, não de sombras. Porque a dignidade não se negocia. Porque o medo não pode ser maior que a esperança. E se o preço da minha coragem for a morte, que ela venha — mas que me leve com a alma limpa, sem correntes na consciência, sem o peso de ter traído meus princípios.
Eu posso morrer hoje ou amanhã. Mas não morrerei como covarde. Morrerei como alguém que, mesmo diante do abismo, se recusou a ajoelhar.
A história está repleta de exemplos de pessoas que viveram e morreram com essa mesma postura. Patrice Lumumba, líder independentista congolês, foi assassinado por se recusar a se submeter aos interesses neocoloniais, preferindo a morte a trair seu povo. Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso, ousou sonhar com uma África autônoma e justa — foi executado por forças contrárias à sua visão revolucionária, mas permanece símbolo de integridade e coragem.
No continente americano, Malcolm X tombou por sua luta incansável contra o racismo e pela dignidade do povo negro nos Estados Unidos. No Brasil, Marielle Franco, vereadora e ativista dos direitos humanos, foi brutalmente assassinada por denunciar a violência policial e a exclusão social. Sua voz ecoa até hoje como símbolo de resistência.
Também lembramos Sophie Scholl, jovem alemã da resistência ao nazismo, que ao ser levada à execução em 1943 disse: *”Alguém precisa fazer alguma coisa. O que nós escrevemos e dizemos é acreditado por muitos outros. Eles apenas não ousam se expressar como nós.”
Esses nomes — e tantos outros anônimos — provam que morrer de pé é muito mais digno que viver de joelhos. Eles nos lembram que a vida sem coragem é apenas uma longa morte em silêncio.
Se o fim vier, que eu esteja entre eles.

CONFLITO HOMEM-FAUNA BRAVIA: Destruição de culturas afecta mais de 520 famílias em Chemba

Mais de 520 famílias perderam suas culturas alimentares destruídas principalmente por elefantes, na zona de Tomucene, no posto administrativo de Mulima, distrito de Chemba. A população antecipa fome motivada por esta acção destruidora.

A população de Tomucene, no posto administrativo de Mulima, distrito de Chemba, lançou um grito de socorro ao Governo Distrital face à destruição das suas machambas por manadas de elefantes.

O grito de socorro foi dirigido ao administrador distrital, durante um comício popular na zona de Tomucene, na última quinta-feira.

Na ocasião, uma das moradoras, visivelmente indignada, relatou que os animais já não se assustam com os foguetes fornecidos para afugentá-los. “Trabalhamos muito, mas os elefantes estão a multiplicar os nossos esforços por zero”, desabafou.

Em resposta, o administrador informou que o Governo tem estas informações para encontrar soluções. Para tal, uma equipa técnica encontra-se em Chemba.

O último registo no conflito de Homem-Fauna Bravia, indica um ataque mortal de professor da Escola Primária de Nchena por elefantes, e outro ataque é referente a outro cidadão por hipopótamo na zona 3 de Fevereiro, estando internado no Hospital Rural de Mutarara, província de Tete. (Rosário Ntepa).

A máquina repressiva e a banalidade da violência na África lusófona

Por Júnior Rafael

“São cães que têm dono, obedecem a um comando…” – a frase atribuída a Frantz Fanon retracta de forma dura, porém precisa, a condição dos policiais na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Homens e mulheres armados, fardados, obedientes à ordem, mesmo quando essa ordem os coloca contra o próprio povo. Muitos deles vivem à margem da dignidade: sem teto, sem salários dignos, privados de saúde mental e física. Ainda assim, marcham. Atiram. Reprimem. Não contra o inimigo da soberania, mas contra o povo empobrecido que ousa gritar por pão, justiça e liberdade.

Este fenómeno precisa ser examinado com lentes filosóficas e políticas. Em Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt nos oferece uma chave de leitura. Segundo ela, regimes totalitários não se sustentam apenas pela figura de um tirano ou pela força de um partido, mas pela normalização da obediência cega, pela desumanização do outro e pela banalização da violência como prática cotidiana do Estado.

É exactamente o que vemos em certos contextos africanos hoje. A repressão de protestos em Angola contra o aumento dos combustíveis, a violência policial em bairros pobres de Maputo, ou a brutalidade em Bissau contra manifestantes políticos – não são actos isolados, mas partes de um sistema de dominação que transforma os agentes da lei em peças de uma engrenagem autoritária.

Arendt nos alerta: o totalitarismo precisa de massas atomizadas, ou seja, indivíduos isolados, amedrontados, incapazes de se unir. E quem melhor para garantir esse isolamento do que os próprios policiais? É a face mais cruel da manipulação estatal: transformar os explorados em guardiões da exploração.

No entanto, essa dominação não é apenas externa. O regime penetra também a subjectividade desses agentes. Muitos não percebem o quanto estão alienados do próprio poder. Foram convencidos de que sua missão é “garantir a ordem”, mas nunca lhes foi permitido reflectir sobre a quem serve essa ordem, e a que custo ela é mantida. Como Arendt escreve, no totalitarismo, a responsabilidade individual se dissolve: o policial apenas “cumpre ordens”. A consciência se anula.

Mas o problema não é apenas dos policiais. É estrutural. A herança colonial, longe de ter sido superada, foi reconfigurada em formas de autoritarismo pós-independência. As elites que hoje governam muitos países africanos reproduzem os mesmos mecanismos de vigilância, repressão e exclusão que antes serviam ao império colonial. O resultado é um Estado que teme seu próprio povo – e que responde com pancadas, gás lacrimogéneo e tiros às exigências legítimas por dignidade.

O mais trágico é que esses policiais também são vítimas. São filhos da pobreza, da má educação pública, da escassez de políticas sociais. Dormem mal, comem pouco, vivem com medo. Estão no limite. E ainda assim, carregam a arma do opressor. Como nos alerta Fanon, o colonialismo não apenas dominou territórios, mas moldou subjectividades. E essas subjectividades continuam colonizadas, mesmo quando vestem o uniforme do Estado-nação.

O que fazer, então? Primeiro, é preciso romper o silêncio. Denunciar os abusos, mas também promover uma educação política entre os próprios agentes de segurança. Mostrar que o povo não é inimigo, mas irmão. Que obedecer ordens injustas é também uma forma de violência contra si mesmo.

Segundo, é urgente desmilitarizar o olhar sobre o social. O Estado não pode continuar tratando o protesto como ameaça, o cidadão como alvo, o grito como crime. Como escreveu Arendt, a força não pode substituir a política. Onde há coerção, não há liberdade; e onde não há liberdade, a tirania floresce.

Contudo, é preciso apontar para a responsabilidade moral individual. Nenhuma farda, nenhum cargo, nenhuma ordem deve apagar a consciência de que há limites éticos. Um policial que atira em seu povo não é neutro: ele escolheu um lado. E quando esse lado é o da repressão, ele se torna cúmplice do sistema que o oprime.

A história cobrará esse silêncio. A memória dos povos feridos há-de despertar. E nesse dia, talvez, os “cães com dono” redescubram que são humanos – e que a verdadeira ordem é aquela construída com justiça e não com medo.

 

Jornal Profundus

Stay informed with curated content and the latest headlines, all delivered straight to your inbox. Subscribe now to stay ahead and never miss a beat!

Skip to content ↓