Vesti rosa em Outubro,
e não era para mim.
Era um colete emprestado,
como o país que Samora nos emprestou
antes de cair em Mbuzini.
Minha mãe diz que naquele dia,
até as capulanas choraram.
Eu não estava lá.
Mas carrego o choro no bolso,
como quem carrega um laço.
Samora dizia:
“A mulher é a outra metade do povo.
Sem ela, não há libertação.”
Hoje, a metade do povo
esconde um caroço no peito
com medo de dizer:
tenho medo.
Outubro chegou rosa.
Nas escolas, nos hospitais, nos mercados da Beira,
a mulher moçambicana toca o seu próprio corpo
como quem toca a sua própria terra.
E quando ela se toca,
sem vergonha,
ela está a libertar Moçambique outra vez.
Eu, homem,
visto rosa.
Não para ser bonito.
Visto rosa para ser aliado.
Para dizer à minha irmã, à minha mãe, à minha futura filha:
Vai.
Faz o rastreio.
Eu vou contigo.
Se doer, eu choro contigo.
Se curar, nós brindamos.
Como brindava Samora?
Com água do rio e punho no ar:
“A Luta Continua!”
A luta continua, Camarada Presidente.
Hoje a luta não tem fuzil.
Tem um laço rosa.
Tem um dedo que apalpa.
Tem uma boca que diz
“vamos ao centro de saúde”.
Há 40 anos caíste em Mbuzini.
Caíste tu.
Não caiu a ideia.
A ideia vestiu capulana,
vestiu bata de enfermeira,
vestiu colete rosa,
e foi falar com as mulheres.
Se um dia eu tiver uma filha,
vou dizer-lhe:
Houve um homem que amou as mulheres
antes de Outubro ser rosa.
Chamava-se Samora.
E ele ainda mora aqui,
neste colete que me emprestaram.
Kanimambo.
Autor: Sousa Artur Sousa Roupa
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