O nome do crime muda quando nos beneficia

Por Júnior Rafael

“Quando a corrupção nos favorece, chamamos de link.”

Essa frase — ácida, certeira, desconcertante — escancara uma hipocrisia social tão antiga quanto a própria corrupção. No nosso cotidiano, o “link” virou palavra mágica. É o atalho, o empurrãozinho, a chamada “ajuda de alguém de dentro”. Um favor com pedigree. Só que, quando olhamos bem, o que chamamos de “link” é, muitas vezes, só mais um disfarce para o velho e sujo esquema de corrupção.

Sim, é disso que se trata: da normalização do privilégio.

O “link” é o acesso à vaga que nunca foi divulgada, é o contrato assinado sem concurso, é o cargo com salário gordo porque se é “sobrinho de”. E nós — os mesmos que marchamos contra a corrupção quando ela beneficia outros — aplaudimos em silêncio quando o sistema nos sorri. Rimos, fazemos piada, mandamos print com emoji de choro de rir: “Amigo, arranjei um link lá”.

Mas será que o choro é de riso ou de vergonha?

Porque, no fundo, sabemos que algo está errado. Sabemos que essa lógica apodrece o tecido social. Que cada “link” concedido por amizade, parentesco ou bajulação elimina uma oportunidade de alguém que realmente merece. Que destrói a meritocracia que fingimos defender. Que empurra mais um jovem preparado para o desemprego e mais uma família honesta para a frustração.

Chamamos de link para nos poupar da culpa.

E assim, o crime muda de nome quando nos convém. Quando é com o outro, chamamos de corrupção. Quando é connosco, dizemos que é “sorte”, “network”, “jeito de sobreviver”. Mas não é. É conivência. É participação. É parte do problema.

A corrupção não começa nos gabinetes nem nos milhões desviados. Começa nos pequenos favores escusos, na cultura do quem indica, na normalização do “todo mundo faz”. Começa quando achamos bonito furar fila e chamamos de esperteza.

Talvez o maior desafio da nossa sociedade não seja apenas combater a corrupção nos altos escalões. É extirpá-la de dentro de nós. Reconhecer que o “link” também pode ser a semente da desigualdade. E que não há transformação social sem coerência.

Que a próxima vez que recebermos um “link”, tenhamos coragem de perguntar: Isso é justiça ou privilégio?

E se doer, é porque ainda temos salvação.

Gorongosa treina Conselho Consultivo em matérias de governação comunitária

O Parque Nacional da Gorongosa (PNG), através do Sector de Relações Comunitárias, treinou os Conselhos Consultivos da Localidade de Mazamba perfazendo 207 membros dos povoados de Khodzue, Massandza, Nhansole, Inchamba, Chite e Mazamba Sede em matérias de governação comunitária no distrito de Cheringoma, província de Sofala. Mas antes o Estado revitalizou o Conselho.

A Oficial de Género no Sector das Relações Comunitárias, no PNG, Helena Chicava, disse que devido à revitalização, houve a necessidade de todos os 207 membros dos 20 povoados para que possam estar em condições de dar início das suas actividades com conhecimento técnico e responsabilidade.

“A partir deste grupo já revitalizado, esperamos que as comunidades possam trabalhar de forma participativa, mais integrada, inclusiva e representada com diversidade”, disse Helena Chicava, para que “tenhamos futuramente resultados promissores quanto a integração das mulheres e homens”, acrescentou.

Durante o treinamento, “reforçamos com conhecimento técnico que diz respeito a Lei dos Órgãos Locais do Estado (Decreto n 11/2005) em termos legais para ajudar as comunidades a identificarem e discutirem as suas dificuldades de forma conjunta”.

“Aprendemos que qualquer coisa que formos a fazer na comunidade, discutamos para encontrar a melhor saída. [Mas antes], temos que conhecer as estruturas locais ou mesmo do bairro. Esperamos discutir e levar as preocupações da nossa comunidade a um bom porto”, disse Querida Ferro, membro do Conselho de Massandza.

As comunidades precisam de serviços básicos como os da saúde, posto policial e rede de telefonia móvel, por isso, “esperamos trabalharmos juntos [com o Governo do distrito para soluções] ”, continua o membro do Conselho Consultivo de Massandza, Carlos Francisco Nota Cassenga, avaliando que “o treinamento veio nos abrir visão, não sabíamos nada de critérios para a construção de quaisquer infra-estruturas económicas e educacionais”.

Os Conselhos Consultivos já revitalizados pretendem solucionar problemas com as condições locais e juntos colaborarem com as autoridades de Cheringoma. Por exemplo, neste momento, a comunidade de Mphepo, especificamente o regulado de Chidanga, prepara-se para cerimónias tradicionais acreditando-se que os animais não invadam aos campos de produção ou não façam mal aos residentes. (Lucas Singale).

Sustenta: Promessa vazia

Por Júnior Rafael

Disseram-nos que o Sustenta era o novo milagre agrícola. Que viria irrigar os campos, encher os celeiros e alimentar as bocas vazias. Disseram-nos que traria três refeições por dia para cada moçambicano — não de promessa, mas de prática. Disseram-nos que era o futuro, a salvação, o renascimento rural. Hoje, passados anos e milhões, só resta a pergunta: onde está o dinheiro do Sustenta?

Sustentou o quê, afinal? As comunidades camponesas continuam com enxadas enferrujadas, sementes escassas, transporte precário e mercados fantasmas. As bocas continuam vazias, os pratos continuam rasos, e as três refeições continuam no papel — talvez em PowerPoints de consultores bem pagos. Será que o Sustenta sustentou apenas os bolsos de quem dele se alimentou?

Há indícios de contractos sem transparência, de beneficiários-fantasmas, de tractores que nunca chegaram ao campo e de dirigentes que enriqueceram como quem cultiva semeando vento e colhendo notas. Os “projectos” foram, muitos, pretextos. E o povo, mais uma vez, ficou a ver navios — ou melhor, tractores imaginários.

E onde está a Procuradoria-Geral da República? Onde estão as auditorias? Onde estão os interrogatórios televisivos, os comunicados oficiais, os acertos de contas? Quando é o pobre a furtar uma galinha, não falta justiça. Mas quando é o Estado a desaparecer com milhões, só o silêncio é visível.

Quem deve desvendar esse segredo? A sociedade civil? Os jornalistas sufocados pela censura? Os activistas perseguidos como criminosos? Ou continuaremos todos à espera de uma justiça que nunca se apressa quando os suspeitos usam gravata?

O Sustenta não sustentou nada. Foi mais um programa com nome bonito e resultados invisíveis. E como sempre, sustentou a mentira, o teatro do desenvolvimento, a encenação da boa governação. Porque, na prática, o povo continua a jejuar — não por fé, mas por fome.

Enquanto isso, fica a lição amarga: em Moçambique, até o que deveria sustentar vira susto. E a pergunta continua ecoando nos campos secos: onde está o dinheiro do Sustenta?

MISA alerta para aumento de violações contra jornalistas durante processos eleitorais

O Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA Regional) manifestou preocupação face à crescente onda de violações e intimidações contra jornalistas na região, com especial incidência em períodos eleitorais.

Falando esta quinta-feira, durante a Reunião sobre Segurança e Protecção dos Jornalistas, no Malawi, o Presidente do MISA Regional, Jeremias Langa, alertou para os impactos graves desses ataques na liberdade de expressão e no acesso à informação. “Pela natureza da profissão e pelo seu papel fundamental na sociedade, os jornalistas têm sido alvo de ataques constantes, o que compromete a liberdade de expressão e pode levar à autocensura,” afirmou.

Langa sublinhou que, onde há autocensura, os cidadãos deixam de ter acesso a informações diversas, o que prejudica a sua capacidade de tomar decisões informadas sobre a governação.

O Presidente do MISA Regional expressou ainda a sua inquietação com os retrocessos registados pelo Malawi nos índices de liberdade de imprensa e de expressão e apelou para adopção de medidas urgentes que garantam um ambiente seguro para o exercício do jornalismo.

A dura realidade do activismo na Guiné-Bissau

Por Júnior Rafael

Na Guiné-Bissau, ser activista é ser sobrevivente — não só de um sistema político corroído por décadas de instabilidade, mas também de uma geografia da negligência. Um país onde até os sonhos precisam pegar carona em aviões que partem de outros lugares, porque sequer um aeroporto internacional funcional serve como porta de entrada ou de saída para a juventude que quer mais. Para sair da Guiné-Bissau, o guineense precisa antes sair de si — deixar para trás a terra natal e seguir por terra até o Senegal ou Gâmbia, para então embarcar num voo que o leve a algum lugar onde ser ouvido seja uma possibilidade concreta.

O activista guineense não enfrenta apenas a repressão directa do poder, mas também um silêncio estrutural, um abandono programado. As universidades são poucas, frágeis, sucateadas. Não conseguem absorver nem a sede de saber da juventude, tampouco oferecer o mínimo de formação que torne os gritos de mudança mais articulados e perigosos ao status quo. Quem sonha em estudar precisa de muito mais do que notas boas: precisa de paciência de monge, coragem de mártir e sorte de quem já nasceu fora.

E mesmo aqueles que ousam erguer a voz em meio ao caos institucional vivem sob constante ameaça. Ser activista na Guiné-Bissau é andar na linha ténue entre a liberdade e a perseguição. É fazer denúncias pelas redes sociais, porque os jornais são silenciados. É organizar manifestações sabendo que não há garantias, que a polícia pode calar com chambocos o que não quer escutar com ouvidos. E ainda assim, eles resistem. Os jovens guineenses não desistem. Fundam colectivos, promovem debates, fazem rodas de conversa em escolas — às vezes sem luz, às vezes sem carteiras, mas sempre com esperança. São jovens clandestinos no seu território.

Se ousar falar ou criticar o governo ou a inoperância do governo, logo recebe uma visita dos sipaios fardados para umas porradas bem sissocoadas. É um clima tenso. Muitos jovens, ao saírem do país, preferem não voltar, devido à dureza do modelo de governação e falta de garantias sobre o futuro e a segurança. Aliás, boa parte dos países africanos agem assim. Guiné-Bissau parece quintal de Sissoco — onde a vontade de um homem vale mais que a Constituição, e onde o medo é a linguagem mais falada.

Enquanto o mundo gira e esquece a Guiné-Bissau em algum canto do Atlântico, esses activistas seguem remando contra a maré da invisibilidade. Lutam não apenas por democracia, mas por dignidade básica: energia estável, hospitais que funcionem, universidades que formem, um aeroporto que conecte. Lutam, sobretudo, por um país que os reconheça.

A dura realidade do activismo na Guiné-Bissau é também uma lição de coragem. Uma coragem silenciosa, cotidiana, persistente. Que não ganha manchetes, mas alimenta, dia após dia, a chama de um futuro que ainda teima em nascer.

Para quando África? Para quando a liberdade? Como pôr fim o neocolonialismo na África lusófona?

Nampula: O espelho da negligência governativa

Por Júnior Rafael

 

A desnutrição crónica que assola Nampula não é apenas uma tragédia local, é um sinal de alerta nacional. A cada criança que cresce com fome, a cada mãe que vê seu filho definhar por falta de nutrição básica, não é só o futuro da província que é ameaçado, mas o do país inteiro. O cenário dramático revela, sem retoques, a falência de uma governação que há 50 anos promete desenvolvimento e entrega apenas paliativos.

Cinco décadas de independência, meio século de discursos inflamados e planos mirabolantes — e ainda assim, Nampula continua imersa em problemas que deveriam ter sido resolvidos no século passado: saneamento precário, acesso limitado à água potável, escolas sem nada, postos de saúde sem medicamentos. É como se os governantes tivessem envelhecido junto com as promessas, mas sem a sabedoria que a idade exige.

Há uma tentativa visível — e até ensaiada — de “resgatar” a imagem da província, mas essa recuperação é puramente estética. Pinta-se o centro da cidade, organiza-se um ou outro festival, tira-se fotos ao lado de painéis com dizeres de “progresso”. Enquanto isso, nas zonas recônditas de Angoche, Eráti, Mecubúri, Lalaua ou Memba, reina a pobreza extrema. Nampula é tratada como vitrine, mas a vitrine está suja, e atrás dela, o estoque é miséria.

A governação em Moçambique tornou-se um exercício de dissimulação: cria-se um plano de combate à desnutrição, mas sem orçamento funcional; inaugura-se uma escola, mas sem professores qualificados; projecta-se um hospital, mas sem pessoal ou equipamentos. O que se vê é uma lógica de maquiagem institucional. Não há estratégia real, nem vontade política para mudar a realidade concreta das pessoas.

Mais do que incompetência, o que vemos é uma governação sem compromisso com os pobres. O combate à desnutrição, por exemplo, deveria estar no topo da agenda pública, mas recebe tratamento de rodapé. Em vez de priorizar políticas de segurança alimentar, incentivos à agricultura familiar, distribuição justa de renda e acesso universal à saúde, o regime se dedica a proteger os interesses de uma elite acomodada e surda à dor popular.

Os jovens de Nampula — que deveriam ser a força motriz da mudança — vivem abandonados à própria sorte. Muitos sonham em emigrar, desistindo da esperança de um país que lhes negou tudo: escola de qualidade, emprego digno, comida no prato. Quando a juventude perde a fé na sua própria terra, é sinal de que algo apodreceu no topo.

A desnutrição em Nampula, portanto, não é uma excepção — é a regra de um modelo falido. Ela denuncia não apenas a ausência de políticas públicas eficazes, mas a presença danosa de um sistema que perpetua a exclusão e a desigualdade.

Se a política não servir para salvar vidas, então de que serve? E se um governo não consegue alimentar o seu povo, então já fracassou em sua função mais básica. Que os governantes parem de tapar o sol com peneira e encarem Nampula — e o país — com a seriedade que a situação exige. O povo já não se alimenta de promessas. A fome tem pressa, e a história não perdoa os que insistem em adiar o futuro.

“Não há emprego para todos, mas há trabalho”, disse Chaparica

“Não há emprego para todos, mas há trabalho”, disse o presidente do Conselho Municipal do Dondo, durante a graduação de mais de 30 formados, incentivando desta maneira os recém-formados a optarem pelo empreendedorismo. De 2021 a esta parte, o Instituto Médio Politécnico de Chaimite soma mais de 60 formados disponíveis no mercado para a área de Administração Pública.

Manuel Chaparica falava na última sexta-feira na cidade de Dondo, durante a II cerimónia de graduação do Instituto Médio Politécnico de Chaimite, delegação do Dondo.

Alguns graduados são funcionários do Conselho Municipal de Dondo.

“Não havendo emprego para todos, encorajo a embarcarem para incentivos de auto-emprego, trabalho autónomo para aqueles a que se lhes aplica. [E] o mercado de emprego é aberto. [Já estão formados, devem abraçar os postos de emprego no distrito, dependendo de cada um como são os seus contactos”, desafiou o autarca, recorrendo a exemplos: “temos jovens que trabalham grades e muitos artigos de ferro na serralharia, também muitos canalizadores, electricistas, contabilistas e administração publica”.

Para Chaparica não é desejo do Governo ter pessoas formadas, que ostentam diploma, mas que, na prática, não são capazes de desencadear uma iniciativa concreta para se libertar do desemprego e da pobreza, por isso, quero “encorajar para que continuem a batalhar na vida”.

Apesar de precisarem de procurarem emprego, o edil de Dondo desafia aos recém-formados a trazerem soluções aos problemas actuais, pois, “o Instituto coloca hoje, formalmente, à disposição, novos protagonistas da transformação com a importante tarefa de proporcionar respostas concretas e à altura das necessidades de que o país se ressente”.

“Uma vez formados, os jovens podem procurar um emprego por si e não serem empregados”, exortou o Director do Ensino Técnico de Chaimite, Manuel Vieira.

Sofia Nhanzozo, já graduada destaca os desafios enfrentados ao longo da sua formação em Administração Pública e Autárquica, porém a sua determinação foi crucial para o sucesso. “Foi difícil, mas com todo o sacrifício e vontade, consegui graduar”. E como funcionaria, pretende trazer dinamismo no sector.

Enquanto o recém-graduado, Matambo Zacarias, foca-se no auto-emprego. “Não tenho foco em busca de emprego no Estado, estou preparado para criar o auto emprego, através do empreendedorismo”. (Narcísio Cantanha).

Muanza prevê vacinar mais de 23.496 crianças contra poliomielite

O distrito de Muanza, em Sofala, prevê vacinar mais de 23.496 crianças de 0 a 10 anos de idade, em cinco dias. A informação foi avançada pelo secretário permanente distrital, Félix Nhama, durante o lançamento da segunda ronda da campanha de vacinação contra a poliomielite.

Independentemente do seu estado de imunização anterior, as crianças deverão tomar a vacinar.

“A pólio é uma doença altamente infecciosa e afecta a criança com menos de 5 anos de idade. A maneira mais eficaz de prevenir as crianças de contrair a pólio é tomando a vacina. A pólio pode levar uma criança a apanhar a paralisia”, chamou atenção Félix Nhama, por isso, apela aos pais a permitirem que as suas filhas sejam vacinadas.

A vacinação está a ser administrada de casa em casa nas unidades sanitárias e outros locais de aglomeração. (Cipriano João).

O polémico projecto para criar do zero DNA humano artificial

Foi dada a largada em um projecto controverso para criar as bases da vida humana a partir do zero — no que acredita-se ser algo inédito no mundo.

A pesquisa tem sido um tabu até agora devido a preocupações de que poderia levar a bebés projectados geneticamente ou a mudanças imprevistas para as gerações futuras.

Mas agora a maior instituição beneficente da área de saúde do mundo, a Wellcome Trust, concedeu uma verba inicial de £10 milhões (cerca de R$ 75,5 milhões) para iniciar o projecto, e afirma que ele tem potencial para fazer mais bem do que mal, acelerando tratamentos para muitas doenças incuráveis.

Julian Sale, do Laboratório de Biologia Molecular, do Conselho de Pesquisa Médica (MRC, na sigla em inglês), em Cambridge, no Reino Unido, que faz parte do projecto, disse à BBC News que a pesquisa é o próximo grande salto da biologia.

“O céu é o limite. Estamos buscando terapias que melhorem a vida das pessoas à medida que envelhecem, que levem a um envelhecimento mais saudável, com menos doenças à medida que envelhecem.”

“Estamos procurando usar essa abordagem para gerar células resistentes a doenças que possamos usar para ‘repovoar’ órgãos danificados, por exemplo, o fígado e o coração, até mesmo o sistema imunológico”, ele explicou.

Mas os críticos temem que a pesquisa abra caminho para pesquisadores inescrupulosos que buscam criar seres humanos aprimorados ou modificados.

Pat Thomas, directora do grupo de campanha Beyond GM, afirmou: “Gostamos de pensar que todos os cientistas estão lá para fazer o bem, mas a ciência pode ser reaproveitada para causar danos e para a guerra”.

Os detalhes do projecto foram fornecidos à BBC News no 25º aniversário da conclusão do Projecto Genoma Humano, que mapeou as moléculas do DNA humano, e também foi financiado em grande parte pela Wellcome.

Cada célula do nosso corpo contém uma molécula chamada DNA, que carrega as informações genéticas de que necessita. O DNA é construído a partir de apenas quatro blocos muito menores, denominados A, G, C e T, que se repetem várias vezes em combinações diferentes. Surpreendentemente, ele contém todas as informações genéticas que nos tornam fisicamente quem somos.

O Projecto Genoma Humano permitiu que os cientistas lessem todos os genes humanos como um código de barras. A nova pesquisa que está começando, chamada Projecto Genoma Humano Sintético, representa potencialmente um grande avanço — ela vai permitir que os pesquisadores não apenas leiam uma molécula de DNA, mas criem partes dela — talvez um dia, sua totalidade —, molécula por molécula a partir do zero.

O primeiro objectivo dos cientistas é desenvolver maneiras de construir blocos cada vez maiores de DNA humano, até o ponto em que tenham construído sinteticamente um cromossomo humano. Eles contêm os genes que regem nosso desenvolvimento, reparo e manutenção.

Eles vão poder então ser estudados e submetidos a experimentos para entender melhor como os genes e o DNA regulam nossos corpos.

Muitas doenças ocorrem quando há problemas com esses genes, portanto, os estudos podem levar a melhores tratamentos, de acordo com Matthew Hurles, director do Wellcome Sanger Institute, que sequenciou a maior parte do Genoma Humano.

“Construir o DNA a partir do zero nos permite testar como o DNA realmente funciona e testar novas teorias, porque actualmente só podemos fazer isso ajustando o DNA no [DNA] que já existe em sistemas vivos.”

O escopo do projecto vai se limitar a tubos de ensaio e placas de Petri, e não haverá nenhuma tentativa de criar vida sintética. Mas a tecnologia vai oferecer aos pesquisadores um controle sem precedentes sobre os sistemas vivos humanos.

E, embora o projecto esteja buscando benefícios na área de saúde, não há nada que impeça cientistas inescrupulosos de fazer mau uso da tecnologia.

Eles poderiam, por exemplo, tentar criar armas biológicas, seres humanos aprimorados ou até mesmo criaturas com DNA humano, de acordo com Bill Earnshaw, um cientista genético altamente respeitado da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que projectou um método para criar cromossomos humanos artificiais.

“O génio está fora da lâmpada”, disse ele à BBC News. “Poderíamos ter uma série de restrições agora, mas se uma organização que tem acesso ao maquinário adequado decidir começar a sintetizar qualquer coisa, não acho que conseguiríamos impedi-la.”

Thomas está preocupada com a forma como a tecnologia vai ser comercializada pelas empresas de saúde que desenvolverem tratamentos resultantes da pesquisa.

“Se conseguirmos criar partes sintéticas do corpo ou até mesmo pessoas sintéticas, quem será o proprietário delas? E a quem pertencem os dados dessas criações?”

Dada a possibilidade de uso indevido da tecnologia, a pergunta para a Wellcome é por que eles decidiram financiá-la. A decisão não foi tomada levianamente, de acordo com Tom Collins, que deu o aval para o financiamento.

“Nós nos perguntamos qual seria o custo da inacção”, disse ele à BBC News.

“Essa tecnologia vai ser desenvolvida um dia, portanto, ao fazer isso agora, estamos pelo menos tentando fazer da maneira mais responsável possível, e confrontar as questões éticas e morais da maneira mais directa possível”.

Um programa dedicado de ciências sociais será realizado em paralelo ao desenvolvimento científico do projecto, e será liderado por Joy Zhang, socióloga da Universidade de Kent, no Reino Unido.

“Queremos saber a opinião de especialistas, cientistas sociais e, principalmente, do público sobre como eles se relacionam com a tecnologia e como ela pode ser benéfica para eles e, principalmente, quais são suas dúvidas e preocupações”, ela explica.

O polêmico projeto para criar do zero DNA humano artificial – BBC News Brasil

AS LOUCURAS DE SISSOKO: O ditador que quer virar pacificador

Jornal Profundus

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